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escrevo a dor e o prazer de viver vivo para escapar da morte morro e acordo cada vez mais forte

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Há vida depois do rock?

Queridos e queridas,

Um documentário sobre Kurt Cobain acaba de estrear no Rio de Janeiro e em São Paulo. O filme foi dirigido por A. J. Schnak, e realizado a partir das entrevistas do roqueiro a Michael Azerrad, autor do livro A História do Nirvana. Estas entrevistas foram feitas há cerca de um ano antes do ícone do rock grunge morrer. O documentário tem um nome tão lindo quanto inusitado: Kurt Cobain - retrato de uma ausência. Pelo título compreende-se imediatamente uma metáfora sobre a morte do cantor. Mas também refere-se aos problemas que o diretor teve, por não contar com um arquivo de imagens com shows e outros registros sobre a vida pessoal de Cobain.

O que poderia ter inviabilizado a realização deste documentário, terminou se transformado em seu maior diferencial: o filme mostra Cobain absolutamente à vontade, espontâneo, falando sobre temas de sua vida pessoal, sua infância conturbada desde o divórcio de seus pais, a relação tão apaixonada quanto tumultuada com Courtney Love, e temas mais pesados e difíceis de falar ainda, como o fato de ele ter transtorno bipolar, usado drogas, e seus pensamentos suicidas - os quais viriam a consumar-se, em abril de 1994. Em 1979 seu tio-avô suicidou-se com um tiro no estômago. Em 1982, Kurt fez um curta metragem chamado Kurt commits bloody suicide. Em 1984, outro tio-avô também se matou.

O diretor Schnack resolveu criativamente a falta de imagens, ou mais provavelmente, do direito ao uso de imgens de shows e do acervo familiar do músico. No documentário, sempre que Cobain fala sobre algum aspecto marcante de sua vida, aparecem imagens das cidades, várias, onde ele morou, pernoitou, por onde passou, com suas respectivas paisagens e moradores. Essa ausência de Kurt está presente nas imagens do filme. Este documentário é um grande achado para se conhecer mais intimamente o pensamento e os sentimentos de um jovem lindo, deprimido, criador de composições geniais, criador de músicas inesquecíveis e de um gênero no rock que continua firme até hoje, o grunge, o rock alternativo. Rock que é mais do que música, é expressão do pulsar da vida, do rebelar-se, do expressar-se, da liberdade.

Kurt tinha o rock nas veias. É dele a frase "quando o rock morrer o mundo vai acabar". Porque no rock o líder do Nirvana depositou toda a sua força criadora, a sua rebeldia, os seus traumas de infância, a sua desesperança, seus medos, sua força tão grande quanto frágil. Era um artista, atormentado por não saber lidar com sua vida, tão cheia de janelas que se abrem e se fecham, de portas que se abrem e se fecham. O que não impediu que, mesmo depois de passados 15 anos de seus suicídio, ainda repercuta lastimavelmente a ausência do maior ídolo do rock nos anos 90, e que até hoje tem uma legião de seguidores, entre os quais, eu.
Bom fim de semana!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

15 passos e um corte

Queridos e queridas,

Por que, depois da atração, a retração? Por que, depois da paixão, a melancolia? Por que, depois da descoberta do amor correspondido, a separação?
Porque estes são alguns dos elementos centrais de um roteiro sobre uma história de amor.
Os melhores romances de todos os tempos, como Casablanca e E o vento levou, assim são considerados graças a um conjunto de fatores técnicos, mas sobretudo porque uma ótima história tem tudo para resultar em um ótimo filme.

Muitas vezes essas histórias começam nos livros. Um exemplo para mim marcante é a obra A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. O livro, publicado em 1984, foi adaptado para o cinema pelo diretor Philip Kaufman, em 1988. A história gira em torno do amor e do desamor, das formas diversas de amar uma mesma pessoa, ou das formas diversas de amar pessoas diferentes, ou se é possível amar dessas formas diversas, ou ainda, se é possível realmente amar. A leveza e o peso existem na mesma medida, a presença de um é a ausência de outro, o amor e o desamor, o encontro e o desencontro, o amor ideal e o amor real.

Com tão forte teor filosófico e psicológico, impecavelmente escrito por Milan Kundera, resta o hercúleo desafio para transpor uma história com essa complexidade para o cinema.
Teria o filme causado o mesmo impacto?
O filme foi indicado ao Oscar como melhor roteiro adaptado, o que indica que sim.

Eu não abro mão de ler o livro que dá origem a um filme. Considero um dos maiores desafios para um roteirista adaptar uma obra literária para o cinema. O filósofo Jean-Paul Sartre, a quem admiro por tudo o que escreveu, roteirizou a biografia de Sigmund Freud para dar à luz ao filme Freud, além da alma. Dirigido por John Huston, em 1962, o filme, apesar de correto, é acadêmico. Sartre não é creditado no roteiro, porque o seu roteiro original era tão imenso quanto uma tese. Quando o diretor pediu que ele revisse o feito, ele revisou. E acrescentou mais páginas ainda... Já o livro feito por Sartre atravessa nosso imaginário o tempo todo, pela maestria com a qual Sartre escreve e descreve os dramas pessoais vividos pelo pai da Psicanálise.

Agora estou prestes a sugar as páginas dos livros que deram origem ao filme Crepúsculo e as suas continuações, Lua Nova e Eclipse. Desta vez, vi o filme antes de ler a obra. Estou ansiosa para ler. Torço para o livro superar o que vi. Mas gostei tanto deste filme, que torço que o próximo, Lua Nova, previsto para estrear em 20 de novembro, seja tão bom ou melhor do que Crepúsculo. Porque, apesar das controvérsias de opinião (tenho amigos que adoram e outros detestam este filme), eu continuo a afirmar que, mais do que mais um filme sobre vampiros, e independente de toda mídia em torno dele, esta obra prima pela maneira delicada com a qual costura uma história de amor: Por que, depois da atração, a retração? Por que, depois da paixão, a melancolia? Por que, depois da descoberta do amor correspondido, a separação?
Há respostas. Basta olharem esses filmes.
Boa noite!

15 Step (Radiohead - Composição: Thom Yorke) Na trilha do filme Lua Nova
15 Passos
Como pude terminar onde comecei?
Como pude terminar onde errei?
Não tirarei meus olhos da bola novamente. Você me enrola e depois corta o fio.
Como pude terminar onde comecei?Como pude terminar onde errei?
Não tirarei meus olhos da bola novamente.Você me enrola e depois corta o fio.
Você costumava ser legal. O que aconteceu? O gato comeu sua língua? Seu fio desenrolou?
Um por um Um por um Vem para todos nós É tão macia quanto seu travesseiro
Você costumava ser legal O que aconteceu? Etcetera Etcetera
Fatos para o que quer que seja Quinze passos E um corte.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Pelas ondas do rádio

Queridos e queridas,

Estava eu aqui, neste começo de madrugada, terminando de escrever o script do próximo programa Liga dos Direitos Humanos, que apresento na Rádio da Universidade. Este é um programa especial, feito em memória ao professor Nilton Bueno Fischer, que faleceu subitamente neste domingo. Eu via poucas vezes o professor Fischer, porque trabalhávamos em andares diferentes, em horários muitas vezes diversos, como costuma ser o dia-a-dia na Faculdade de Educação da UFRGS. Todos os dez andares tomados por salas sempre cheias de aulas, debates, eventos. Pulsando, fervilhando idéias. Adoro este lugar, no qual fui tão bem acolhida há nove anos, pela professora e então diretora, Merion Bordas. Eu havia saído da Rádio da Universidade, após uma súbita troca de direção, que fora feita de forma anti-democrática. Até então, os diretores vinham sendo eleitos pelo corpo de funcionários da emissora. E o jornalista, meu grande amigo e mestre Ilgo Wink, o melhor diretor que a rádio teve, foi substituído. Ele era bom demais. Dinâmico, empreendedor, visionário. Sabia que o grande diferencial da rádio era a sua programação voltada para a música erudita. Por ser jovem, lembro que na época em que ele assumiu havia um certo receio que ele encampasse uma revolução na programação, do tipo Abaixo Bach! Fora Beethoven! Que queres aqui, Mozart? Até tu, Vivaldi? E jogasse os discos de vinil pela janela como se fossem - e seriam! - discos voadores. Imagine se ele ainda usasse barba....

Pois o Ilgo, além de reforçar a programação musical erudita com programas especiais e comentados sobre esta grande arte, investiu em programas novos sobre Chorinho, Tango, Jazz e Música Popular Brasileira. Investiu também em novos programas culturais, onde personalidades do meio cultural eram entrevistadas, e onde programas ao vivo - sim, os programas de auditório - passaram a ser produzidos em ocasiões especiais. Radionovela, músicos cantando ao vivo, tocando piano, sax, performances de teatro e debates com grandes nomes, como Moacyr Scliar, Décio Freitas, Armindo Trevisan, só para citar alguns.

Saímos de lá em protesto, solidários, e solitários, talvez.
Mas quem pega o gosto pelo microfone no ar não pára mais.

Meu grande amigo e mentor está atuando (desde que nasceu, acho, pois tem voz de locutor) , no jornalismo esportivo, na assessoria de imprensa, o cara não pára. E eu, quase oito anos depois, via o seriado Frasier, do psiquiatra que apresenta um programa de rádio, e fiquei com uma saudade danada daquele ritual todo, do imaginar o programa, elaborar a pauta, procurar às vezes com sorte e às vezes com desespero pelo entrevistado, entrevistar, editar, produzir, até que o programa sai do forno para os ouvintes. E começa tudo de novo.

Mesmo com a internet, YouTube, Mptodos, etceteraetal, o rádio é um veículo que não envelhece. É como um livro. São sagrados. São verdadeiras descobertas do ser humano. Mesmo quando não conseguimos sintonizar direito, quando fica sem pilha (!), o rádio é, antes de tudo, um companheiro. Parceiro no criado-mudo, no travesseiro, no jogo de futebol, em um canto na cozinha, no carro, onde a gente quiser. Um companheiro que nos fala, nos traz a notícia, a música, espanta a solidão.

O professor Nilton Bueno Fischer gostava da rádio da UFRGS, e ficou muito feliz quando foi entrevistado por mim em 2008, quando a FACED completava mais um aniversário. Lembro como se fosse hoje a alegria dele em relembrar dos carreteiros que eram feitos na FACED, e de pedir, publicamente, pelas ondas do rádio, que a comunidade facediana e da Ufrgs voltasse a confraternizar mais, a se encontrar mais. Ressignificar, disse ele.
É com muito carinho que fiz esse programa, para ser ouvido pelos 1080AM, pela internet. Para que a voz dele continue a ecoar pelas ondas do rádio.

