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escrevo a dor e o prazer de viver vivo para escapar da morte morro e acordo cada vez mais forte

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

um pedido de socorro

Queridos e queridas,

Gosto sempre de ver ou rever os filmes de Woody Allen. Ele escolhe temas, e os apresenta de uma forma que eu gosto, com a qual me identifico. Seja pelo sarcasmo, pelas tiradas filosóficas, pela fina tragicomédia, pela sensibilidade e argúcia com a qual ele roteiriza, atua e filma questões humanas, afetivas, existenciais.

Tudo o que é simples e é complexo ele mostra em diálogos sempre interessantes e instigantes. Um dos temas que é cada vez mais atual, o qual ele filmou em 1998, é sobre as Celebridades.
Celebrity reúne um elenco de famosos, como Kenneth Branagh, Wynona Ryder, Charlize Theron, Melanie Griffith e Leonardo DiCaprio. Artistas que são celebridades intepretando celebridades, à exceção de Branagh, o protagonista que é um repórter aspirante ao mundo das celebridades. De tanto conviver nesse mundo, com o qual se identifica, o repórter tenta se ambientar às situações nas quais se vê envolvido. Nessas situações rola muito sexo, drogas, narcisismo, non sense, bulimia, o vale tudo na busca da fama e da fortuna.
Às vezes, muito mais pelos famosos 15 minutos do que pelo dinheiro.

O que Woody Allen mostra não são os 15 minutos de fama, mas os intermináveis segundos de agonia daqueles que não fazem parte desse meio, e nem farão. Não porque não tenham talento, ou porque não trabalhem, ou porque não tenham ideais. É simplesmente porque nada disso é o que realmente importa nesse meio. Golpe de sorte, oportunidade, visão, estratégia, enfim, podem haver vários outros fatores, que não simplesmente seguir o caminho do meio.

Esta sátira do mundo das celebridades pode às vezes parecer clichê, meio superficial. Na verdade, eu creio que esse é um mundo superficial. Cheio de clichês. Faz parte de estar inserido nesse meio. Ou pelo menos, de aparentar estar, como é o caso do frustrado e fascinado repórter. Ele renega suas origens, atribuindo toda a sua frustração à ex-mulher e ao casamento falido. Ele busca pelo novo, o que encontra em uma nova mulher, e depois em outra, em uma nova situação, e depois em outra, e no fundo, ele não encontra em nada, e em ninguém.
Ele não encontra a si mesmo.

O Help! inscrito nas nuvens, na cena que dá início e fim ao filme, já diz tudo. Woody Allen já avisa o espectador desde o começo: Socorro! Essa é a vida que eu realmente quero? O que eu realmente quero? Alguém pode responder por mim? Não? Então, Help!!!!
Beijos!

domingo, 30 de agosto de 2009

A vitória dos losers

Queridos e queridas,

Só vence na vida quem já perdeu. Mas a abissal diferença que existe entre os vencedores e os perdedores reside no fato de que ninguém gosta e quer perder. Todos querem vencer. Vencer um concurso, uma prova, uma competição. Ganhar: dinheiro, presente, amor, amizade... Perder é para os fracos, vencer é para os fortes. Será?

Os filmes de ação em geral polarizam essa questão, do bem e do mal, dos vencedores, que são os heróis, e dos perdedores, que são os vilões. Quando acontece o contrário, e os heróis perdem, muitas vezes com a própria vida (Coração Valente, Gladiador, por exemplo) eles se tornam mártires, ícones de uma luta, uma causa. Então, perder não é necessariamente perder.

Perder para saber vencer. Enquanto na história da humanidade há os que nasceram em berços de ouro, herdeiros de dinastias, fortunas e impérios, há os que nasceram no fundo do poço, na escuridão dos becos , nas latrinas dos ruelas. Cada um em seu "lugar", em seu "status", cada um crescendo em um mundo, em um submundo. Quem vai vencer, quem vai perder?

Ganhar um troféu, uma distinção, uma homenagem, um prêmio, uma honraria, torna alguém melhor? Não ganhar, torna alguém pior? Na verdade, essas criações humanas tem um simbolismo de compartilhar com a comunidade as conquistas de pessoas que se destacam por algo que fazem, em tese, para a melhoria da própria comunidade. Mas, no mundo capitalista pré-apocalíptico, vencer significa subir os degraus de uma luta por poder, por mais dinheiro, por mais status, mesmo que isso implique no uso das novas formas pós-modernas de exploração da mão-de-obra. Como Jean-Paul Sartre escreveu no conto "A Infância de um Chefe", uns nascem para vencer, para serem chefes. Outros, para serem comandados. A desigualdade social é um abismo sem fim, porque os vencedores muitas vezes não são os que se distinguem por terem feito algo para a melhoria da comunidade, mas para a consagração de seu narcisismo pessoal, econômico, político.

Um filme que me sensibilizou profundamente trata de uma família de losers, Pequena Miss Sunshine (2006). Dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris, traz um grande elenco - Abigail Brelin, Greg Kinneat, Paul Dano, Alan Arkin, Toni Collete, Steven Carrell - como uma família problemática que se une primeiramente mais por necessidade do que vontade. A menina Olive vai participar de um concurso na Califórnia, o que dá início a um road movie em uma kombi amarela na qual varias situações bizarras passam a acontecer. Entre sonhos, frustrações, momentos de alegria e de tristeza, eles vão descobrir os laços que os unem. Eles não são perdedores, eles estavam se deixando perder.

Pequena Miss Sunshine demorou cinco anos para ser concluído, por problemas financeiros. Poderia ter sido um filme loser. Entretanto, ganhou dois Oscars - melhor ator coadjuvante (Alan Arkin) e melhor roteiro original. Ganhou quatro Independent Spirits Awards, dois prêmios Bafta.

Um filme que não seria perdedor ainda que não tivesse recebido esses e outros prêmios. Porque só é perdedor quem deixa de tentar, de lutar, de acreditar.
Os vencedores, muitas vezes, são iludidos por si mesmos. Grandes potências, poderosos chefões. A vida é momento, a vida é movimento, e vários losers unidos em uma kombi amarela são capazes de fazer coisas realmente incríveis, como, por exemplo, acreditar em si mesmo e no outro, lutar, tentar. Esse é o único caminho verdadeiro para vencer.
Uma ótima semana!

sábado, 29 de agosto de 2009

O som do pássaro da meia-noite

Queridos e queridas,

Na sessão de cinema sem pipoca aqui em casa, revi ontem à noite Crepúsculo. O meu genrinho ainda não tinha assistido, e como eu adoro esse filme, ao contrário de meus filhos, resolvemos ver de novo e depois fazer uma roda crítica. Claro que o genrinho achou "emo", talvez um pouco influenciado pela minha filha (embora ele negue, claro)... Mas eu não mudei de opinião.

Eu me emociono cada vez que revejo essa história. É para adolescentes? Sim e não. Não, porque é uma história de vampiros e é uma história de amor. Uma linguagem estética moderna, diferente, com uma trilha sonora ótima, com uma química ótima entre os protagonistas, com uma releitura da histórica maldição de ser vampiro. Eu adoro desde sempre filmes sobre vampiros - desde criança eu via Drácula, em preto e branco, com atores como Bela Lugosi, Peter Cushing e Christopher Lee em atuações fenomenais. Eu não tinha medo, na verdade me sentia hipnotizada por essas histórias fantásticas. Na verdade, o mais assustador dos vampiros se chama Nosferatu.

Nosferatu (Eine Symphonie des Grauens) foi filmado em 1922, sob a direção de F. W. Murnau. A história é sobre o conde Graf Orlock, um vampiro que tem sede de sangue e de poder, e que espalha terror em Bremen, na Alemanha. Uma refilmagem dirigida por Werner Herzog traz Bruno Ganz interpretando Jonathan Harker, que se confronta com o vampiro interpretado por Klaus Kinski.

Nosferatu nasceu da obra Drácula, de Bram Stoker (1897). Murnau produziu essa belíssima versão para o cinema porque não obteve autorização da viúva de Stoker para filmar a história original. O Conde Drácula é o Conde Orlock, macabro com seu nariz e orelhas grandes, seus dentes afiados, sua figura esquálida e assustadora. É a encarnação do mal, do terror. O mundo das sombras, das trevas, da escuridão. Nosferatu é a metáfora da violência sob todas as suas formas, da guerra, do Holocausto, do nazifascismo, da intolerância política, religiosa, do vampirismo econômico do capitalismo pré-apocalíptico.

Na abertura do filme lemos: "Nosferatu é a palavra que se parece com o som do pássaro da morte da meia-noite".

Por isso, queridas e queridos leitores, ver Crepúsculo hoje significa perceber uma outra forma de relação, que não a do vampirismo que suga, que subtrai, que viola, que molesta, que é do mal e do terror. Crespúsculo, assim como os próximos filmes, Lua Nova e Eclipse, mostram que o conflito entre o bem e o mal, o humano e o não humano, o amor e a sua impossibilidade, são tormentos e momentos em nossas vidas. Não esqueçamos: após o som do pássaro da morte da meia-noite, começa um novo dia. Aurora.
Bom domingo!

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A máquina caloteira, o estorno e o estorvo

Queridos e queridas,

Que dia interessante! Um pouco porque dias ensolarados são sempre dias interessantes.
E mais um pouco porque dias passados com pessoas queridas ficam muito mais interessantes.
Ontem, por exemplo, o meu começo de tarde foi horroroso. Fiquei mais de uma hora em uma agência bancária porque o dinheiro que eu queria sacar não foi espirrado pela máquina, a caloteira máquina que me espirrou um extrato no qual o dinheiro constava como tendo sido sacado. Fui assaltada dentro do banco pelo próprio caixa automático!!!!!!!!!

Fui imediatamente falar com a atendente, que embora gentil, não compreendeu a extensão do problema. Ela subiu as escadas, depois desceu as escadas, e deu a questão por resolvida: eles vão fazer o estorno na sua conta em até 48 horas. OK? Uma pinóia! Desde quando eu acredito no fio de bigode? Do dito pelo não dito? Que garantia tenho eu, uma reles cliente, de que a máquina bandida vai devolver o meu dinheiro? Quero falar com o gerente, agora!!!!!!

Daí subi as escadas. Rezei toda a missa para o rapaz. Ele, também gentilmente, fez um interrogatório, afinal, poderia eu ter simulado tudo, por exemplo, afinal, o banco precisa ter todas as garantias, e afinal, isso é normal, como ele falou. Daí, surtei. Normal se for na tua conta, com o teu dinheiro, do teu salário. Eu quero o meu dinheiro de volta. Abra a máquina, a fórceps!!

Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Ele me garantiu que o estorno seria feito. Acho que ele pensava que essa palavrinha estapafúrdia, es-tor-no, me faria deixar de ser uma cliente estorvo para ele. Eu disse que só sairia dali se ele escrevesse, assinasse e carimbasse tudo o que me disse. Sou desconfiada, neurótica, paranóica, psicótica?

Não, sou vítima de um sistema que falha quando bem entende, que faz o que bem entende, que funciona quando quer, que tem pane quando quer, e a gente, pessoas, que espere o estorno em até 48 horas. Há câmeras, seguranças, portas anti-furto, máquinas automáticas programadas, senhas para atendimento com espera estimada entre 15 e 20 minutos - o que nunca acontece, sempre é quase uma hora - um número de funcionários - pessoas humanas - cada vez em menor número. Tudo isso por causa dessa coisa horrorosa inventada por nós - pessoas humanas - chamada dinheiro. E eu precisava do dinheiro para fazer um pagamento. E eu precisava do meu tempo para trabalhar. E eu saí da agência com um extrato assinado e carimbado pela gerência, com a garantia de que seria feito o estorno. E eu continuei a me sentir um estorvo.

Minha querida amigairmã Valéria me convidou, à noite, para irmos passear. Olhar vitrines, jogar conversa fora, jantar comida chinesa, tomar café. Ela, um dream. Eu, in love. Cheguei em casa com meus filhos e o genrinho aguardando com carinho, cafezinho, chazinho, e, last but not least, uma lasanha e vinho tinto!!! QuebanQuete!!!

E hoje à tarde, minha amigairmã Valéria e eu fomos olhar vitrines, jogar conversa fora, saborear a salada de frutas com sorvete do Mercado.

Cheguei em casa com os pés doloridos de tanto bater perna com salto alto. Mas feliz! Lembrei-me então de um filme muito visto, Thelma & Louise (1991), dirigido por Ridley Scott. Um road movie sobre duas amigas que trocam uma vida monótona por uma viagem de fim-de-semana que vai transformar suas vidas. Em meio a encrencas, descobrem também o sabor da liberdade.
Cada dia que passa eu aprendo a voar mais, e menos rasante. Em bando, no bando das pessoas interessantes, que nos são caras, que nos acolhem, que nos sorriem, que nos fazem ver a vida pelo seu melhor ângulo. Deixamos de ser um estorvo, de nos preocuparmos com estorno, chegamos até a imaginar um mundo em que essa praga de dinheiro talvez não mais exista. E que em vez de máquinas automáticas autofágicas e rapinas, tenhamos momentos divertidos, prazerosos, simples e felizes, como esses, com os meus queridos e com os meus olhos verdes.
Bom fim de semana
!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Noites brancas e noites escuras

Queridos e queridas,

São tantos os filmes que falam sobre os amantes, sobre o amor e o desamor. Parece até que se surgir um novo filme sobre esse tema, será o mesmo que chover no molhado, falar sobre tudo o que já foi dito, fazer uma reprise, um remake de clichês sobre um dos temas caros demais e praticados de menos: amar e ser amado. Essa correspondência sensual, sexual e apaixonada que caracteriza o encontro de dois amantes.

Pois o filme que estréia no Brasil nesta sexta-feira, tem o nome de Amantes. Two lovers, de 2008, é escrito e dirigido por James Gray, e embora seja um drama romântico de ficção, certamente retrata a melancolia, os medos e as angústias que cercam as pessoas quando se vêem em situações que não conseguem lidar, como estar apaixonado por uma pessoa que está apaixonada por outra pessoa que por sua vez está também apaixonada... por quem?

É possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo? É possível romper com uma relação que transmite segurança, fortaleza, porto seguro, para entrar em uma relação de impulso, luz, desafio? Deixar uma família? Formar outra família? É verdadeiro amar alguém e se interessar por outro alguém? O que é amar de verdade? O que significa amar suficientemente alguém? O que você faria por alguém por amor?

Neste filme, Sandra (Vinessa Shaw) ama Leonard (Joaquin Phoenix) , que ama Michelle (Gwyneth Paltrow), que ama Ronald, que não deixa Sandra para ficar com Michelle. Leonard é bipolar, deprimido, suicida. Michelle simboliza a liberdade, a sincronicidade, a afinidade (até porque por trás de sua luminosidade esconde-se uma mulher atormentada e autodestrutiva) . Sandra representa a segurança, a lealdade familiar, a estabilidade econômica, e o status social.

Esse conflito interior do protagonista me faz lembrar do genial escritor Dostoievski, que em 1848 escreveu a novela Noites Brancas. Nas noites de verão de São Petersburgo, o sol quase não se põe. Nesse cenário, um romance arrebatador - assim como a prosa de Dostoievski - acontece entre "o sonhador" e Nastenka, a personagem romântica. Alimentam sua vida de sonhos, e relutam em enfrentar a vida concreta. São tomados de um romantismo idealista, de fantasias, de sentimentos que se sobrepõem à lógica. São enamorados.

Assim como essa obra de Dostoievski inspirou o filme Um rosto da noite (1957) de Luchino Visconti, chega agora o filme Two lovers, com a trama envolvendo, muito mais do que um triângulo amoroso, uma rede de laços e de nós que transformam as noites brancas em noites escuras, pois não seria esse o preço a pagar por amar, de verdade, alguém?
Boa noite!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O amor, e ponto final

Queridos e queridas,

Tem estréia marcada para 04 de setembro nas salas italianas o filme "L'Amore e Basta" (O amor e ponto final). O documentário, dirigido por Stefano Consiglio, apresenta o amor gay, do ponto de vista de nove casais de gays e lésbicas entrevistados em diferentes países da Europa. Trata-se de mais uma produção realizada com o intuito de dar voz aos homossexuais, de mostrar como eles e elas celebram o amor, a sexualidade, e como lidam com a discriminação tanto na vida pessoal como profissional.

Este assunto me faz lembrar de um dos melhores filmes que já vi a respeito: Filadélfia.
Esta produção norte-americana de 1993, dirgida por Jonathan Demme e com roteiro de Ron Nyswaner, apresenta o grande ator Tom Hanks no papel de Andrew Beckett, um advogado homossexual que trabalha para uma conceituada empresa em Filadélfia. Ao ser diagnosticado com AIDS, é demitido. Ele contrata um advogado homofóbico, que com o tempo se dá conta do seu ridículo e injustificado preconceito.

Filadélfia recebeu o Urso de Prata e Globo de Ouro de melhor ator, Oscar em 1994 de melhor ator, melhor canção original, entre outros prêmios. O que este filme omitiu, que foram as cenas de beijos ou quaisquer outras intimidades mais explícitas entre Andrew e seu parceiro (interpretado por Antonio Banderas), foi o que O Segredo de Brokeback Mountain veio mostrar mais tarde. Que todos se amam, todos se beijam, todos tem tesão, e há diferentes e diversas maneiras de amar. E de sofrer quando se reprime esse amor.