Como Woody Allen escreveu no roteiro do filme A Era do Rádio (1987), o personagem Joe diz
" and I’ve never forgotten any of those people… or any of those voices we used to hear on the radio.” Não, nós nunca esquecemos de nenhuma dessas pessoas... ou daquelas vozes que nós costumávamos ouvir no rádio".
As pessoas vão, o imaginário, não.
Beijos!

terça-feira, 28 de julho de 2009

Cinema, direitos humanos e expectativas

Queridos e queridas,

Minha vida é um blog aberto. Desde que comecei a escrever aqui tem sido assim. Comentar sobre filmes, sobre a vida, sobre os fatos. Realidade e ficção. Que concebo e vejo de forma completamente diferente desde que passei a estudar na área de direitos humanos, e a ingressar, como autodidata, no mundo do cinema. Porque tenho muito claro a importância que a linguagem audiovisual tem na expressão, difusão, e reflexão crítica com relação a causas sociais, às violações cometidas nos direitos fundamentais e sociais de pessoas, de comunidades em situação de exclusão, de discriminação, de vulnerabilidade.

Essa combinação de ideais -cinema e direitos humanos - me levaram a pesquisar, roteirizar e posteriormente codirigir o documentário Perambulantes -A vida do povo de Acuab em Porto Alegre. O filme foi lançado em 2008, com 60 minutos de duração, e com financiamento do Fumproarte. Apresenta, em forma de um docudrama, o encontro da Cacique Acuab com o fotojornalista Carlos Carvalho, em um passeio por vários locais de Porto Alegre. Neste passeio, o jornalista (o "homem branco") descobre onde e como vivem os indígenas em Porto Alegre, através dos depoimentos de indígenas Guarani e Kaingang. A cacique relata a luta de sua comunidade em busca do reconhecimento da etnia Charrua, mostra o local onde vive sua comunidade, e apresenta ao fotojornalista aspectos de sua cultura (pelas danças, música, artesanato, cultivo de ervas, e pelos depoimentos de seus familiares).
O documentário reúne, ainda, depoimentos de pesquisadores na questão indígena, nas áreas de antropologia, educação, história, direito, assistência social, direitos humanos.
Um outro tema absolutamente novo e caro aos indígenas, a questão das ações afirmativas e o direito dos jovens indígenas ao ingresso no ensino superior, é também focalizado neste filme.
O documentário teve várias exibições públicas e gratuitas. O projeto previa a produção total de 150 DVDs, que foram doados às comunidades indígenas, escolas,universidades, Ongs.

Pois eu resumi a proposta deste documentário, em primeiro lugar, para reafirmar o meu compromisso com a causa indígena. O Brasil é historicamente violador de direitos indígenas especialmente no Norte e no Mato Grosso, onde índios são mortos, os suicídios crescem vertiginosamente, mas essas notícias não saem nos jornais. Esses são outros diferenciais de Perambulantes: por meio de depoimentos e efeitos de animação, o filme reconstrói a história do descobrimento do Brasil a partir do ponto de vista indígena, contrariando a história oficial do descobrimento. E uma extensa pesquisa de clipagem apresenta no vídeo manchetes de jornais, para se ter uma idéia de como os indígenas são tratados, retratados e destratados pelo governo, por setores da sociedade, pelos políticos que muitas vezes os tratam de forma assistencialista com fins eleitorais.

Eu e toda a equipe de produção tratamos deste tema com o carinho, a responsabilidade, e o respeito que merece. Foram quase cinco meses de edição. Foram muitas incontáveis noites insones, vendo, revendo, vendo de novo as cenas, procurando dar o melhor tratamento dentro de condições extremamente modestas que o orçamento permitia.

Tive e tenho muito orgulho desta equipe. Vestiram a camiseta pela causa indígena. Das produtoras que se tornaram parceiras do projeto desde o começo. Que procuraram sempre o apuro técnico que dão a todos os trabalhos que fazem. A todos os depoentes que com o maior prazer foram exaustivamente entrevistados, para deixar gravado seu testemunho pela causa indígena. E, especialmente, a todos os indígenas que participaram do filme, por nos acolherem afetuosamente, por perceberem que nossa intenção foi propiciar um registro de suas lutas, de suas reivindicações por uma realidade digna para suas comunidades. Meu contato com a Cacique Acuab foi desde o início, de sentir-me escolhida e de escolhê-la para ela, como mulher, como indígena e como cacique, ter a oportunidade, a primeira de muitas outras portas que se abrirão, para falar sobre a luta de seu povo pelo reconhecimento da etnia Charrua.

Quero dizer que ao longo do trabalho de pré-produção, e mesmo de produção, ouvi muitos especialistas que não corroboram este reconhecimento. Eu segui, mesmo assim. Quero dizer que houve inúmeros problemas de bastidores, de stress de produção, de falta de patrocínio, que surgem como tentações para nos fazer parar no meio do caminho. Não parei.

Hoje à tarde foi um dos dias mais melancólicos de meus 43 anos. Compareci a uma reunião de esclarecimentos na Defensoria Pública da União, juntamente com as duas colegas de direção/produção. Havia na sala, além da Defensora, da Cacique e sua filha, uma professora de antropologia da UFRGS, o representante da Funai, o antropólogo do Museu Antropológico do RS, outro antropólogo, e, soube somente no fim da reunião, que também lá estava uma repórter do Jornal Correio do Povo. Gostaria que a imprensa tivesse a mesma agilidade de ficar uma tarde inteira cobrindo as necessidades de umacomunidade indígena, po exemplo. Mas isso rende notícia?
A cacique, depois de seis meses de lançamento do filme, não o reconhece como representativo da causa Charrua. Querem comercializar cópias do DVD, como forma de indenização, mas um DVD que atenda as suas expectativas. O que seria uma nova edição. Só que sem financiamento do Fumproarte. Estamos nós, roteirista/produtora/diretoras, as legítimas autoras da obra, colocadas na berlinda, prestes a irmos ao banco dos réus, por danos morais ou à imagem ou outra alegação do gênero, porque pretensamente realizamos um filme que seis meses após passa a não corresponder às expectativas. Depois que saí daquele ambiente, só conseguia lembrar de Giordano Bruno. E por isso escolhi o cartaz do filme Amor sem fronteiras (produção de 2003 dirigida por Martin Campbell). Porque este filme mostra que a paixão por alguém ou por uma causa transforma, para sempre, a vida de uma pessoa. O que aconteceu comigo.

Chorei em casa, sozinha. Liguei para o meu melhor amigo. Pedi para minha filha voltar mais cedo do trabalho. Pensei, por um segundo, em rasgar meu diploma de especialista em direitos humanos. Pensei em jogar fora as matrizes dos vídeos em direitos humanos que venho produzindo, desde 2008, graças a uma equipe - muitos dos quais reunidos a partir do Perambulantes - que vem trabalhando de forma voluntária, pois até o momento não temos patrocínio para os vídeos em direitos humanos.

Lembrei que meu casamento começou definitivamente a terminar no dia em que eu, feliz, feliz, muito feliz, fui falar para o meu marido que meu primeiro roteiro, um documentário sobre a Cacique Acuab e os indígenas em Porto Alegre, tinha sido aprovado com três pareceres positivos no Fumproarte. Ele não me deu o apoio que eu pensei que teria. Criticava o tempo que eu dedicava a essa causa, e o dinheiro que tantas investi para poder fazer coisas que só quem entende de produção sabe do que estou falando. Deixei o casamento, mas não a causa.

E hoje foi, para mim, uma provação. Sou descrente, estou no limbo, mas me ocorre pensar em Jó.
Senti-me em uma babel. O mundo em que vivemos é muito complicado por uma razão muito simples: porque complicamos o simples.

Vou chorar o que tiver que chorar. Mas não vou parar. A causa indígena é muito maior.
Se houve qualquer desagrado a quem quer que seja mostrado neste filme, no meu entendimento, um sincero pedido de desculpas, um abraço forte e fraterno, seria selar um acordo de paz.

Mas vivemos no mundo das indenizações, dos danos morais. E do inusitado: eu, uma frustrada cineasta e uma frustrada defensora de direitos humanos, estou na berlinda por causa daqueles a quem dedicou estudo e afeto.A estas pessoas, o meu sincero pedido de desculpas, o desejo de um abraço fraterno, Mas nunca, um acordo no qual eu abandone, por um segundo, a consciência tranquila de ter feito o melhor possível.
Boa noite.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Vilões

Queridos e queridas,

Não existiria o herói se não existisse o vilão. Ou, por causa da existência do vilão, é que surge o herói. Seja nas histórias em quadrinhos, seriados, novelas, ou nos filmes de cinema, a figura do vilão sempre ganha destaque. Às vezes ganha tanto, que o vilão deixa de ser coadjuvante para se transformar no quase protagonista. Quase, porque nosso mundo pré-apocalíptico capitalista não aprovaria que o mal triunfasse sobre o bem, que o vilão vencesse o herói. Não na ficção. Não é politicamente correto. Então, nos desenhos e nas fábulas o vilão vai para trás das grades, perde o duelo, não fica com a mocinha. Alguém lembra do Dik Vigarista e seu inseparável e rabujento cão Mutley? Pois eu via a Corrida Maluca por causa deles. Eles nunca venciam a corrida, porque trapaceavam.
Mas a corrida só tinha graça por causa deles.

Já na vida real, acontece normalmente exatamente o contrário. A violência cresce, e com ela aumentam os homicídios, latrocínios, tráfico de drogas, de menores... A corrupção se alastra, e com ela a impunidade que serve como um troféu para políticos e outros que com eles formam uma verdadeira rede ilícita e endêmica. O cidadão paga heroicamente os impostos, os juros, o crédito rotativo, os endividamentos que protelam sua derrocada e sua dignidade. Os sem-teto tem o super-poder de sobreviver ao frio, ao gélido e cortante frio do inverno gaúcho.
Os excluídos rumam, heroicamente, para a esperança de que um dia as coisas melhorem.

Enquanto isso, os poderosos representantes dos países mais poderosos do planeta Terra se reúnem para fruirem jantares dantescos, proferem discursos que não redigiram e não leram. É um show de protocolares formalidades, onde o que mais preocupa a grande mídia é divulgar o novo vestido de Carla Bruni ou o novo penteado de Michele Obama. Quantos morreram hoje no Afeganistão? Como estão sendo assistidos os refugiados de guerra?
Que governantes estão realmente cumprindo os tratados de paz? Deixando de investir em armamentos, reformas na decoração e infindáveis reuniões para decidir que não decidiram nada?