A única relação transviada e na contramão é a falsa forma de amar. O não amar. O desapaixonar. As relações podem ser monogâmicas e serem puro tédio. Desamor. Prazo de validade vencido. Mantêm-se tão somente as aparências.
As relações podem ser heterossexuais e nem por isso são sinônimo de juntos para sempre, até que a morte nos separe, ou eterno enquanto dure. O mesmo com relação aos casais homossexuais.
Estar em uma relação é estar ligado a alguém. Enquanto houver essa ligação, essa conexão, essa química, que para uns é paixão, para outros é amor, haverá sentido em ficar junto. E cada um escolhe o par que lhe magnetiza, que lhe energiza, que lhe completa.

Por que, então, tanta hipocrisia, tanto preconceito com as escolhas que as pessoas fazem? Em algumas situações, como a que este filme mostra, a perseguição é explícita, coagindo alguém, humilhando e difamando. Mas em muitas outras situações esse preconceito se manifesta de forma velada, e não por isso menos danosa. Como se uns fossem melhores do que outros, ou normais em relação a outros, ou saudáveis em relação a outros.

O que o documentário italiano mostra, e também Filadélfia e vários outros filmes que tratam dessa questão, é que claro está, onde há amor, onde há paixão, há uma relação feliz.
Será que isso é o que atormenta os "senhores da moralidade"? A essas pessoas, a resposta é: o amor, e ponto final.
Boa noite!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Brad Pitt me dá sono

Queridos e queridas,

Éramos quatro pessoas vendo O Curioso Caso de Bejamin Button. Filme dirigido por David Fincher, lançado em dezembro de 2008, e ganhador dos Oscars de Direção de Arte, Maquiagem e Efeitos Especiais.

O curioso é que este filme, antes de ser lançado, prometia ser um arrasa-quarteirão de Oscars. Brad Pitt, no papel de Benjamin Button, era tido como favorito para este e outros prêmios de melhor ator. Acontece que para ser o melhor filme é preciso que se tenha a melhor história. E esse não é, curiosamente, o caso.

O filme resultou da adaptação de um conto escrito por F. Scott Fitzgerald no ano de 1922. Um homem nasce velho, com cerca de 80 anos, e vai ficando jovem, até morrer bebê. A passagem de tempo invertida com relação à vida real é o mote para um drama, romance, enfim, uma história feita para emocionar e fazer pensar sobre o valor da vida, sobre como aproveitar o tempo da melhor forma possível. É a história da criança velha que cresce em cadeira de rodas e muletas, até chegar à vida adulta como o apolíneo Brad Benjamin Pitt.

Na contramão de meus três parceiros de filme, meu filho, minha filha, e meu genrinho, eu não gostei do que vi. Não me comovi. Talvez porque a mensagem da história, que é o ponto central tanto do livro, como do filme, é algo que eu penso e desacredito há tanto, tanto tempo, que o filme não me acrescenta nada neste sentido. Aproveitar o tempo, ficar perto e de bem com quem se gosta, não se deixar levar por coisas pequenas, ser generoso, grandioso, fraterno... Benjamin poderia ter ressuscitado e ter sete novas vidas, que o mundo continuaria sendo uma Babel (filme, aliás, que eu gosto muito, e sobre o qual falarei em outro post). Aí, sim, teríamos um ponto de virada interessante no roteiro.

Se no conto a história é perfeita,´porque somos levados a imaginar as transformações físicas, emocionais, psicológicas de Benjamin e dos que o cercam, no filme esta "sensação" é forçada, mediante sofisticadíssimas tecnologias digitais e efeitos de maquiagem. O diretor se esmerou, contratou a empresa Digital Domain, e um poderoso software que mesclou as caras e bocas de Pitt no corpo de outros que interpretaram Benjamin velho. Foram mais de 150 profissionais envolvidos no trabalho de efeitos visuais. O filme é um primor neste aspecto técnico.

Como drama, acho arrastado, melodramático, previsível. Um roteiro previsível derruba o filme. Enquanto meus parceiros de filme viam e se comoviam com o que viam, eu fui dormir. Vejam! Consegui ir deitar mais cedo! Acho que vou ver esse filme hoje de novo!
Beijos!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Lutar, sempre

Queridos e queridas,

Quando assisti Coração Satânico (dir. Alan Parker, 1987), além da atuação do consagrado ator Robert de Niro, chamou-me atenção aquele detetive particular, Harry Angel, que quanto mais se aprofunda na investigação, mais fica e torna o filme tenso, emocionante, um dos melhores filmes de suspense que já vi. O nome desse ator? Mickey Rourke. Um ano antes ele foi o protagonista do filme Nove e meia semanas de amor, de Adrian Lyne, no qual esbanjava charme, beleza e talento. Além de ator, Rourke é boxeador. Seu rosto, antes irretocável, transformou-se em um punhado de peles repuxadas por várias cirurgias, que levaram para o esquecimento os papéis de galã.

O fato é que um ator deve ser mais do que um rosto bonito. Ou melhor, um bom ator não precisa nem ter um rosto bonito. A relação entre beleza e interpretação, entre embalagem e conteúdo, é algo a ser bem debatido. Para alguns produtores e estúdios, um é indispensável ao outro. Felizmente, nem todos pensam assim. Vejam grandes nomes do cinema internacional: Robert de Niro, Jack Nicholson, Harrison Ford, Sean Connery, Anthony Hopkins. A idade está chegando, o corpo dá sinais, e no entanto, seus filmes são sempre imperdíveis.

Mickey Rourke era um homem tão bonito, que ficaram - ele e seu trabalho - literalmente marcados pelas cicatrizes. Então, em 2008, foi a hora da virada. Voltar à cena. Entrar em ação. Dar uma voadora. Um vôo rasante. Pular no abismo. Sob a direção de Darren Aronovsky, Mickey Rourke deu vida ao personagem Randy "The Ram" Robinson, no filme O Lutador. Ele é um lutador de luta-livre decadente e movido a anabolizantes, Um dia tem um ataque cardíaco, e precisa escolher: parar de lutar, ou voltar aos ringues, para uma revanche que poderá levá-lo à vitória e à redenção.

"The Ram" não tem uma boa relação com sua filha, tenta engatar um relacionamento amoroso com uma stripper, tenta sair de sua vida modorrenta de trabalho em um supermercado. Tenta achar um sentido em sua vida. Sentido que encontra quando está nos ringues, na arte da luta.

Hoje eu acordei triste. Não fui em uma reunião, perdi a vontade. À tarde, soube que o projeto de um documentário que havia sido aprovado com três votos, não ficou entre os selecionados para obter financiamento. Mais um projeto engavetado. Mais um sonho partido. Mais um meio ano que passa e pára. Mais um teste para confirmar ou não a nossa vontade, obstinação e persistência em fazer o que gosta, em lutar pelo que se quer.

Ficam as cicatrizes. Não foi a primeira derrota, nem será a última. O rosto, outrora límpido, começa a enrugar-se. Sabedoria do tempo, nada como um dia após o outro. Se há algo que O Lutador e Rourke deixam claro, é que o sentido começa dentro da gente. A beleza, efêmera, deixa rastros na memória. O talento, lapidado, cresce com o tempo se não desistirmos de lutar. Sem anabolizantes. Sem fugas. Lutar é subir no ringue. Já estou no aquecimento.

Boa noite!

domingo, 23 de agosto de 2009

Discos de vinil e um homem de verdade

Queridos e queridas,

Existem filmes muito bons que são lembrados especialmente pela marca deixada pelo seu protagonista. Filmes que talvez não fossem tão maravilhosos se não tivessem contado com aquele ator ou aquela atriz para o papel principal. São artistas que entram de tal forma no personagem, que fica impossível imaginar aquela história contada por um outro artista que não aquele. O sonho de todo o diretor e de todo o roteirista é encontrar um artista que expresse visceralmente a história. É interpretar, claro, mas pode ser mais do que isso, pode ser viver a vida do personagem, por um tempo, por umas cenas, por um período que poderá resultar em um filme para ser visto e revisto sempre.

Quando eu vejo um filme com John Cusack eu penso, esse artista existe, e John é um deles. Jovem, porém com um talento capaz de deixar uma marca nos filmes em que atua, como Quero ser John Malkovich, os Imorais, Identidade, e vários outros. John é versátil, mas é sempre ele mesmo. É incrível que ele transmite essa simplicidade na hora de atuar, fazendo-nos crer que é só chegar ali e sair a dizer as falas, e pronto, corta! É incrível que ele olha, caminha, fala, ouve, como se fosse algum conhecido nosso, alguém da nossa turma, ou amigo de um amigo nosso, alguém que a gente sabe que já viu em algum lugar.

Agora, imagine John olhando para a câmera, dizendo: “O que veio primeiro? A música ou a miséria? As pessoas se preocupam com crianças brincando com armas, vendo vídeos violentos, como se a cultura da violência fosse consumí-las. Mas ninguém se preocupa se escutam milhares de canções sobre sofrimentos, rejeição, dor, miséria e perda. Eu ouvia música pop porque era infeliz ? Ou era infeliz porque ouvia música pop ?”