Nos filmes, a realidade inspira, e como inspira, a criação de vilões. Dos mais citados e requisitados, está Darth Vader. O lado negro da força. O vilão mais elegante, a voz mais inconfundível de todos os tempos. O vilão dos vilões. O alter-ego do belo e atormentado Anakyn, que de maior discípulo de Obi Wan se transformou em seu maior opositor. "I hate you!" esbraveja Anakyn na luta contra Obi Wan. Esta relação de amor e ódio é o que separa e é o que une o herói ao anti-herói. Cordão umbilical. Feitos um para o outro. Esse é também o caso de Batman e Coringa. De todos os vilões que Batman enfrenta, e é uma verdadeira galeria de super-vilões, Coringa é o mais intrigante, é o melhor e pior vilão de todos. Melhor porque seu riso e seu sadismo o tornam um vilão irresistível e carismático. Pior, porque é sombrio, sombrio como Batman. O espelho de Batman. O outro lado do justiceiro, o da vingança.
Por isso Batman nunca ri. Por isso Coringa ri o tempo todo.

Existem outros famosos vilões, e não pretendo aqui citá-los todos, a não ser alguns que me ocorrem agora, como o Dr. Hannibal Lecter, o psiquiatra canibal de gélidos olhos azuis; os clássicos Nosferatu e Conde Drácula, vampiros que são fonte de inspiração para todos os vampiros que vieram depois; Sauron, a força maligna em O Senhor dos Anéis; Voldemort, o arquiinimigo do bruxo do bem Harry Potter. Leatherface, do filme O Massacre da serra Elétrica, e Mike Myers, dos filmes Halloween, os assassinos Fredy Kruger e Jason, são outros vilões no gênero espirra sangue-que-tem-gente-que-gosta.
Os vilões mais vilanescos são os cerebrais, estrategistas, dissimulados. Porque são os mais humanos, os que quase convencem que o que fazem é porque faz parte da natureza humana, e não por maldade. Um deles é Jigsaw, de Jogos Mortais. O outro está no famoso filme de suspense Os Suspeitos (1995), de Bryan Singer. O vilão Kayser Soze é um homem ardiloso e inescrupuloso. Mas parece ser o tempo todo um idiota. Quem vai se preocupar com as palavras e as ações de um idiota? Um roteiro espetacular, com atuações igualmente fantásticas, especialmente a de Kevin Spacey como Kayser Soze, fazem o ponto de virada bem no final do filme, quando o idiota se revela um vilão com pós-doutorado cinco estrelas. Filme que ganhou Oscar de melhor roteiro original e melhor ator coadjuvante (ou vilão coadjuvante), para um dos atores que mais gosto, Kevin Spacey.
O vilão é sorrateiro. Ri de todos, da idiotice dos outros, mesmo quando está sério. O verdadeiro vilão, a essência do mal, dá um sorriso de lado, faz um olhar comprido. Saboreia o gosto da mentira, da trapaça, da falcatrua. Os vilões fazem os filmes de ação terem ação, os filmes de suspense manterem suspense, as comédias nos fazerem rir, e os dramas se tornarem intensos. Sem vilão, não ha motivo para existir um herói.

Mas os vilões anônimos, esses que assinam acordos pela guerra e não pela paz, que desviam recursos públicos que poderiam matar a fome de muitos flagelados, esses estão bem mais perto de nós do que podemos supor. E até Darth Vader e Kayser Soze ficam envergonhados, por saberem que com esses vilões ainda tem muito a "aprender".
Abraços!

domingo, 26 de julho de 2009

Xeque-Mate

Queridos e queridas,

Hoje é para mim um dia melancólico. Vou escrever um pouco sobre o cineasta da melancolia, Ingmar Bergman. Autor de Fanny e Alexander (1982) e de outros clássicos, como Noites de Circo (1953), A Fonte da Donzela (1960), Gritos e Sussurros (1972), O Ovo da Serpente (1977), Sonata de Outono (1978). O sueco realizador de mais de cinqüenta filmes, além de peças para rádio e teatro, é o cineasta preferido do meu cineasta preferido, Woody Allen.

É referência fundamental para quem gosta de cinema. Para quem gosta da vida e questiona a existência. A propósito desse questionamento constante em toda a obra bergmaniana, está o clássico "O Sétimo Selo". Realizado em 1957, mostra uma poética e contundente reflexão sobre o encontro com a morte. Uma alegoria filmada em preto e branco, que se passa no século XIII, em um mundo corroído pela peste negra. A morte vem buscar Antonius (Max Von Sidow), mas ele não quer partir antes de compreender o sentido da vida.
Propõe um jogo de xadrez, no qual a morte, perdedora, continua a persegui-lo.

É pelo encontro com a morte que compreenderemos finalmente o sentido da vida? Ou a sua falta de sentido? Durante a caminhada, não parece ser saudável ficarmos paralisados diante da única e inexorável certeza que temos, que é o encontro com a morte. Talvez como defesa, ou como contra-ataque, ficamos a ocupar o nosso tempo fazendo coisas. Estudamos, trabalhamos, casamos, descasamos, perdemos o emprego, achamos outro, ou não, paramos de estudar, ou nos formamos, acertamos, erramos. Vivemos.
Mais do que respirar, para alguns. Respirar e um pouco mais, para outros.
Cada um procura, a sua maneira, um sentido para a vida.
Cada um adia, a sua maneira, o encontro com a sombra e seu cajado.

O Sétimo Selo, apesar de ter sido realizado em 1957, mostra um mundo atual, o mundo caótico. A dança com a morte apresenta todos os males e os maes de todos. A genialidade e a atualidade de Bergman estão aí, a mostrar que morremos um pouco todos os dias, nos matamos como civilização, e ao mesmo tempo olhamos com distanciamento, como se isso não nos afetasse, apenas aos outros. Mas esse jogo de xadrez será jogado por todos. Xeque-mate.
Onde o vencedor é sempre o mesmo. Jogo sujo, golpe baixo.

A melancolia de Bergman é este dar-se conta da efemeridade da vida, e do que fazemos nesse interim. Melancolia que me toca profundamente hoje, por receber mais um choque, mais uma perda brutal.
O querido educador, professor Nilton Bueno Fischer, da Faculdade de Educação da UFRGS, deixou-nos hoje. Assim, subitamente.

Fico a imaginar um plano aberto, mostrando um tabuleiro gigante. Nele vejo Frei Rovílio e professor Hugo, caminhando lado a lado, e recebendo, de braços bem abertos, o professor Nilton. Alguém se aproxima deles. Em um plano bem fechado, vê-se que é Ingmar Bergman.
Eu tenho certeza que esse encontro será lindo, com poesia, piadas, sabedoria, solidariedade.

Talvez pessoas que se tornam referências em nossas vidas pelo seu exemplo, pela sua forma humana de ser, ensinar e agir, tenham compreendido o sentido da vida. E por isso se vão.
Eu prefiro pensar assim. Na partida da vida, todos partem.
A nós, fica a próxima jogada, até o dia do Xeque-Mate.
Abraços.

sábado, 25 de julho de 2009

Salve-se quem puder

Queridos e queridas,

Olhem bem este cartaz. Vocês estão vendo essas pessoas sentadas ao lado de Michael Moore? Para elas, não há motivo para rir. É assim que o atual sistema de saúde não trata as pessoas. Não há dignidade, nem competência, nem prioridade à assistência médica, hospitalar, dentária e social. Com exceção, óbvio, para os donos do poder e do dinheiro.
Dinheiro, sempre ele. A causa de todos os males.

No documentário Sicko (2007) o cultuado documentarista apresenta várias histórias de cidadãos norte-americanos que foram mal-tratados pelo SISTEMA de saúde. Há os sem seguro-saúde, os com seguro-saúde e nem por isso com a garantia de um bom atendimento. Nos Estados Unidos, o único serviço público gratuito na área da saúde é a vacinação e emergências graves.
O filme mostra ainda outros sistemas de saúde, em países como Canadá, Inglaterra, França e Cuba.
Nesses países o atendimento médico é gratuito, e nem por isso perde a qualidade, muito pelo contrário. No Brasil, o SUS é um sistema que em tese é perfeito e justo. Universal, como diz o nome. Só que na prática não é assim. Há mais doentes do que leitos, há mais doentes do que hospitais, há mais doentes do que médicos aptos a atender pelo Sistema, há mais doentes do que laboratórios para realizar exames pelo Sistema, há mais doentes do que tratamentos ágeis e eficazes no tratamento, na prevenção e na solução de problemas de saúde. A saúde está doente. O diagnóstico é, aparentemente, câncer generalizado.

Não me vejam como uma das gregas cassandras a trazer maus augúrios.
Quem adoece, ou conhece alguém na família ou amigos que adoecem, ou sofrem acidentes, sabem do que estou falando.

O mundo é dos com, e o submundo é dos sem. Com dinheiro. Sem dinheiro. Com dinheiro, e daí há planos de saúde, seguros de saúde, hospitais com quartos privativos que parecem flats ou quartos de hotéis de luxo. Os médicos te recebem por pelo menos uma hora, e realmente prestam atenção no que você está falando. Os exames, dos mais simples aos mais complexos, são feitos na hora marcada. Às vezes você esquece da doença, acha que está em férias.

As pessoas se preocupam contigo, te dão atenção, alimentação, e depois, quando felizmente você está plenamente recuperado, assina quinhentas mil autorizações e volta para a sua vida, saindo pela mesma porta que entrou: a particular, com escada de granito, pelo elevador privativo.

Então, você não terá cruzado com centenas de pessoas que diariamente aguardam desde a madrugada para conseguir marcar uma consulta. Você não terá visto crianças chorando, mães com olheiras profundas, pais com cara de colono do interior que só vem na cidade porque seu filho está muito doente. São pessoas com câncer, com AVC, com diabetes, com problemas cardíacos. Não importa. Seja qual for o diagnóstico, aguardem a chamada pelo número da senha, ou voltem em outro dia, outro mês, outro ano. Quando funciona, é ótimo.
Mas e quando não funciona? Mais uma morte, e nada mais.

Eu sou contra planos de saúde pelo mesmo motivo que sou contra cursinhos pré-vestibular. São criações de um SISTEMA que não funciona, um no caso da saúde, e outro no caso da educação.
Com o detalhe que ganham, em ambos os casos, muito dinheiro. Porque há gente com muito dinheiro para pagar. E porque há gente que cada vez tem menos dinheiro, mas que ainda paga, pelo medo, pelo pavor, pelo desespero que tem de sentar ali, no cartaz ao lado de Michael Moore, ou ao lado das pessoas que não estão no andar privativo.
A descida dos degraus para o submundo é mais tênue do que se imagina.

Quando faremos alguma coisa para mudar essa situação? Por que uns ganham tanto dinheiro às custas do sofrimento, da doença e da própria morte?

Sicko é uma crítica mordaz ao sistema norte-americano de saúde. E se há algo no qual o Brasil também continua a reproduzir o tal sistema, é na saúde. Para os com-dinheiro, a vida e a sobrevida. Para os sem-dinheiro, o discurso retórico e político pela vida e a prática do salve-se quem puder.
Abraços.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Adeus, fúria!

Queridos e queridas,

Um dos meus primeiros posts deste blog foi sobre o filme Um dia de fúria. Acho que este passará a ser um dos meus filmes de cabeceira. Assim como o filme Adeus, Lênin! (2003), dirigido por Wolfgang Becker, que faz uma crítica ao que a burocracia e o capitalismo tem de pior. Melhor um filme sobre a fúria do que uma explosão real de fúria. Será? Vejamos.
Há alguns meses, eu tentei locar um imóvel para abrir uma produtora. Entre mil e um documentos desta e de minhas encarnações passadas, eu precisava de uma negativa do banco, que por sua vez precisava de uma negativa de uma loja da qual sou cliente há dez mil anos atrás, que por sua vez informou-me, depois de eu repetir a mesma solicitação a dez mil pessoas, que eu tinha que aguardar o FLUXO. Que aguardar o que, eu queria garantir a locação, e expliquei ao gerente, com cópia oculta ao Obama e ao papa, que eu queria apenas o que era direito meu. Ledo engano.
Então, chorei. Não, não foi encenação, não sou atriz. Eu estava farta do fluxo, do sistema, do stress, do grande irmão. Eu só queria o que era direito meu. Então, o gerente agiu, o banco agiu, o papel chegou e o seguro-fiança negou. Motivo: mais renda, só a minha não era suficiente. Não preciso dizer que ele deve ter desconfiado... essa gente que quer abrir produtora e trabalhar com filmes... São americanos? Não. São da Globo? Não. Então...

Então me telefonaram nesta semana da grande rede de departamentos para me informar, educadamente, que o sistema tem lá uma cópia de uma declaração assinada por mim, e que se eu não fosse buscar ainda nesta semana, o tal documento seria arquivado em algum lugar deste planeta, por ordem do sistema, para seguir o fluxo. Como eu sou contra o sistema, e o fluxo que vá para aquele lugar, fui no mesmo dia resgatar o que afinal continha o meu nome.
Fui de novo atendida com um alto nível de educação, e com o mesmo nível de incompetência.

Aguardei pacientemente por mais de trinta minutos, enquanto um, depois dois, e depois três atendentes procuravam o tal documento. Enquanto isso, para não lembrar de Michael Douglas, passei a contemplar a decoração do local. Fiquei com pena deles. Como podem trabalhar e serem felizes em um lugar sem alma? Mas foi aí que eu vi algo estupendo, cena de cinema: uma caixa, provavelmente de sapatos, forrada cuidadosamente com um papel de embrulho bem bonito. Na parte superior, uma etiqueta grande, onde estava escrito com letras lindas:
"Papéis de rascunho 2009".

Aí comecei a palpitar, suor frio, mãos trêmulas, tiques. Arritmia, síncope. Então, se eu tivesse ido resgatar uma folha de rascunho relativa ao ano de 2009, estaria resolvido o meu problema. O problema seria se eu quisesse uma folha de rascunho relativa ao ano de 2008... 2007 então? Estaria no arquivo morto? O que o sistema prevê em situações como essas?
Me diga, o que você faria em meu lugar?
Eu pensei em fazer greve, passeata, moção de repúdio. Ir na Delegacia do Consumidor. Procurar um advogado. Apostar na solidariedade humana. Ninguém mais compra na Grande Rede de Departamentos! Abaixo o Sistema!! E o fluxo que vá para... aquele lugar.

Depois de um segundo de reflexão existencial, cheguei sabiamente à conclusão que uma voadora seria a melhor solução. Papéis de rascunho voando por todos os lados, e eu faria aviõezinhos de papel, sopraria pra bem longe, prá lá de Bagdá... os atendentes sairiam desesperados, procurando resgatar freneticamente os papéis, os restos de papéis, os escombros dos papéis, e eu picotando, picotando, picotando... e rindo, feliz, muito feliz.

Eu seria levada pelos seguranças da Grande Rede de Departamentos. Os transeuntes, vorazes ou potenciais compradores da Grande Rede de Departamentos, estariam olhando acusadoramente para mim. Uns achariam divertido. Outros defenderiam a ordem e o progresso. Nenhum viria perguntar o que realmente estava acontecendo. Não era com eles. Os atendentes seriam sumariamente demitidos pela incompetência em organizar o sistema. O gerente providenciaria imediatamente uma nova caixa de sapatos, desta vez com um super-sistema de segurança conectado diretamente ao seu celular, para evitar futuros ataques terroristas.
E tudo voltaria à santa paz, à normalidade...

E eu? Provavelmente seria fichada na polícia, encaminhada para fazer exames de sanidade mental. Aguardaria em uma fila. Depois outra, para assinar alguns papéis, preencher informações. Sabe como é, moça, é o sistema.
E se eu dissesse ao delegado de plantão que eu sou da área de direitos humanos...
Bom fim de semana!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Em cada coração, uma saudade

Queridos e queridas,

Mudei há poucos instantes o tema para o post de hoje. Seria um comentário. Agora, espero que seja um pouco de desabafo, e um pouco de homenagem. Desabafo, porque preciso compartir esta notícia que acabei de tomar conhecimento, pelo telefonema de meu ex-marido. Meu querido vizinho morreu, hoje à tarde. Escrevi há alguns dias que vi a ambulância em frente a sua casa. Tive a sensação de que ele estava saindo daqui pela última vez. Apesar da força e vitalidade que ele tinha em seus 80 e poucos anos (acabara de completar mais um aniversário no começo deste mês), o câncer não o poupou.

Acho, também, que não foi só o câncer, mas a depressão que eu percebia que começou a tomar conta dele nestes últimos meses. Ele comentou comigo, numa das últimas vezes que conversamos pelo muro que divide nossas casas, que um amigo dele, médico, havia cansado de lutar contra a doença que o acometera, no momento em que começou a ficar refém de remédios para todas as horas, para todos os minutos de cada dia. Aquilo não era mais viver. Eu falei para ele que apesar disso, ninguém deve desistir. O recado era direto para ele. Mas quando conversei com a minha vizinha, sua companheira por mais de 50 anos, eu perguntei por que ele não ia mais para o pátio, sentar, tomar sol. Ela me disse que ele não queria mais comer, não podia mais tomar chimarrão, e tinha remédios para todas as horas do dia, espalhados por toda a casa. Eu sei que ele tinha razão. Isso não é mais viver.

Por isso, desabafo. Não tive coragem de visitá-lo no hospital. Quis e pensei em ir várias vezes. Mas ele sabia, eu sofri várias perdas, e estou tentando me recompor. Não queria vê-lo de um jeito que eu sei que ele não gostaria que eu o visse. Porque ele sempre foi forte, brincalhão, sempre com uma palavra amiga, com a discrição e a educação que fazem um vizinho ser um vizinho exemplar, e a parceria e a amizade que transformam um vizinho em um amigo.

Nos dez anos em que eu tive o privilégio de dividir opiniões, idéias e confidências no muro em conversas com ele, eu me sentia protegida, ele fazia eu lembrar de meu pai. Ele gostava muito de meus filhos, e ao mais novo dirigia-se afetuosamente como o "Comandante".

Vou guardar a lembrança da amizade, da proteção e da cortesia que ele sempre nos dispensou. Ele é uma dessas pessoas que se torna emblema da rua, do bairro, da cidade onde vive. Tenho certeza de que, por onde ele passou, amigos deixou, e algo bom plantou. Em cada coração, uma saudade.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Uma nova revolução

Queridos e queridas,

Em tempos de twitter, ainda se escrevem cartas?
Escrever a palavra "carta" já parece algo de uma galáxia muito, muito distante. Escrever uma carta de amor, então, é algo medieval, que seria aceito no máximo como lembrança do passado de nossos avós. No tempo de nossos pais já se usavam bilhetes e cartões. Dos anos 60 para cá, as cartas de amor deram lugar para os manifestos revolucionários. Passamos a amar causas, ainda que perdidas. Não deixa de ser uma história de amor, escrita por linhas tortas.
Se nossos filhos não escreveram "Abaixo a ditadura" nos muros da cidade, por outro lado passaram a usar com maestria os sites de busca e relacionamento, os blogs, fotologs e chats, e todo o tipo de variedade multimídia. Escrevemos teclando, tocando na tela, trocando olhares na webcam, criando novos idiomas internéticos, cifras e códigos criptografados.

Mas e as cartas?
Pois eu acho que seria uma nova revolução, em tempos de instantaneidade da informação, que voltássemos a escrever cartas, lamber selo e tudo o mais. Aumentaria o suspense, e valorizaria mais o conteúdo. Poderia ser um segredo, uma receita, um testamento, uma chantagem, como no filme A Carta (1940). Dirigido por William Wyler, com Bette Davis no elenco, o filme que recebeu sete indicações ao Oscar mostra uma mulher que matou seu amante e tenta enganar a polícia, alegando legítima defesa. Mas tudo muda quando a viúva aparece com uma carta.
Uma carta em seu momento máximo: uma declaração de amor. De um para outro, do remetente especialmente para aquele destinatário. Sem essa de destinatários não revelados, de listas eletrônicas, sem cópias para todos, com publicação imediata no google. Não há mais privacidade, nem intimidade. Só para extrato bancário (isso quando não autorizam a quebra de sigilo por ordens superiores).
Uma carta, antes de ser aberta, é um mistério. É um strip-tease que ainda não se consumou. É uma declaração que ainda não foi feita. É sim? É não? É bom? É mau? Só abrindo a carta para saber.
Imagine essa cena: duas pessoas se conhecem, se apaixonam, e após um ano se afastam. Ele está em Londres, ela vai para Paris. Ele não a esquece. Tempos depois escreve uma carta, uma longa e apaixonada carta. Ele a quer, pede que ela volte, porque a ama.
A carta foi enviada, mas foi extraviada. Ficou por alguns anos atrás de uma lareira. Apenas com uma reforma no local se descobriu a carta. Inteira e na íntegra. Quando ela leu a carta, ficou tão nervosa quanto emocionada. Eles se reencontraram dois dias depois, no aeroporto de Paris, e em trinta segundos estavam se beijando. Casaram-se. Fim de cena.

Essa cena aconteceu de verdade, conforme notícia publicada no jornal britânico The Times.