John interpreta Rob Gordon, no filme Alta Fidelidade (2000), sob a direção de Stephen Frears. Rob é um rejeitado. Mantém a quase falida loja de discos Championship Vinyl, e jutamente com dois amigos excêntricos (Jack Black e Todd Louiso), passam o dia fazendo a lista dos top five: as cinco melhores músicas para tocar no dia de sua morte, por exemplo. Rob decide fazer a lista dos top five foras amorosos que levou. E ao mostrar seus frustrados relacionamentos amorosos, ainda que de uma forma cômica, Rob e o filme passeiam por temas do universo masculino, como a insegurança, o medo de compromisso, e percepções sobre sexo, traição e paixão.

Alta Fidelidade é uma comédia romântica baseada em um livro com o mesmo nome, e que também inspirou a produção de uma peça teatral, A vida é cheia de som e fúria. A música é um ponto a parte no filme. É, seguramente, uma das melhores trilhas sonoras de todos os tempos. Dez entre dez faixas do filme são simplesmente imperdíveis, emocionantes, com músicas de Velvet Underground, Love, The 13th Floor Elevators, Bob Dylan, Kinks, Stereolab, Smog, Royal Trux.

Rob é gentil, romântico, culto, e não tem sucesso amoroso. Rob é egocêntrico, convencido, infiel, e não tem sucesso amoroso. Rob é um pouco de cada homem. Rob é um homem que quer fazer o que gosta, e que não sabe se quer fazer o que gosta.

Enquanto arruma sua vida, ele reorganiza a sua coleção de discos de vinil no chão de sua casa, ordenando de acordo com o que aconteceu em sua vida.

O que Rob quer da vida, além de ouvir músicas que lhe tocam na alma -sim, os homens tem sentimento! - é compreender porque faz algumas coisas e não faz outras, enfim, por que é preciso crescer, amadurecer. Não repetir erros passados, não fazer de conta que é uma outra pessoa, não ter medo do futuro, não viver de fantasias. Mas olhar para a frente, e pensar nos top five passos para uma vida melhor: querer amar, querer ser amado, ouvir muita música, manter a coleção de discos de vinil, enfim, ser um homem de verdade.
Boa semana!

sábado, 22 de agosto de 2009

Os quatro Lebowskis


Queridos e queridas,

Pois no post de ontem terminei à procura de Lebowski, e hoje encontrei quatro! Explico. Fui com meus filhos assistir Se beber, não case!, comédia dirigida por Todd Phillips, que trata de uma festa de solteiro sem mostrar a festa. A história gira em torno das peripécias de quatro amigos trapalhões que vão a Las Vegas, para realizar uma despedida de solteiro. Depois de uma noitada no Caesar Palace, o noivo desaparece, e os três atrapalhados padrinhos acordam diante de uma galinha, um tigre, um bebê, uma suíte completamente destruída, e um mistério: o que aconteceu naquela noite?

O filme é um sucesso de público nos Estados Unidos, onde já conquistou a maior bilheteria da história em comédia para maiores de 18 anos. Apresenta os ingredientes de uma história já contada em outros filmes - a despedida de solteiro - mas sob uma ótica original. Apresenta uma espécie de road movie só para homens com mais de 30 anos, mas com um entrosamento no elenco que torna as cenas no carro sempre hilárias, que em alguns momentos lembra John Travolta e seus amigos em Motoqueiros Selvagens. Pode não ser original, mas é diversão garantida.

E o que se espera de uma comédia é que faça rir. As piadas podem ou não ser novas, desde que bem contadas e bem interpretadas, e o filme funciona assim. Não vá assistir esperando ver um grande filme, porque ele é despretensioso, e é bom justamente por isso. Tenho certeza que a equipe e o elenco se divertiram muito gravando as cenas, especialmente com o tigre. E um elenco formado por atores pouco ou nada conhecidos, com exceção do novo galã Bradley Cooper, que manda bem, mas é mais conhecido pelo envolvimento com atrizes como Jennifer Aniston e Renée Zellweger.
As comédias norte-americanas oscilam entre o humor escrachado e rasteiro, e algumas poucas vezes com histórias mais refinadas. Normalmente, ficam na memória as comédias românticas. Se beber, não case me fez lembrar do humor negro e cativante dos Irmãos Coen. E de Lebowski. Em vez de um homem grandão atrapalhado, chapado e ingênuo, ganhamos quatro Lebowskis, cada um à sua maneira: o gordinho doido, o dentista reprimido, o noivo certinho, o bonitão que lidera a manada para o precipício. Mas são amigos, são grandes amigos, esses quatro doidos e cativantes Lebowskis.
Bom domingo!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Procura-se Lebowski

Queridos e queridas,


Estou com sono, mas não vou dormir antes de escrever. Nem vou conseguir escrever pensando em dormir. Nem quero dormir sentada, como quase aconteceu há instantes. Quero ter uma idéia, uma sugestão de inspiração, e ela não chega. Então, pergunto a mim mesma: se eu tivesse que falar sobre algum filme diferente, sobre qual eu falaria? Minha memória vai imediatamente para o ano de 1991. Lá estava um grande ator, no papel de um grandão e grande personagem, Jeff Lebowski.


Lebowski é um hippie, tudo o que ele quer da vida é ficar na paz e no amor. Nesta comédia excêntrica dos Irmãos Coen, o "dude", cara que se acha, é um grande bobalhão. Ele se envolve em confusões, quebra-cabeças, sequestros, ameaças. Sua vida pode ser tudo, menos sem graça. Lebowski tem a capacidade de não fazer nada e ainda assim se incomodar. Quanto mais ele quer fumar o cachimbo da paz, mais o seu grande e neurótico e veterano de guerra e amigo Walter (John Goodman) o empurra para mais confusões.


O que há de especial nesse filme, além de ser, como eu já disse, excêntrico? Para alguns, é considerado um filme menor dos cultuados irmãos Coen. Para outros, um dos filmes que mais simbolizam a criatividade, a ousadia e a linguagem peculiar dos irmãos Coen. Para mim, O Grande Lebowski é um Grande Filme em primeiro lugar porque conta com a atuação maravilhosa e inspirada de Jeff Bridges. Jeff já fez vários papéis, do drama ao suspense, e em todos está sempre muito bem. Mas neste filme eu fico com a sensação de que existe um Lebowski de verdade, é impossível que não exista, depois de ver sua performance. Ele é um cara legal, muito gente boa, ele parece um urso, grande e acolhedor, ele é desajeitado e por isso é charmoso, ele é sem-grana e por isso muito semelhante às pessoas reais. Sabe aquele cara que senta no bar para conversar, que fuma um baseado para viajar, que sempre tem um ombro para ouvir pela milésima vez o desabafo de um amigo, por mais pirado que ele seja? Ele é o cara.


Em segundo lugar, a história. Se vocês prestarem bem atenção, encontrarão várias semelhanças entre O Grande Lebowski e Fargo, esse filme, sim, a verdadeira obra-prima dos Irmãos Coen, e um dos meus filmes de cabeceira. Além de serem dos Coen, existe suspense, sequestro, uma mala, segredos, confusões, mal-entendidos, ganância pelo dinheiro, e um protagonista que é um grande bobalhão. Me parece que os Irmãos Coen brincam e se divertem o tempo todo, enquanto escrevem, enquanto dirigem. Talvez por isso seus filmes são de um humor diferente, de uma inteligência perspicaz. Eles viajam enquanto filmam, eles levam ao pé da letra a vontade de criar uma história, de transformar essa história em filme. Viajam mesmo. Escolhem os atores certos, e temperam com um humor refinado que nos presenteia com filmes como Fargo, e, é claro, o nosso querido amigo azarado, ruim de grana, bobalhão, mas simplesmente irresistível: Lebowski.


Lebowski é um daqueles personagens que eu gostaria de rever em outro filme, é uma daquelas pessoas que se conhece por uma casualidade do destino, que apareceu e que se foi, mas deixou sua marca. Que você não esquecerá. Que você ficará feliz se reencontrar. Por ser tão simples, Lebowski é um dos personagens mais complexos, na minha apreciação. Suas ações, as mais banais ações, nos faz refletir sobre como é difícil para alguém de verdade ser simples assim. Se nos anos 90 Lebowski encarnava o último grande hippie, como viveria ele hoje, no século 21, em pleno mundo capitalista pré-apocalíptico? Ou será que seu ressurgimento poderia significar uma opção para combater esse mundo em queda livre? Imagine um exército de Lebowskis. Gente do bem do tipo pode-me-provocar-que-eu-não-to-nem-aí. A não ser que levem o tapete dele.
Procura-se Lebowski!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Os olhos verdes e Lenine

Queridos e queridas,

O cansaço é uma sensação de exaustão. Vai tomando conta, às vezes aos poucos, às vezes de forma fulminante. E ainda nem é sexta-feira! Mas as olheiras estão maiores, a insônia quebrou seu recorde, e o trio-maravilha chuva-vento-frio me deixa louca! Quero minha vida de volta!