Sei, você pode estar dando uma de advogado do diabo e me dizer, se fosse no twitter ou no Msn, essa confusão não teria acontecido. É vapt-vupt, toma lá, dá cá. Esse é que é o problema. Não se tem mais romantismo, não se descarrega mais a adrenalina, não se vazam mais os instintos. Tudo robotizado, padronizado. Frases feitas, curtas. Banal demais.

Você, advogado do diabo, nunca experimentou a sensação de receber a carta de sua vida. Só sabe escrever intimações, notificações, e coisas que tais. Mas o frio na barriga, na espinha e nos poros inteiros, essa sensação só pode ser apagada de uma maneira: pelas traças.
Beijos!

terça-feira, 21 de julho de 2009

Um mundo estranho

Queridos e queridas,
Hoje você acordou, como acorda todos os dias, menos aqueles nos quais você não dormiu.
Hoje você se alimentou, como se alimenta todos os dias, a não ser que esteja em greve de fome ou seja aspirante a top model.
Hoje você foi fazer algo de sua vida.
Como faz todos os dias, mesmo quando não faz nada, ou pensa que não fez nada de útil.

É incrível como podemos ser tão semelhantes, e ao mesmo tempo tão diferentes. Somos amigos de nossos amigos e com relação às pessoas que não conhecemos, não trocamos um cumprimento.
Mas se estivéssemos presos no mesmo elevador, ou fôssemos feitos reféns dentro de uma agência bancária, ou se ainda fôssemos sobreviventes de uma tragédia, subitamente seríamos solidários,e lembraríamos dessas pessoas pelo resto de nossa vidas.
Donde concluo que o que nos une não é o amor, mas a falta de. Não é a solidariedade, mas a falta de. Explico.

Um artigo publicado este mês no Jornal Science afirma que nosso cérebro, social e sensitivo, é igualmente impulsivo. Até aí nada de novo. Não fosse o fato de que, para esses pesquisadores, as ações impulsivas são as que realmente nos humanizam, nos mostram como realmente somos. O pensamento que nos freia é o mesmo que nos empurra. Darwin e Freud já haviam mostrado a função do inconsciente nas ações humanas. A vontade consciente é uma, e a inconsciente é outra. Nossa vida é o resultado da soma ou da subtração de nossa vontades contrárias, de nossos desejos reprimidos para convivermos em uma sociedade, ou de compulsões e fantasias liberadas que nos transformam em outsiders.
O que me chamou muito atenção nesta pesquisa, é que segundo os cientistas, um cérebro adulto dispende a mesma energia ao agir ou ao inibir a ação, a realizar ou a ignorar os instintos,
desejos e fantasias mais profundas.
Então, algumas conclusões: quanto mais você diz que ama seu marido, menos você ama. Quanto mais você diz que está com o homem mais lindo do planeta, menos lindo você pensa que ele é. É que você quer convencer a si mesmo daquilo que no fundo não acredita.
E, por outro lado, se você reprime o desejo, você deseja mais.

Parece complicado, mas não é. Parece contraditório, mas não é. Pensar e desejar a mesma coisa é possível. Mas é uma possibilidade remota diante de milhares de outras possibilidades nas quais o cérebro quer uma coisa, e se reprime, para fazer outra.
Agora, me diga, confesse: é ou não é assim na grande maioria das vezes?

Alguns exemplos: Você já desejou algo que não é seu? Algo que não possui? Algo que não pode ter? Você já desejou alguém que não fosse o/a seu/sua parceiro/a? Você já desejou mudar radicalmente seu cabelo, seu modo de vida, seu mundinho particular? Você já desejou não ter desejado ter filhos? Você já desejou não ter pecado,
ou já desejou ter pecado muito sem que fosse considerado pecado?

Você é o que você pensa que é, e o que você ainda não sabe que é. Um estranho no ninho.

Como Randle McMurphy, o protagonista do oscarizado filme Um Estranho no Ninho (1975), com direção de Milos Forman e Jack Nicholson em mais uma brilhante intepretação. Nicholson/McMurphy finge ser louco para sair da prisão e cumprir pena no manicômio. O que ele não imagina é que esse local é um sistema repressor, castrador e violento, sob um manto de ordem, disciplina e justiça. Alguma semelhança com a vida real não é mera coincidência.

Viver é sobreviver em sistemas especializados. O grande desafio para a nossa saúde mental e emocional é pensar e desejar o que realmente queremos, sob pena de estarmos presos em padrões, sistemas, aparências, que podem até aparentar um verniz de felicidade e sucesso. Mas que no íntimo é apenas fonte de melancolia e insatisfação. Quanto mais evitamos desejar o que desejamos, mais ele fica ali, retido, guardado, guardado. Mas, assim como no filme e na vida real, quem resolve abrir suas portas e janelas da alma acaba se dando mal. O ninho continua a acolher o estranho nas panes em elevadores, nos seqüestros em bancos, e nos resgates de tragédias.
Que mundo estranho, esse.
Fiquem bem.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Da criação à ação, uma nova produção

Queridos e queridas,


Cheguei há pouco, exausta, mas feliz. Foi um dia de filmagem, extenso e intenso. Deu tudo certo, mais do que certo. Não sei explicar a sensação que é estar ali, filmando, depois de semanas e semanas de preparativos. Levamos todo o tempo que for necessário, dentro do tempo que termina sempre antes da hora, na expectativa de que tudo dê certo.
Dar certo não significa necessariamente, na minha opinião, um filme que depois de pronto vá agradar o crítico e o espectador.

Perdoem-me a sinceridade. Eu sou do time que acha que escrever uma história, produzir um vídeo, dirigir um filme, tem um sentido maior, em si mesmo, independente de ser ou não ser sucesso de público, de ser ou não ser aclamado pela crítica, de receber ou não receber prêmios em festivais. Não estou desmerecendo - longe de mim - as opiniões, as apreciações, as críticas. E os prêmios. São muito importantes e, podem ser ou parecer serem medidores da qualidade de um filme. Mas não são fundamentais. Primeiro, porque não existe uma fita métrica ou uma fórmula matemática que defina a qualidade de um filme. Depois porque, quando há uma criação que se consuma em ação, como no caso de um filme, importa primeira e primordialmente que agrade a quem o fez. Se nem aquele que o fez achar que vale a pena, então, delete. Mas quando filmamos uma cena uma vez ou dúzias ou pencas, é porque nos levamos a sério e levamos a sério todos os que estão conosco nessa, desde a equipe de produção até os apoiadores.
E, principalmente, o filme. Merece, no mínimo, respeito.

Eu comparo a realização de um filme com a auto-estima. De menos é problema. Demais é outro problema. No equilíbrio, é filme bom. Hoje foi um dia desses. Foi um dia de construção coletiva, que me faz lembrar do filme Viva o cinema brasileiro!, longa de Buca Dantas que mostra a saga de uma equipe de filmagem pelo Sertão do Brasil, junto a pessoas que nunca estiveram em uma sala de cinema. O cinema-processo, o cinema-verdade, o cinema-imperfeito, o Cinema Novo, tudo ali a ser questionado. O que é cinema, e por que fazemos cinema?

Nem me atrevo a responder, aqui e agora. Mas dizer que hoje senti isso de novo, junto com meus colegas de produção, um elenco que tirou de letra as falas e poses, sendo hoje, coincidência, ou não, o Dia do Amigo.
Um brinde especial aos voluntários, guerreiros, parceiros de produção, e aos nossos apoiadores!

domingo, 19 de julho de 2009

O convite de meu pai

Queridos e queridas,

Hoje é um dia muito especial. Para os gremistas, que ganharam o Grenal no ano do centenário do Inter. É especial para os colorados, por ser uma data que ficará marcada de azul na história do clube.

Hoje é um dia especial, porque aconteceu alguma coisa na vida de todos. Seja positivo ou negativo, sempre acontece algo em cada dia de nossas vidas. Tem dias em que a gente está alegre, em outros está melancólico. Há dias de vitórias, conquistas. Outros, de derradeiros fracassos. Perdas. Ganhos.
Quando há empate, haverá também o desempate.
Todos os dias são dias especiais.
O que muda, é o motivo.
Por exemplo. Década de 70. Eu era uma "guria". Além de brincar com o quadro negro e o giz branco, que já anunciavam a minha vontade inconsciente de ser professora, o que eu mais fazia em minhas horas vagas (ou seja, quando não estava na escola), era ouvir muito rock and roll, ver desenhos e seriados de televisão. É claro que eu também brincava, e muito, com minhas amigas e meus amigos de infância. Fizemos um clubinho no porão de minha casa, que nós, no primeiro coletivo de produção de minha vida, realizamos. Os guris mais velhos e mais fortes cavavam, cavavam, cavavam. Quando nossas cabeças não mais batiam no teto, nós, as meninas, começávamos o trabalho de decoração. Forramos o teto inteiro com fotos de artistas de novelas e fotonovelas. Pintamos as paredes e desenhamos o símbolo de paz e amor, colamos um poster de Cristo crucificado, e arrematamos com capas de disco de vinil em alguns cantos estratégicos. A inauguração de nosso primeiro centro cultural seria fechada, apenas para os nossos convidados especiais: nossos pais. Enquanto trabalhávamos arduamente no porão, digo, no centro cultural, minha mãe, a melhor assistente de produção que já tive, fazia doces, bolos, café com leite e sucos, para reanimar nossas pausas estratégicas. Depois de comer cachorro-quente, todo mundo voltava para o trabalho, animadamente.

Eu escrevi o primeiro roteiro de minha vida, um roteiro adaptado, da história de Chapeuzinho Vermelho. Escolhi o elenco. Minha amiga Fátima, que usava óculos, seria a vovozinha, minha amiga Rejane, a menina mais bonita da turma, seria Chapeuzinho, com certeza, e o Everton, que sempre foi muito doidão e tinha um gritinho daqueles, seria o Lobo Mau. Ele fez cabelo e maquiagem de todos. Soube que depois seguiu com sucesso nessa área. Ah, e escolhi os guris, os fortões, para serem os caçadores. Ensaiei separadamente, queria o efeito surpresa, e consegui. Chegou o grande dia, com o nosso porão, ops, nosso centro cultural lotado de pais coruja, alguns desconfiados-do-que-será-afinal-que-eles-fazem-lá-dentro? Quando o Lobo Mau vai comer a vovozinha, UAU, um se assusta da cara do outro. O riso foi geral. Fomos ovacionados. E eu fiquei frustrada. Não estava no script. Eu tinha que melhorar na próxima vez.

Não tivemos uma próxima vez. O pai de um de meus amigos, um militar, achava que o filho, para seguir a carreira dele, não poderia começar a se entusiasmar com essas coisas. E já que ele ajudou a cavar no porão, que cavasse em casa, também. Ele não pode ir mais em nossas reuniões. E, como protesto e em solidariedade, não continuamos.