Daí, meus olhos verdes me leva para jantar. Depois, pergunta, preocupado, qual foi a última vez que eu havia jantado? Pergunta se eu almoço. Acho que ele me imagina com overdose de coca-cola e café preto 24 horas por dia. Ele quer saber se eu vou dormir bem esta noite. Pede, sutilmente, que eu me distancie um pouquinho do computador. Eu o escuto atentamente. Gosto de saber que ele se preocupa comigo. Eu não viveria sem a coca e sem o café, nem tampouco respiraria sem o computador e o desfibrilador... E já me acostumei a trocar almoços e jantas por qualquer coisa que eu possa aquecer no microondas.
Pena que o microondas fique longe do computador.

Ele diz que vai dar um jeito de soltar um fio, fazer faltar luz, qualquer coisa, que me impeça de virar a noite no computador. Mas ele lê o que eu escrevo. Ele me leva para tomar café. E falamos de filmes, e filmes, e filmes, hoje foi sobre John Cusack. Só discordamos no final do encontro, ouvindo Kiko Zambianchi, que nós adoramos, mas daí eu falei no Lenine. Perguntei se ele gosta, e ele disse que sim, uma ou outra música, mas eu disse que Lenine é lindo, ele não acreditou, ele é muito feio. Daí, eu quase coloquei tudo a perder. Tive vontade de dizer, Lenine é lindo, ele me lembra Eddie Vedder, que é lindo, que é a minha cara metade, só falta ele me conhecer para saber disso. Como eu estou prestes a fazer aniversário-
penso que a idade tem que servir para alguma coisa - me aquietei.

E cá estou eu, a escrever sobre essas horas agradáveis, efêmeras, sutis, momentos de gentilezas, de delicadezas, que fazem um bem danado à pele e à alma da gente.

Tocou o telefone agora, era meus olhos verdes, queria saber se eu fiquei chateada com alguma coisa. Eu estranhei a pergunta, daí fiquei pensando se eu o teria chateado com alguma coisa, daí lembrei de Freud, Jung e mandei eles irem dormir, e disse não, claro que não!

E agora, de volta às teclas, penso cá com meus botões. Lenine, Lenine, não me atrapalhe mais. Quero minha vida de volta!
Bons sonhos!

DICA DA CINÉFILA:Uma mostra de filmes já disponíveis na internet, e que objetiva abordar temas relativos ao movimento anti-globalização e a contemporaneidade, será exibido nos dias 22 e 29 de agosto, e nos dias 05, 12, 19 e 26 de setembro, sempre às três da tarde, no Auditório da Escola Téncnica da UFRGS.
O professor Paulo Albuquerque (FACED/UFRGS), organizador do evento, salienta que esta mostra vai permitir ao público ter acesso a documentos audiovisuais pouco conhecidos. Para quem quer mesmo ver bons filmes, segue a programação:

22-08 BRAD WILL

Uma noite nas barricadas. Quando os paramilitares dão um tiro de fuzil no peito de Brad Will, a câmera cai, mas continua gravando. Essa câmera passa de mão em mão, contando a história de Brad. E um pouco desse movimento de movimentos conhecido como antiglobalização. Das ocupações urbanas em Nova York, a um piquete ecologista no Oregon, à batalha de Seattle, Praga, Quebec, Gênova, Quito, Oaxaca... Por trás da câmera estão os amigos de Brad que, como ele, se dedicam a mostrar o que não aparece na TV.Direção: Videohackers
29/08 - GOOD COPY, BAD COPY

Com diversas entrevistas os diretores conseguiram captar a tensão existente no debate atual entre detentores de conteúdo da indústria tradicional e artistas da nova indústria. O nome "good copy, bad copy" alerta sobre o papel que o direito autoral pode desempenhar tanto para aprisionar estas novas formas de expressão cultural, quanto para libertar a cultura permitindo uma revolução criativa. Direção: Andreas Johnsen, Ralf Christensen

05/09 - CRUZANDO O DESERTO VERDE + SOJA

Cruzando o Deserto Verde reúne depoimentos denunciativos de um processo de implantação que não respeitou nem a cultura nem o território de tribos indígenas, quilombo, pescadores e produtores rurais, desarticulando seu modo de vida e provocando a destruição de rios e da Mata Atlântica, restando apenas um deserto verde. Soja, em nome do progre$$o é um documentário produzido pelo Greenpeace, sobre o avanço da soja na Amazônia e suas consquências tanto para a floresta quanto para a população do Pará. Mostra o conflito entre os ativistas e os proprietários de terra que dominam a política local. Direção: Fernando Solanas Duração:

12/09 - A REVOLUÇÃO DOS COCOS

A Revolução dos Cocos relata a luta do povo de Bougainville (ilha do pacífico) contra a mineradora inglesa multinacional Rio Tinto Zinc, e depois por sua independência contra o exército Australiano e mercenários. Lutando e resistindo contra um cerco de 7 anos a população inventou meios alternativos para sobreviverem como energia elétrica, comida e remédios derivados do único material abundante na ilha, cocos. Direção: Dom Rotheroe

19/09 - A DIGNIDADE DOS NINGUÉNS

Este documentário reúne histórias comoventes da resistência social na Argentina frente ao desemprego e a fome resultantes do avanço do capitalismo globalizado. Relatos de solidariedade e pequenas epopéias contadas por seus protagonistas, heróis anônimos que em meio à revolta frente a um contexto de genocídio por descaso social, foram capazes de criar e desenvolver propostas coletivas e autogestionárias.Direção: Fernando Solanas
26/09 - OCUPAÇÃO 101

É provavelmente o melhor documentário para compreender o conflito existente entre Israel e a Palestina. Roubo de terra, prisões sem julgamento, estupros, assassinatos, humilhações, brutalidade banalizada, covardia e desonestidade a que estão submetidos os palestinos pelo estado e a sociedade civil israelense. Direção: Abdallah Omeish

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A terra prometida e o terremoto

Queridos e queridas,

Uma história sensível, uma adaptação sensível para o cinema, com uma direção e atuações tocantes e impecáveis. Um filme para ser visto sempre, e em cada vez se perceberá algo de novo naqueles silêncios e naqueles olhares. Esta é a minha apreciação sobre o curta-metragem Terra Prometida (2006). Com roteiro e direção de Guilherme Castro, o filme é baseado no conto homônimo de Tailor Diniz, publicado no livro Trégua para o Silêncio (1994).

Escrevo hoje sobre Terra Prometida, primeiro porque é um de meus curtas prediletos, e segundo porque há poucos dias falei que o Festival de Gramado precisa de uma auto-avaliação urgente. Qual é a relação? É que foi este Festival, no ano de 2006, que premiou Terra Prometida com os Kikitos de melhor filme, melhor direção em curta 16mm, e melhor atriz, para Aracy Esteves. E deveria ter premiado também o Alfredo Barros pela montagem, que nesta obra já fazia emergir o seu estilo alfrediano de montar, tão irrepreensível quanto sensível. Cinema puro. Pura arte.

Canabarro é um fazendeiro que vai ao velório de Chico, seu empregado, para prestar sua solidariedade à família e, é claro, não perder a ocasião para manifestar seu interesse em ajudar a família, cujas terras são de seu interesse. Há ocasião melhor do que um velório para tratar de negócios? A mãe de Chico, porém, desconfia das intenções e da causa da morte do filho. Acidente de trabalho? De percurso? Ou conflito de interesses? Olhares e silêncios fulminam, falam por si.

Terra Prometida recebeu vários outros prêmios, no 39º Festival de Brasília, 8ª Mostra Londrina de Cinema, 1º Festival de Cinema e Vídeo de Muriaé, e Menção especial pela direção e brilhante interpretação de Araci Esteves, Festival Internacional de Cortometrajes "Oberá en cortos".

Filmes como Terra Prometida mostram que o cinema gaúcho promete. E faz o que promete. Filmes de qualidade técnica, e especialmente realizados por cineastas que tem essa sensibilidade, essa perspicácia para transformar dores, perdas, intrigas, segundas intenções, deslealdades, ingenuidades, e toda a sorte de ditos, não ditos e mal-ditos por meio da linguagem audiovisual.

Filmes como Terra Prometida mostram que há uma razão de ser para a existência dos festivais. Que existam, e que tenham vida longa, desde que realizados com a intenção e a coerência de exibir, debater e premiar obras que vieram ao mundo para dizer alguma coisa.