Bem, eu continuei, de outra forma. Na escola, a professora de religião (lembro dela pela cara braba, voz esganiçada e coração enorme de bondoso) pediu que apresentássemos uma peça. Ai. Lá fui eu de novo. Desta vez foi o roteiro adaptado com o nome Romeu e Julieta nos tempos modernos. Escolhi a colega mais linda da turma, loira de olhos azuis e sonho de consumo de dez entre dez colegas. Mas escolhi também o colega mais lindo da turma, cabelos castanhos encaracolados com belíssimos olhos-verdes-de-peixe-morto. Sonho de consumo meu e de todas da escola. Escrevi falas sarcásticas, posto que desde aquela época já duvidava das possibilidades de concretização de um amor verdadeiro que não seja de pais e filhos ou de amigos. Bem, na peça funcionou. Fomos aplaudidos de pé. Eu espiava tudo pela cortina, feliz com tudo. Só não gostei da parte em que a professora de religião me levou quase à força para o palco, para ficar junto com a Julieta, o Romeu e todos os demais.
Desapareci por uns tempos. Até que meu pai me fez um convite que até então eu não tinha recebido. Acompanhar ele para ver um filme no cinema, no finado Cine Avenida, na Avenida João Pessoa. É que estava estreando o filme Um dia muito especial (1977), de Ettore Scola, com Marcello Mastroianni e Sophia Loren. Minha mãe não queria ir, e ele não queria ir sozinho. Eu fiquei de cara. Teria que deixar minha bicicleta, na qual eu me imaginava sendo a pantera Jill perseguindo os fora-da-lei na rua Waldomiro Lorenz, onde morei toda a minha infância.
Mas não podia negar o pedido de meu pai...e fui, emburrada.

Começou o filme. Começou uma página nova e definitiva em minha vida. Apesar de ser nova demais para entender a profundidade e a complexidade que um filme de Scola tem, talvez pelo fato de eu ter tido uma infância difícil, pelo fato de eu ser um bicho estranho, por ter feito filosofia, poesia, rádio, direitos humanos e outros que tais, bem, o fato é que eu saí daquela sala de cinema com dois metros de altura.

O dia que se passa entre a dona de casa rejeitada Antonietta (Sophia) e o radialista homossexual deprimido Gabrielle (Marcello) é tão inesquecível quanto o encontro de Hitler e Mussolini que acontece nesse mesmo dia, 08 de maio de 1939, na Itália fascista. Um dia muito especial recebeu o César e o Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro, o David di Donatello de melhor filme e melhor atriz, e foi indicado ao Oscar de melhor ator e melhor filme estrangeiro.

E eu fui premiada com um dia muito especial para o resto de minha vida. Saí com dois metros de altura e uma idéia fixa na cabeça: é isso o que eu quero fazer na vida.
Cheguei em casa e, ouvindo o som de Led Zeppelin, voltei a escrever .
Boa semana!

sábado, 18 de julho de 2009

Eterno e quarentão

Queridos e queridas,
Ficamos melhores aos 40? Sim! Querem uma prova cabal? Easy Rider, filme realizado em julho de 1969, chega quarentão em 2009, consagrado como um dos melhores filmes de todos os tempos. Porém, desde quando o filme foi concebido por Peter Fonda, numa noite ins-pirada por um baseado, até ser visto hoje na internet ou nas prateleiras das locadoras, muita coisa mudou. Não vemos mais os jovens descalços que bradavam pelo direito à livre expressão, os hippies não foram extintos, mas estão comprimidos por tantas outras novas tribos, muitas das quais desconhecem totalmente a causa pela qual se buscava paz, amor e liberdade. A motocicleta, o principal ícone do direito pleno de ir e vir, hoje é muito mais conhecida pela economia nos custos e por ser veículo usado pelos motoboys. As roupas há quarenta anos eram floridas, os cabelos eram soltos, havia baseado, bebida e sexo. Hoje, a lendária Harley-Davidson, marca registrada do filme, é o sonho de consumo dos burgueses.

Muita coisa, porém, permanece. O preconceito, a discriminação, quando o assunto envolve drogas, sexo, prostituição. Quando se trata de conviver com pessoas que pensam diferente, que tem visões de mundo diversas, que querem viver com um estilo próprio. Essas pessoas, como disse o personagem de Jack Nicholson - em um dos seus mais marcantes papéis no cinema - precisam ser eliminadas.
Em Easy Rider, Peter Fonda é Wyatt, e Dennis Hopper é Billy, dois hippies que em suas motocicletas cruzam os Estados Unidos, e nesta viagem sentem o gosto da liberdade e o peso do preconceito. São presos, são executados.
Um sentido sem destino, ou um destino sem sentido?
O filme, realizado um ano após o "Maio de 68", simboliza o auge da contracultura levado às telas do cinema, e marca a estréia de Dennis Hopper na direção (que recebeu prêmio de melhor diretor estreante no Festival de Cannes em 1969). O roteiro escrito por Fonda e Hopper, e a atuação de Nicholson receberam indicações ao Oscar. Sucesso de público e de crítica, feito com orçamento modesto e resultante em um estrondoso sucesso de bilheteria, Easy Rider é um filme para ser visto várias vezes. Para se perceber que as duas rodas de uma motocicleta são como os pés que correm freneticamente em busca de um destino libertador. Para refletir sobre uma sociedade hipócrita que discursa sobre o bem comum enquanto segrega as pessoas pela cor, sexo e idéias. Para fruir uma trilha sonora que mostra grandes momentos do rock, inspiradores dos roqueiros que continuam a gritar em seus riffs e solos a busca pela liberdade. Pelos hippies quarentões, cinquentões, pelo que eles representam.
Paz e amor.
Por tudo isto, a atualidade do filme. Está escrito no poster que "Um homem saiu em busca da América. Não a encontrou em lugar nenhum". Continuamos assim, quarenta anos depois.
Sem destino.
Beijos!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Agenda 2009

Queridos e queridas,

Hoje é de novo sexta-feira. Ufa! Esta semana foi uma verdadeira maratona, eu diria que foi uma montanha-russa de reuniões e de emoções. Já estamos na metade do ano, e tudo o que eu havia planejado fazer, como revisão médica, auto-escola, atualizar minha agenda no celular, ir num centro espírita, fazer uma festa de arromba, enfim, não fiz nada do que queria fazer. Depois que comprei uma agenda 2009, minha vida não me pertence mais. Só existo se cumpri o que escrevi na agenda. O que ficou de fora, ou o que não entrou, são águas passadas ou vindouras.

Pensei que se anotasse tudo na agenda - e cumprisse - minha vida melhoraria, seria mais regrada, nos trilhos, nos eixos, no fuso horário. Não adiantou. Piorei e pirei. Acho que preciso de uma agenda maior, ou de uma enciclopédia de agendas. Não tenho mais tempo para dormir. O meu corpo reclama, as olheiras ameaçam se demitir. Eu digo que é só mais um pouco, paciência, esta vida é só esta, e fazer cinema é assim mesmo, tentamos, tentamos, tentamos, quem sabe aprovam um projeto, levamos um ano para tentar aprovar um curta, e a vida é curta, mas a burocracia é longa.
Necessário é fazer novos projetos, reunir anexos, adendos, compêndios. E como faz parte do ritual brasileiríssimo, quando a gente se dá conta o dia amanheceu, faltam dez minutos para o porteiro sadicamente fechar a porteira, e então a gente corre, Lola, corre, e a impressora emperra, o cartucho de tinta acaba, o motoboy atrasa, o computador reinicia, O CAFÉ TERMINA!!!, e eu começo a pensar que Inês é morta.
Daí, last but not least, o anjo da guarda aparece. Envia e-mail. E entende de Excel. Música, produção e excel. Escreve maravilhosamente bem. O que parecia missão impossível sem Tom Cruise no papel principal transforma-se em Um dia muito especial, com Marcelo, e sem Mastroianni.
Mais um projeto protocolado, agora é só esperar, esperar e esperar, e enquanto espero, sei que não irei no médico, nem farei auto-escola, vou postergar a ida ao centro espírita e infelizmente ainda não farei a festa de arromba. É que olhei na agenda 2009 e já tem outros projetos, outros editais, concursos e afins, e o prazo termina...ontem!
Uns tentam a sorte na loteria. Eu tento no que eu amo. Filmes.
Agora, vou tentar dormir.
Boa noite!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O mouse, a muleta inflável e a pessoa ideal

Queridos e queridas,
O jornalista Marcelo Perrone escreveu hoje em Zero Hora: "Pessoas introvertidas ao extremo costumam buscar companhia no clique do mouse". É verdade. O clique do mouse para essas pessoas é completamente diferente do clique para a gurizada que joga no computador e trocam mensagens instantâneas, e para os que usam, ou não, o mouse para estudar, trabalhar e viver no mundo pré-apocalíptico-capitalista.
Para algumas pessoas, pode faltar água, gás, comida na geladeira, pode faltar até a geladeira. E o ar.
Mas não o computador.

O que realmente impede um relacionamento verdadeiro? Nem todos os introvertidos são problemáticos, nem todos os tímidos são pessoas com problemas emocionais. Muito pelo contrário, há pessoas extrovertidas que riem de tudo e de todos, menos de si mesmas. As fugas da identidade não escolhem; são escolhidas conforme a infância, as vivências e os traumas de cada um. Mas então por que diabos o computador transformou-se na muleta do século 21?
Porque muitos não suportam o olhar.
Já fizeram essa experiência? É fatal. Olho no olho. O corpo não fala, a voz não fala. O olhar tudo capta, tudo vê. Vê o exterior e enxerga o interior. Quando a gente escreve, a gente manipula letras, palavras, frases inteiras. Eu escrevo que te amo. Mas eu te amo de verdade? Olhe nos meus olhos e saberás. Leia essa frase e nunca terá certeza. O grande Fernando Pessoa já se referia ao poeta, o grande fingidor... Fingimos nossas dores para aparentarmos que somos fortes, falamos em voz alta para aparentarmos que somos poderosos, mas um mero e simples e furtivo olhar rola todos os planos mirabolantes por água abaixo.
Por isso, uns se entopem de remédios, drogas, bebidas, fumacinhas. Anestésicos da dor que é ter que viver. E do prazer que é viver, também.
Eu confesso que anestesia, só na cadeira do dentista.
Voltando ao mouse, à muleta. O diretor Craig Gillespie estréia na direção de um longa-metragem em grande estilo. O filme A garota ideal (2007), uma comédia dramática muito bem interpretada por Ryan Gosling, chega às salas de cinema para comprovar a tese de que a paixão é o mal que nos consome. Apaixonados, somos capazes de enlouquecer e de enlouquecer quem está perto de nós. Então, melhor se apaixonar por um/a boneco/a inflável do que por outro ser humano, tão cheio de carências e problemas como nós. É de rir ou de chorar?

O filme mostra tudo com muita sensibilidade. Foi inclusive indicado ao Oscar como melhor roteiro original e ao Globo de Ouro de melhor ator de comédia. Visitar um site de garotas infláveis pode ser um grande mote para uma ótima comédia. Mas perceber que há pessoas que, deveras a solidão que sentem, são capazes de se imaginar em uma relação dessas, é um drama tão possível e tão contemporâneo que nos faz pensar.
Gente, por que somos tão cruéis com quem gosta da gente?
Abraços!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O galã septuagenário e Mr. Smith

Queridos e queridas,

Robert Redford casou novamente, aos 72 anos. Foi neste fim de semana, na Alemanha. O consagrado cineasta é um oscarizado que não gosta das badalações do Oscar e de outros rituais hollywoodianos. Foi ele quem criou o Instituto Sundance, uma organização sem fins lucrativos em prol da arte, e o Sundance Festival, o maior evento anual do cinema independente nos Estados Unidos. É curioso observar que na cerimônia do Oscar em 2002, Redford recebeu a estatueta pela criação do Sundance Festival. É curioso observar também, que cada vez mais o Oscar - premiação máxima no cenário internacional do cinema - rende-se a produções com orçamentos menores, propostas mais alternativas, mais autorais, como Crash e A Pequena Miss Sunshine, só para citar alguns. O galã que não quer ser galã já deixou marcas de sua influência, não somente como artista, mas como ativista na arte do cinema.

O primeiro filme que assisti com Robert Redford foi Butch Cassidy (1969). Ele e Paul Newman eram dois charmosérrimos ladrões de bancos. Veio aí o Prêmio da British Film Academy, por sua atuação como Sundance Kid. Ele e Newman estariam juntos novamente em Golpe de Mestre (1973), que tem uma das trilhas sonoras mais lindas já feitas para o cinema. Produzida por Marvin Hamlisch, a trilha tem arranjos inspirados na música de Scott Joplin. Eu gostava tanto da trilha deste filme que cheguei a criar, na Rádio da Universidade, há uns doze anos atrás, o programa Artvídeo, para usar trechos da trilha na abertura do programa.

Redford tem uma vida curiosa. A arte sempre esteve presente em sua vida, mas foi se manifestando aos poucos, pelas beiradas. Desde criança gostava de desenhar, pintar e de esportes. Sua primeira mulher o incentivou a trocar a pintura pelo teatro. Ele queria ser cenógrafo, e seu professor de teatro o incentivou a fazer curso de ator. Deu no que deu. Uma sólida carreira cinematográfica de cinco décadas, mais de 40 filmes, vários prêmios, entre os quais o Oscar de melhor diretor pelo filme Gente como a Gente (1980). Um tocante drama familiar, que mostra a decomposição de uma família após a morte de um filho.

São vários os filmes de ou com R.R. que eu gosto: Entre dois amores (1985), Nada é para sempre (1992), Quiz Show (1994) Íntimo e pessoal (1996), e Jogo de Espiões (2001 )são alguns desses filmes. E, convenhamos, no filme Proposta Indecente (1993) ele desfila todo o seu charme e sedução, a ponto de ser difícil acreditarmos que ele é um galã que não quer ser galã.

O fato é que R.R. continua firme em seus projetos e ações no e pelo cinema, e também em sua vida pessoal. Acho ele mais lindo ainda, agora que é septuagenário. Cada vinco, cada marca em seu rosto traduzem a sabedoria e a maturidade de seu charme e de seu talento. Ele é ambientalista, e é natural. Por isso ele é, querendo ser ou não, o galã que ainda arranca suspiros. Por isso que é infame dizer que Brad Pitt é o novo Robert Redford. Quem já viu o filme Nosso amor de ontem (1973), no qual ele contracena com Barbra Streisand, entende o que estou falando. Ele é muito mais do que um rosto perfeito. É uma trajetória de interpretações e realizações impecáveis. Como Clark Gable e Cary Grant, Robert Redford é naturalmente galã, e não mais um rosto bonito como Mr. Smith.
Beijos e suspiros.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Fingir e interpretar

Queridos e queridas,

Hoje eu vi uma fotografia do meu idolatrado ator Christian Bale. A imagem não lembra em nada o misterioso e musculoso Batman; Bale está esquelético, quase irreconhecível. Ele literalmente vestiu seu novo personagem, Dick Eklund, um lutador que se torna viciado em cocaína e crack. O filme , The fighter, é baseado na história real do lutador. Com direção de David Russell, a produção deve estrear em 2011. Não é a primeira vez que Bale faz uma drástica mudança em sua aparência. Em 2004 ele perdeu 27 quilos para fazer o filme O Operário. Assim como Bale, lembro de outros atores que se transformaram radicalmente para realizar papéis inesquecíveis no cinema, como Robert de Niro, Johnny Depp e Tom Hanks.
Eu admiro muito quando um artista se dedica de corpo e alma ao que faz. Quando um artista se transforma em função do personagem, da história, do filme. Há artistas que mudam a cor de cabelo para combinar com a cor do sapato... Outros combinam o vestido com as jóias, e outros fazem charme ao se esconderem em óculos, seitas e declarações estapafúrdias. Não vivem sem a luz dos holofotes, sem os quinze segundos de fama. A questão é definir, afinal, quem é artista de verdade? Não é necessário fazer curso de cinema, sair com diploma embaixo do braço e tal, para ter talento e atuar. Cursos formam, mas não criam artistas. Os cursos e os mestres incentivam, informam, revelam e desvelam, na melhor das hipóteses, o talento que está ali, muitas vezes escondido, latente. Antes de se revelar para o mundo do cinema, o artista revela a si mesmo. Quer dizer, ele sabe que é isso o que ele quer na vida, sabe que é um caminho completamente diferente do que aparenta ser. Cinema não é Hollywood. Cinema é ler, estudar, aprender, interpretar, e produzir, em sons e imagens, com toda a alma e com todo o corpo.
Um dos cineastas mais prestigiados e poderosos no circuito cinematográfico, Francis Ford Coppola, alcançou os picos da fama em 1972, com O Poderoso Chefão, e em 1979, com Apocalypse Now. Coppola começou escrevendo roteiros para peças de teatro. Com o merecido sucesso de seus filmes, veio também o seu afastamento das produções mais autorais e independentes, dando lugar às superproduções a la Hollywood.
Na edição de maio/junho da revista Creative Screenwriting, o cineasta declarou que quanto menor o orçamento, maior a possibilidade de trabalhar nos filmes com as idéias e com a criatividade. Segundo Coppola, o sucesso de seus filmes o levou a sair dos trilhos e se distanciar da espécie de cineasta que queria ser. Ele filmou recentemente na Argentina "Tetro", uma obra que teve um custo estimado de 15 milhões de dólares. O filme está em exibição em apenas uma sala em Nova York, e com uma bilheteria que arrecadou desde junho menos de 200 mil dólares. Hoje, ao contrário de quem acha que o diretor está esquecido no reinado dos grandes cineastas, ele afirma estar de novo fazendo o que gosta: ser o cineasta que queria ser.
Respondendo à pergunta que me fiz antes: quem é artista de verdade? É o que não finge, mas, ao estar fazendo o que gosta, é o que queria ser.
Beijos!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Ninho vazio e pássaros voando

Queridos e queridas,

Imaginem um plano aberto: estão em uma casa perfeitamente arrumada. Cada objeto em seu devido lugar. Quem fala é o silêncio. A casa tem várias peças, parece ser grande demais para gente de menos. Há fotos, muitas fotos, emolduradas em porta-retratos de vários tamanhos, cores e modelos. Agora, em um plano próximo: há pessoas nessas fotos, de várias idades, um bebê no colo de uma jovem sorridente, uma menina loira e linda olhando para cima, bem para o alto, deve contemplar seu pai como se ele fosse um super-herói. Um menino adolescendo está quase fora do quadro, ele sempre foi assim, desde bebê, mas o fotógrafo foi rápido no gatilho e conseguiu um raro click da família reunida.
Certamente já conhecem a história da síndrome do ninho vazio.
Vão os filhos, ficam as fotos. Filhos nascem, crescem, e ficam adultos. Nós, os pais, não percebemos que o tempo passa tão rápido. Estamos tão ocupados em cuidar deles, desde amamentar, trocar fraldas, levar à creche, à escola, à aula de natação, às festas e a espiá-los nas esquinas quando eles começam a se envergonhar de nossa vigília, que quando percebemos o dia da formatura chegou, o namoro ficou sério, o primeiro estágio, o primeiro emprego, as primeiras experiências fora do útero materno.
Dói mais que dor de parto.

A vida é movimento, digo e repito. Não perdemos nossos filhos, mas eles são como partes de nosso corpo e de nossa alma. Onde estamos, eles estão conosco. O ninho se esvazia e é muito bom que seja assim, criarmos filhos independentes, com auto-estima, com bom caráter, com espírito de luta para enfrentar o dia-a-dia e com idealismo para se encantar e reencantar com um mundo real e desleal. Pássaros voando. Projetamos em nossos filhos os nossos melhores sonhos, transferimos para eles nossos melhores desejos, e às vezes somos tomados por um sentimento tão forte que pode até nocauteá-los, tamanhas são nossas expectativas de que tudo com eles seja melhor, que o mundo que os recebe seja um mundo melhor.

No filme O Ninho Vazio, do argentino Daniel Burman (2008), um casal de meia idade passa a enfrentar uma nova etapa na vida em comum quando os filhos saem de casa. Cada um dá um rumo à sua vida, sem saber exatamente como lidar com essa nova forma de viver. Este drama mostra que casamentos não sobrevivem porque há filhos. Casamentos devem se manter quando há amor, lealdade, afinidades. Os filhos não suportam o peso de serem pretexto para os problemas dos pais adolescentes. Filhos querem seus pais unidos, mas unidos e felizes. Quando a felicidade passa longe do casal, os filhos sentem e sofrem diretamente esse peso da infelicidade conjugal. Há ninhos vazios povoados de gente.