Enquanto aqui, na semana passada, homenageava-se a Xuxa, logo ali, em São Paulo, o festival de Curtas exibirá mais de 300 filmes com entrada gratuita. O evento completa 20 anos, com o nome de Curta Kinoforum - Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo.
Começa nesta quinta e vai até o dia 28, com a exibição de centenas de filmes nacionais e estrangeiros, em onze salas da capital paulista. Tem produções de diversos estados, que serão distribuídos nas chamadas Mostra Brasil, Panorama Paulista, Mostra Internacional, Mostra Latino-Americana, Mostra Infantil. Uma Mostra Chilena, também.

E para matar de vez e de inveja os cinéfilos que lá não poderão estar, como eu, haverá também programas especiais e atividades paralelas como Escritas de Cinema, com o debate sobre a importância dos curtas na atualidade, relacionando as novas mídias, as diversas formas de produzir e exibir vídeos. Terá o Colóquio Pensar e Fazer Cinema, e oficinas como Crítica Curta, com Sérgio Rizzo, produção de textos e de vídeos de até três minutos.

Cineastas e cinéfilos dos pampas, esta Terra promete. Outras terras, enquanto isso, fazem verdadeiros terremotos culturais, para o bem da arte cinematográfica.
Bom dia!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Dois mil dólares de carinho

Queridos e queridas,


Sobre o que escreverei hoje? Olho em torno de mim, de olhos fechados. Penso: onde meus olhos abrirem e pousarem o olhar, aí estará a história de hoje. Abro os olhos, e miro um livro de Jean-Paul Sartre. Aproximo o olhar para ler o nome do livro. Quando leio, cerro os olhos, meio que envergonhada, meio que excitada. A Prostituta Respeitosa. Entre as várias obras do escritor e filósofo francês, esta pode ser considerada mais amena, menos complexa. É uma peça teatral em um ato e dois quadros. Mas basta começar a ler a história da prostituta Lizzie, para compreender a profunda metáfora que ele cria em torno da França, um país dividido entre os alemães e os aliados, os colaboracionistas e a resistência. Vender-se. Para quem e por que?

Nesta peça escrita em 1946, Sartre aborda situações de violência, opressão e racismo, critica a sociedade norte-americana baseada na exploração. Uma grande potência que se espalha sobre países em desenvolvimento. Os tempos passam. Mudam os nomes, mas não a situação. A exploração de um sobre o outro. Quem se vende para quem, e por que?

A sociedade trata com respeito a prostituta de luxo, e trata com desprezo a prostituta do lixo. Há níveis na sociedade da hipocrisia. Do tráfico à exploração sexual de menores, e do oferecimento de sexo pago a senhores de fina classe, há uma tênue, porém, marcante diferença. Na primeira situação, crianças e adolescentes são vítimas de um sistema abusivo, mercenário, que mira lucrar 100 por cento com custo zero. Na outra situação, a complexidade psicanalítica de um ato sexual que é tão somente um ato sexual e ao mesmo tempo é muito mais do que um ato sexual.

O filme Anjos do sol (2006) dirigido por Rudi Lagemann, mostra a vida de Maria, uma menina nordestina que aos 12 anos de idade é vendida pela própria família para um recrutador de prostitutas. Ela faz sexo pago. Ela é prostituta? Ela sofre abusos.

O cineasta norte-americano Steven Soderbergh faz uma apresentação mais respeitosa, diria Sartre, sobre a vida de Chelsea, uma garota de programa de luxo que oferece um pacote incluindo sexo, conversa, acolhimento aos seus carentes e ricos clientes da alta sociedade. Ela é prostituta? Ela é uma namorada de aluguel, é um oráculo de prazer, é uma mulher que trabalha e ganha dois mil dólares em uma hora de trabalho.

O filme, "Confissões de uma garota de programa" (2009) mostra a possibilidade de que, em uma sociedade capitalista pré-falimentar, ou, nos meus termos, na sociedade capitalista pré-apocalíptica, se possa vender a idéia de um tempo de prazer associado a uma relação humana autêntica, íntima, de entrega total, tanto sexual como interpessoal. Por dois mil dólares, é possível se entregar ao prazer, se entregar ao êxtase. Pagar para conversar. Pagar para dar e receber conselhos. Pagar para se queixar da vida, do dia-a-dia. Pagar para pedir atenção. Depois, volta-se para a vida de sempre, com a crise econômica, com a campanha eleitoral, com a concorrência por um lugar ao sol.

No meio de tanta carência afetiva, de tanta falta de sentido na vida, a prostituta respeitosa, do luxo e do lixo, nada mais são do que os oráculos de uma sociedade que grita emudecida pela falta de mais entrega verdadeira, de mais doação de amor de verdade. O fato de Soderbergh dirigir uma atriz pornô em um filme no qual ela não faz sexo, uma prostituta que confessa e que é confessionária, é uma visão bem interessante deste cineasta que assina filmes como Traffic, Che, Erin Brockovich e o clássico Sexo, mentiras e videotape.

Fecho o livro do Sartre, imagino a peça encenada, e fecho os olhos lembrando da triste cena em
Anjos do sol quando uma das meninas é arrastada por uma corda amarrada em uma caminhonete, até a morte, porque tentou fugir daquela vida. O sistema de exploração só existe, se sustenta e se mantém porque existe o explorador e existe o explorado. Com todo o respeito, o sistema invade os lares, os casais, as famílias, quebrando a bolsa, desvalorizando o dólar, reacendendo a guerra fria. Vender-se para quem, e por que? Se tudo o que todo mundo precisa, como bem sabem Lizzie, Maria e Chelsea, é apenas carinho.
Boa noite.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Elementar, meus caros leitores

Queridos e queridas,

Cocaína no cachimbo, fumacinha saindo da mente do mais famoso investigador de todos os tempos. O personagem Sherlock Holmes, criado pelo médico e escritor Sir Arthur Conan Doyle, será levado às telonas neste ano, no filme de Guy Ritchie, com Robert Downey Jr. no papel de Holmes, Jude Law no papel do Dr. Watson, e Brad Pitt como o professor Moriarty,
o arquiinimigo de Holmes.

Tudo começou quando Doyle, então aluno do curso de Medicina em Londres, passou a observar o jeito excêntrico de seu professor, o cirurgião Joseph Bell.
Além de ser extremamente capaz em sua profissão, ele costumava diagnosticar sobre o corpo e o comportamento de seus pacientes, que lhe eram costumeiramente estranhos.

Doyle declarou, a respeito de sua fonte de inspiração: "Ele era magro, vigoroso, com rosto agudo, nariz aquilino, olhos cinzentos penetrantes, ombros retos e um jeito sacudido de andar. A voz era esganiçada. Era um cirurgião muito capaz, mas seu ponto forte era a diagnose, não só de doenças, mas de ocupações e caráteres." Observação e dedução.

Assim era Sherlock Holmes. Observa e deduz. Um detetive-consultor. Arrogante, cheio de manias, cheio de talentos, e cheio de contemplações certeiras e desconcertantes.
Elementar, meu caro Watson...

É, sem dúvida, a fonte de inspiração para o surgimento do mais genial personagem criado para uma série de tv. Gregory House é médico, viciado em Vicodin, músico de ocasião, tão arrogante quanto genial em diagnosticar doenças, mentes, comportamentos. House tem olhos penetrantes, um jeito sacudido de andar, é um médico que investiga a alma do paciente, e quanto mais difícil for o caso, mais ele se diverte, mais sua mente trabalha, observa e deduz.

Holmes e House, ambos moram no apartamento 221, e ambos tem um melhor amigo: o Dr. Watson, amigo de Holmes, e o Dr. Wilson, amigo de House. Somente Watson e Wilson conseguem apoiar, estimular, suportar, aguentar duas personas tão intrigantes e complexas.
Como Holmes, como House.

A vida de Sherlock Holmes, dedicada a elucidar toda a sorte de mistérios e crimes, teria acabado misteriosamente com um crime: Holmes, assassinado aos 69 anos, em seu apartamento 221.
O homem que virava noites sem dormir e sem comer,
fixado em desvendar mistérios e enigmas, foi acabar desse jeito.

Nós, que adoramos investigações inteligentes, poder de dedução com base em um mero olhar, ou desvio de olhar, não aceitamos a morte do personagem. Ele já havia morrido, em uma cena com Moriarty, nas cataratas de Reichenbach, na Suiça. Fãs de todas as partes do mundo protestaram, e o autor ressuscitou Holmes, com aquele truquezinho sem graça de roteiro do tipo, fingiu que morreu para investigar melhor os crimes. Mas tudo bem, o que importa é que Holmes ressurgiu das trevas. E agora, no filme de Guy Ritchie, a dúvida é saber se o Iron Man,
com a ajuda de Alfie, acabará com o Mr. Smith.

Eu, que tenho virado noites sem dormir, sem saber que estava imitando o grande detetive-consultor, fico aqui a pensar e deduzir, friamente, logicamente:
estou doente, preciso de ajuda, por favor, alguém chame logo o doctor House?
Elementar, meus caros leitores, elementar...

domingo, 16 de agosto de 2009

Álbum de família

Queridos e queridas,

- Olá, como vai, tudo bem?
O que você responderia?
- Oi, tudo bem, e tu? - creio que essa seria a resposta.
Mas...
Será que estamos bem, mesmo?

Será que temos o direito de responder ao outro "Não, não estou bem, na verdade não estou nada bem, porque minha filha me ignora, meu filho vai morar com a namorada, meu filho morreu e nunca mais vou vê-lo, meu emprego é uma merda, meu salário é uma merda, a vida é uma merda, eu sou uma merda, tu também é uma merda"
e outras respostas afins.
Podemos responder, "Sim, estou bem, estou muito bem, pra falar a verdade, nunca estive melhor em minha vida, apesar de minha filha me trocar pela madrasta, apesar de meu filho não morar mais comigo, apesar de meu filho estar em um outro plano sem dúvida melhor que este, apesar de todas as merdas unidas & reunidas, eu estou muito bem, obrigada. E você?"

Olho os porta-retratos, que eu colecionava. Olho para um gigantesco álbum de família que literalmente preguei na parede em minha casa, com fotografias minhas de infância, de minha família, de pessoas queridas que, umas se foram, outras, mesmo ficando, também se foram, e todas, ficando ou não, estão em minha memória, fazem parte de minha vida.

E no entanto, a vida de cada um é a vida de cada um. Uma das fotos que eu mais adoro olhar, e não é só porque estou bem jovem e magrinha naquela foto, mas é porque estou tão redondamente feliz, que não canso de olhar e reviver aquele instante, fugaz, quando estacionamos o carro perto do Rio das Antas para tirar uma foto, eu, meu filho mais velho, que tinha ali uns quatro aninhos, e minha filha que ainda era bebê, um grande e fofo bebê no meu colo.

Lembro de minhas amigas, das que tem filhos, e também das que não tem, mas que de alguma forma convergem seu instinto maternal para cãezinhos, periquitos, causas sociais.
Lembro que em cada fotografia dos álbuns de família os sorrisos escondem as lágrimas. Os abraços escondem os empurrões. As reuniões escondem as desuniões.

O único e verdadeiro amor incondicional é o que nutrimos por nossos filhos. O amor generoso, o amor bondoso, o amor desapegado, o amor de quem deseja sempre a felicidade. Acredito que esse amor possa acontecer também em outros campos da vida afetiva, entre irmãos, com parceiros, com amigos, com parentes.

Mas na vida interrompemos ou somos interrompidos nessas relações, eternas enquanto duram. Com um filho, não é a mesma coisa. Meu filho, não importa a idade que tenha, eu peço que se agasalhe para não pegar um resfriado. Eu choro com sua tristeza, eu sorrio com sua alegria, eu luto em sua luta, eu sou o começo, o fim e o meio, como disse Raul Seixas, de uma nova geração a qual somos ligados a vida inteira. Nas presenças e nas ausências.

Até nossos sonhos se transformam e se fundem nos sonhos de nossos filhos. Por exemplo, podemos adorar ópera e viajar pelo mundo. Mas o melhor programa do mundo passa a ser, por exemplo, as reuniões com os filhos, em casa,
nem que seja uma vez por ano, nem que seja no dia do aniversário.

O aposentado Matteo Scuro é fã ardoroso de ópera. Ele esperou em vão a reunião com os filhos em seu aniversário. Seus filhos foram todos batizados com nomes de cantores de ópera (Álvaro, Tosca, Giuliano, Norma). Scuro decide viajar pela Itália, visitar cada um de seus filhos. O que ele descobre, é que a verdade vai aparecendo quando ele e sua família decidem encarar a vida de frente, e não viver sobre uma mentira, abraçados sorridentes fazendo pose para um foto. Esta dolorosa viagem de descoberta acontece no filme Estamos todos bem (1989), dirigido por Giuseppe Tornatore. O sensacional ator Marcello Mastroianni interpreta Matteo, um homem que depois dos setenta anos se dá conta da mentira que construiu para si e para sua família, na expectativa de que todos estivessem bem, de que todos sempre estiveram e estariam bem.

Então, se é isso o que realmente queremos, para nós e para os outros, vamos fazer uma viagem como a de Matteo. Pelos nossos interiores, pelos corredores, pelos labirintos. Deixando os outros irem. Para que em algum dia, quando alguma foto saltar desse álbum da família e perguntar, como estás?, tu possas dizer, do fundo de teu peito e de tua alma,
que estás bem, que estás muito bem.
Fiquem bem!

sábado, 15 de agosto de 2009

Uma loira vencedora no tapete vermelho

Queridos e queridas,

Os cinéfilos adoram filmes e tudo o que diz respeito a filmes. Festivais, por exemplo. Esses são os momentos de encontro, exibição, apreciação pelos críticos e pelo público de filmes de vários gêneros, várias nacionalidades, vários profissionais, produtores, distribuidores e, é claro, muito marketing pessoal e glamour. O tal tapete vermelho.

Não precisamos de um tapete vermelho para vermos um filme bom. Mas um filme bom que passa pelo tapete vermelho ganha um outro status, um outro olhar. O tapete vermelho recebe solene e pomposamente as celebridades e as instantâneas celebridades, cultua o fascínio que as pessoas, os seres normais, tem pelos artistas, os seres de uma galáxia muito distante... Los Angeles, Hollywood, Projac...

Os verdadeiros cinéfilos sabem que há um limite até para adorar cinema. O bom senso. Uma coisa é respeitar tradições, incentivar iniciativas de divulgação dos filmes, confraternizar em momentos nos quais os que fazem cinema o ano inteiro podem se encontrar, trocar idéias e farpas... Outra coisa é continuar apostando em eventos que não passam de uma encenação, uma cópia mal feita de cerimônias norte-americanas, das quais o Oscar é o mais famoso, mundialmente conhecido pela chatice e pela reunião de galãs e desfiles de moda no tal tapete vermelho. Provinciano demais para quem almeja as estrelas.

O Festival de Gramado acontece no Rio Grande do Sul desde 1973. Ganhou reconhecimento internacional, tem trazido cineastas e artistas de vários países e de várias regiões do Brasil. Mas algo não vai nada bem neste festival, como prova a 37ª edição, terminada há instantes, e que não deixará saudade a ninguém. A cerimônia foi rápida, os ingressos custavam o olho da cara, ainda mais sabendo dos incentivos governamentais que este festival recebeu para a sua organização.

Cinema no Rio Grande do Sul continua sendo a reunião dos incluídos e a exclusão dos excluídos. Isso vale para quem quer aprender cinema, estudar, trabalhar, e participar de festivais. Tudo é raro e caro, tudo é difícil. Antes era o vendedor de enciclopédias batendo de porta em porta. Depois do Google, vemos cineastas inscrevendo projetos em editais, captando recursos, tentando convencer governos e empresas que investir em cinema é investir em arte, em cultura. E ainda, depois e juntamente com tudo isto, fazer filmes. Para depois chegar nos festivais? O que estamos querendo provar, afinal?

Critérios... Por exemplo, o que mais chamou a atenção nesta edição do Festival de Gramado? A premiação do documentário Corumbiara, de Vincent Carelli, sobre o massacre dos índios isolados na Gleba de Corumbiara, na Rondônia, ou o discurso da homenageada Xuxa, que declarou: Sou do povo, loira e vencedora. Vocês tem idéia do custo de produção para os organizadores do Festival trazerem a eterna rainha dos baixinhos para receber uma homenagem, tendo em vista seu brilhante e reluzente legado cinematográfico? Sua própria declaração resume bem o merecimento da homenagem.

Os festivais deveriam ser aprimorados com mais exibições, debates culturais, e especialmente, fazendo o público participar não como tietes em busca de autógrafos e fotos com artistas da hora, mas oportunizando-lhes momentos de conversa sobre cinema, sobre cineastas, sobre filmes bons, que poderiam talvez justificar a criação do maldito tapete vermelho.

Mas em festivais de turismo, o que menos importa é o cinema. Pena. Filmes de excelente qualidade foram lá exibidos.
Boa semana!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Melhor do que o amor

Queridos e queridas,

A chamada do filme avisa: Para mudar, é preciso dar o primeiro passo. Mas, mudar para que? Por quê? Para onde? Não seria melhor ficar parado? Assim, não se corre o risco de errar, cair, fraturar-se na vida. Mas daí a vida passa, passa, passa, ah, e como passa rápido.

O Kledir respondeu em uma dessas entrevistas do tipo "perfil", que tudo o que ele não quer é viver atrasado. Viver atrasado. Que declaração fenomenal. Se fosse eu, terminava ali a entrevista. Falou e disse.