Quando meu filho mais velho resolveu ir morar com colegas, meu coração apertou. De tristeza e de alegria. Tristeza, porque meu filho estava saindo de casa, de novo saindo de meu útero. De alegria, pelo orgulho de saber que eu estava sendo a mãe que eu queria ser. Ter um filho independente, cheio de iniciativas, objetivos, projetos. Hoje ele me telefonou pela manhã. Fui acordada com a notícia de que ele está concluindo o curso de Administração de Empresas. Ele é estagiário de uma grande rede de lojas, e trabalha com o afinco como se fosse o presidente. Esse é o meu filho, meu grande orgulho. Olho a foto, um close. Nunca senti o ninho tão cheio como hoje. Te amo, meu filho Bruno.
beijos!

domingo, 12 de julho de 2009

Nada é tudo

Queridos e queridas,
Dizem que Roma não se fez num dia, e que Deus criou o mundo em seis dias, e no sétimo, descansou. Afinal, ninguém é de ferro, nem Deus. Só Iron Man. E os workaholics, nos quais eu me incluo. Neste final de domingo invernal eu fico a pensar: em qual domingo recebi amigos, fui passear, fazer simplesmente nada? Não me recordo. Havia uma época, numa galáxia muito distante, em que os domingos eram dias sagrados, dia para reuniões de família, entendendo-se por família eu, meu ex-marido, meus filhos, meus pais, minhas irmãs, meus sobrinhos, meu cunhado, meu primo. E se for até uma galáxia mais distante ainda, incluem-se meu avô, tios, tias, primos e primas. Mas daí eu era quase criança.

O tempo passa, tudo na vida é movimento, pessoas vem, pessoas vão. Do que foi bom e do que foi ruim ficam as lembranças. Dou-me conta de que o gosto de domingo é para mim saborear a memória do sabor do churrasco feito pelo meu pai, a salada de maionese feita pela minha mãe, e as tardes em que fazíamos nada e eu ficava inquieta por causa disso. Só agora dou-me conta de que aquele nada era tudo. Estávamos lá, juntos, reunidos e unidos, como uma típica família italiana. Entre "tapas e beijos" todos se salvavam. E tudo recomeçava no próximo domingo. Daquela época, a única coisa que continua igual é o programa Silvio Santos.
Tentei reunir os amigos em minha casa. Algumas poucas vezes foi possível, e foi muito bom. É a melhor terapia de grupo, reunir-se com amigos. Conversar, sorrir, divertir-se. Fazer nada que é tudo. Mas as pessoas hoje em dia não tem tempo. Até para tomarmos um cafezinho expresso às vezes marcamos, remarcamos, e no dia, cancelamos. Compromissos. Somos pessoas tão compromissadas, que nos esquecemos de nós mesmos, de quem gosta de nós, e de quem nós gostamos. Parece que eles podem esperar. Afinal, compromissos tem prazos, amizade não tem data de validade. Mas a vida tem.
Um dos meus filmes de cabeceira para assistir em um domingo invernal chama-se Parenti Serpenti (1992) do genial cineasta italiano Mario Monicelli. Este diretor tem aquela veia de humor cáustico que eu tanto aprecio. Faz a gente rir do amargo cinismo que habita a psiqué humana. Todos são bons, todos são maus, todos se revelam diante de uma situação. E isso vale para as relações parentais, para os laços de sangue, para a sagrada família.
Neste filme, a casa da nonna é o útero que recebe abertamente todos os familiares para comemorar a ceia de Natal. Os velhinhos Calapietro, porém, fazem um anúncio aterrorizante: não tem mais condições de morar sozinhos. Os filhos passam, então, a revelar suas verdadeiras personalidades no jogo do empurra-empurra. Ficar com os bens materiais é uma coisa; ficar com os pais velhinhos é outra. O espírito fraterno e solidário, a família unida e na santa paz, tudo isto deixa de ser um discurso magnânimo para desvelar o verdadeiro caráter de cada um. Monicelli desconstrói o mito da família unida, e consegue nos fazer rir da desgraça, da miséria humana que somos quando queremos ser. Um aquecedor superaquecido resolve o problema, mas não a falta de caráter.
Então, para um domingo que está quase terminando, fico com a saudade das reuniões que nunca mais voltarão a acontecer, e das que eu gostaria que acontecessem, porque ou damos valor às pessoas que nos querem bem enquanto elas estão perto de nós, ou então ficaremos trabalhando, trabalhando, trabalhando, enquanto até mesmo o Criador descansa.
Bom descanso!

sábado, 11 de julho de 2009

Allan Stewart Konisberg

Queridos e queridas,

Um dos meus diretores-roteiristas preferidos chama-se Allan Stewart Konisberg. Ele nasceu no Bronx, em Nova York, em 01 de dezembro de 1935. É feio e genial, é sarcástico e sensível. Faz comédias com a intensidade de dramas, e dramas com uma leveza que fazem a gente rir de nossa carcaça, tão ridiculamente humana. Sim, ele é, e só poderia ser, Woody Allen. O diretor americano que ama Nova York declarou em uma recente entrevista na revista alemã TV Movie que "a vida é dura, cruel e curta demais". No começo da madrugada passada, o namorado de minha filha, após ler meu mais recente post, disse que me achava às vezes um pouco pessimista. Minha filha sorriu e emendou na hora: Mas ela é sempre pessimista! Ao que eu emendaria, parafraseando Woody Allen: "A vida é dura, cruel e curta demais".

Por ser a vida curta, ele filma compulsivamente, escreve, toca clarinete, compõe, anota idéias em uma gaveta. Por ser a vida dura e cruel, Woody Allen ri de seus fracassos amorosos, filosofa sobre o turbilhão de sentimentos que envolvem os relacionamentos, sejam em família, em parceiros, ou consigo próprio. Autor de obras como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Hannah e suas irmãs, Interiores, A Outra, Manhattan, Match Point, Dirigindo no escuro e O Sonho de Cassandra, a obra-prima A Rosa Púrpura do Cairo, e tantos e tantos outros filmes, Allen tem uma obra cinematográfica tão vasta quanto profunda, pois mesmo suas comédias são carregadas de tiradas existenciais e ontológicas sobre o sentido, ou a falta de sentido da vida. Allen é antes de tudo, um grande observador, um analista da alma humana, em trilhas sonoras regadas a óperas e em vinhetas hilárias no qual o próprio interpreta um espermatozóide pensando sobre a ejaculação (Tudo o que você queria saber sobre sexo, 1972).

A propósito deste tema, o sexo é um assunto recorrente na obra de Allen, que também é autor de tiradas psicanalíticas que ele sabe escrever maravilhosamente. Sobre a culpa, o desejo, a paixão, o remorso, e todas as emoções que emergem do porão de nossa alma. Dizemos uma coisa e pensamos outra, pensamos uma coisa e sentimos outra, e, bang!, Woody Allen filma isso de um jeito que parece que é a gente ou algum conhecido da gente que está na tela.
Ainda nesta entrevista, o cineasta declarou algo, no mínimo, inusitado: "Rodar filmes é como fazer amor: um entra no assunto esperançoso e geralmente acaba decepcionado." Realmente, um dos grandes nomes do cinema, é um dos grandes pessimistas e sábios mestres da ironia.
E eu assino embaixo.
Beijos!
“As pessoas sempre se enganam em duas coisas sobre mim: pensam que sou um intelectual (porque uso óculos) e que sou um artista (porque meus filmes sempre perdem dinheiro).” Woody Allen

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Os Alfie e o vinho chileno

Queridos e queridas,

Uma sexta-feira fria, muito fria, pede um bom vinho, um bom filme, e uma boa companhia. O vinho, eu já tinha em casa, um chileno que vinha guardando para uma ocasião especial. O filme. Resolvi rever um, em vez de escolher na locadora algum lançamento. Minhas escolhas eu faço conforme o estado de espírito. Vou ver Alfie, de novo. Quem vê este filme, e conhece a história de seu protagonista, interpretado pelo lindo Jude Law, dispensa a boa companhia para degustar o vinho. Essa produção de 2004, dirigida por Charles Shyer, já havia sido realizada em 1966, tendo Michael Caine no papel do charmoso, sedutor e canalha Alfie.
Os Alfie são todos iguais. Usam estratégias diferentes, mas o objetivo é o mesmo, a caça. Pode ser a ação de componentes no inconsciente primitivo, do homem caçador, predador. Mas a civilização não adiantou em nada, mesmo. Hoje, os Alfie não arrastam suas presas pela cabeleira, pelo contrário, lançam um olhar tímido de quem não quer nada demais, e em vez de pronunciar um eloquente uga-buga, eles hoje escutam atentamente o que o alvo tem a dizer para então concordar, dar o seu apoio moral, e logo se torna a pessoa mais querida da turma, o amigão do grupo, o "cara". Irresistível. O marido te traiu? Ele te apóia. O colega te ferrou? Ele te ajuda. Tu já passou dos 30? Ele diz que a mulher melhora com o tempo. Tu não é magra como uma top model? Ele diz que homem gosta de mulher que tem o que mostrar. Caras mais novos preferem as mais velhas, e assim por diante. Alfie e seu irmão gêmeo, Daniel Cleaver, são personagens que sempre estarão em papéis de destaque em filmes de comédia, romance, e mesmo drama. Porque se eles existem na realidade e na ficção, é porque existem as mulheres que, não somente são presas, como parecem ter um radar para serem presas por personas assim.

É um caso psi, não? Mulheres carentes e inseguras, por mais talentosas ou inteligentes que sejam, são as mais prováveis de terem suas cabeleiras e corações arrastados pelos caninos desses vampiros. Elas sabem, mas não conseguem se libertar. Os Alfie não prometem, não se comprometem, até porque muitos já são comprometidos. Os Alfie são sinceros em sua falta de sinceridade.

É uma pena que os Alfie continuem Alfie, mesmo depois de terem uma história de vida que se resume a colecionar corpos femininos. Os Alfie são capazes de amar?
É igualmente uma pena que muitas mulheres se vêem apenas como vítimas, como presas em corpos femininos desses predadores. Isso é o que na ciência se chama de consentimento informado. O vampiro avisa, eu vou te sugar, como sugaria o sangue de todas. A presa, ainda tendo quinze segundos para cair fora, já está hipnotizada. É tudo o que ela não quer, mas é tudo o que ela quer. Uma pseudo-relação imatura, infantil, doente. Ambos enganam a si mesmos. Um porque se acha o centro do universo, e a outra porque acha que em todo o universo só restou Alfie.

Pior do que isso, só se Alfie fosse casado, e ainda dissesse que ama a esposa, a top model mais perfeita do universo. Que nem o vinho, sabe, quanto mais velho, melhor.
Por isso, vou rever esse filme, regado a vinho chileno, e saboreando a companhia espiritual de meu primeiro amor. Que morreu jovem, afogado, por causa de uma rede de pesca. Apesar de seus lindos olhos verdes, não era Alfie. Seu nome era Álvaro, e eu fui muito feliz com ele.
Beijos!