Quando se lê uma linha, uma linha apenas, escrita por Martha Medeiros, já se percebe que na mais simples palavra, no mais tímido ponto ou vírgula, há um tema intenso, profundo, visceral. Martha Medeiros tem a dádiva de saber escrever, de transpirar nas letras os sentimentos humanos mais caros e profundos. Do diálogo mais pretensamente banal, da frase mais hipoteticamente desinteressada, às vezes é só uma palavra, "Repica!", e provém, com certeza, um turbilhão de emoções, de indagações sobre como nos vemos, como vemos os outros, como os outros nos vêem, e como a vida passa, e passa, e passa, enquanto fazemos coisas banais e coisas que tais.
Momentos. Casamos, cortamos o cabelo, temos filhos, dirigimos um carro, vamos trabalhar, nos masturbamos, olhamos um vestido na vitrine, descobrimos que fomos traídos, jantamos, dormimos, acordamos olhando para outra pessoa, traímos, vamos na sauna, nos separamos, repicamos o cabelo, novo corte é preciso, contamos tudo para nossos melhores amigos, e assim vamos tentando dar o primeiro passo, para mudar, ou pelo menos, mudamos, para tentar dar o primeiro passo. Como um bebê que engatinha. Como uma muleta que nos ajuda. Como uma bengala que não nos deixa cair. Como um analista, um divã, um outro que não nos julga, mas nos permite ser, conhecer, revolver a vida para resolver a vida.

Das linhas escritas por Martha Medeiros nasceu o livro Divã, que ganhou os palcos do teatro, que ganhou vida na interpretação da atriz que eu adoro, Lilia Cabral, que como Mercedes faz um strip tease de sua vida, do casamento à separação, da separação à busca do autoconhecimento. A peça transformou-se em filme (2009), sob a direção de José Alvarenga Jr., que consegue mostrar toda a carga dramática e toda a veia cômica na trajetória de passos e tombos de uma mulher de 40 anos que decide não viver atrasada.
Mercedes sofre, Mercedes me faz lembrar do personagem Lester Burham, interpretado por Kevin Spacey em Beleza Americana. Fuma maconha, tem um caso com um homem lindo e galinha, depois tem uma experiência com um franguinho lindo, sem nunca ter deixado de amar seu marido, e depois ex-marido. O amor não acabou, mas o casamento sim. O vestido Armani mudou de armário e de dona. Então, Mercedes busca nos jogos de sedução fugir de sua própria solidão. O que, óbvio, é impossível. Quando ela, ao olhar para o terapeuta, encontra a si mesma, declara: acabou. E o que acabou, foi melhor do que o amor.

Eu teria acabado o filme ali. E deixado a sala chorando. Mercedes e sua amiga Monica são fortes, são frágeis, são mulheres. Querem, cada uma de seu jeito, ser felizes. Parece que isso é querer pedir demais. Só tem um jeito: dar o primeiro passo.
Para Mercedes, Monica e Martha, mulheres de coragem.
Bom fim de semana!

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Jigme

Queridos e queridas,

No dia 26 de março de 2008, Dhondup Wangchen, 34 anos, foi preso. Conseguiu fugir três meses depois, e voltou a ser detido. Foi torturado, maltratado. Continua sendo torturado, sofrendo maus tratos. Sofre de Hepatite B, e não recebe tratamento. Seus familiares não tem contato com ele, nem tampouco receberam notificação oficial, sob a alegação de ser "segredo de Estado". A família contratou dois advogados, que foram retirados do caso, pouco tempo depois.

O crime: Dhondup Wangchen é cineasta. Acusado de praticar jornalismo ilegal, de incitar a subversão do poder do Estado, de incitar o separatismo em Xining, capital da província de Qinghai, no oeste da China.

A motivação do crime? O direito à liberdade de expressão. Dhondup Wangchen realizou um documentário no qual os tibetanos tem voz. Eles, deixando o medo para trás, falam sobre as agruras, todo o tipo de sofrimento aos quais são submetidos pelo governo chinês, que não reconhece a cultura tibetana. Não somente não reconhece, como a massacra, passa o rolo compressor do autoritarismo, da censura, da total violação aos direitos humanos do povo tibetano. Povo que está se desintegrando, por assim dizer, a cada dia, tendo em vista o aparato policial de controle sobre o ar que respiram. Mas que não teme em deixar o medo para trás em cada oportunidade que tem, em cada janela que se abre, para falarem, para mostrarem ao mundo os abusos aos quais vem sendo submetidos. O cineasta e preso político Dhondup Wangchen reúne no documentário intitulado Jidgrel (Leaving Fear Behind) entrevistas que mostram as principais lutas deste povo que agoniza sob a ocupação chinesa. Juntamente com dois primos, o cineasta viajou munido de três perguntas na bagagem: como os tibetanos se sentem em relação ao Dalai Lama, à China, e aos Jogos Olímpicos em Pequim.

O crime estava consumado: vieram as respostas, as imagens, o filme. Que foi contrabandeado para fora do Tibete m 2008.

O jovem cineasta teve a coragem, a ousadia e a honestidade com sua própria consciência ao filmar o que realmente acontece no Tibete. Ele sabia muito bem o que esse filme lhe acarretaria. Talvez, ou exatamente por isso, seu apelido nas filmagens é Jigme, significa sem medo.

Ainda que não haja quase advogados de direitos humanos na China (vários perderam suas licenças, outros ainda não as tem...), apesar de o governo chinês propalar uma imagem oficial de estar preservando a linguagem e a cultura tibetana, Jigme continuou, até terminar o filme, até divulgar o filme para o mundo.

Agora, não podemos mais fazer de conta que essa situação não existe. Não podemos mais ignorar o sofrimento, a luta e a bravura do povo tibetano. Jigme.

Se por um lado o governo chinês está se saindo muito bem no gênero ficção, beirando o fantástico, recheado de efeitos de montagem como os que assistimos nos Jogos Olímpicos, o documentário nu e cru de Jigme mostra que enquanto houver coragem, haverá esperança.

Peço-lhes que apóiem Jigme, seus familiares, para que ele não seja um desaparecido ou um suicida fabricado por um sistema opressor. Assinem a petição neste link, enviem para amigos, se mobilizem pela liberdade de expressão na arte cinematográfica, pelo direito à liberdade, à vida, à justiça:

Thank you for taking the time to send an email to Qinghai's Party Secretary, asking for the release of Tibetan film-maker. Please forward this action link - https://webmail.ufrgs.br/services/go.php?url=http%3A%2F%2Forg2.democracyinaction.org%2Fo%2F5380%2Ft%2F4574%2Fp%2Fdia%2Faction%2Fpublic%2F%3Faction_KEY%3D1009 - to any friends or family whom you think would also like to help in this campaign, and remember to visit https://webmail.ufrgs.br/services/go.php?url=http%3A%2F%2Fwww.tibetnetwork.org for updates.Thank you!The International Tibet Support Network team
Jigme!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Para além da sala de aula

Queridos e queridas,

Anotem bem o dia de hoje: 12 de agosto de 2009. Porque foi nesse dia que aconteceu a primeira reunião sobre um projeto completamente novo, pioneiro, inédito no Rio Grande do Sul e, por que não?, no Brasil. Falo do Projeto Itinerante de Capacitação para Defensores e Defensoras em Direitos Humanos do Rio Grande do Sul.

Esta iniciativa é da Liga dos Direitos Humanos, a qual coordeno desde sua criação, em 2007. O projeto foi inscrito juntamente com mais 700 de todas as regiões do Brasil, e foi selecionado pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos. De hoje até junho de 2010, estamos nós, parceiros da Liga dos Direitos Humanos, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do RS, do Comitê de Educação em Direitos Humanos do RS, do Conselho de Rádios Comunitárias do RS, da Faculdade de Educação da UFRGS, do Instituto Recriar, e de vários outros parceiros e apoiadores desta iniciativa, a construir uma programação que tem como objetivo principal, simplesmente, esse: dar a voz aos excluídos.

Registrar suas demandas, verificar in loco as principais violações que são cometidas contra os direitos humanos fundamentais, as discriminações, a violência urbana e institucional. Precisamos realmente e urgentemente unir nossas trajetórias e vivências como defensores de direitos humanos, em uma práxis pedagógica, da criação de uma cultura de promoção e difusão dos direitos humanos no solo gaúcho, de modo a orientar as comunidades em situação de vulnerabilidade social a lutar por seus direitos, mediante a efetivação de políticas públicas, mediante o reconhecimento da titularidade de direitos civis e sociais.

A liga a que nos referimos é essa união de pessoas, cada um colaborando na sua área de atuação: são educadores, artistas, jornalistas, advogados, promotores, procuradores, assistentes sociais, cineastas, acadêmicos, especialistas em direitos humanos.
São pessoas que sabem que precisamos fazer alguma coisa, além de tudo o que já fazemos. Não delegar a responsabilidade a outrem, mas ao que podemos, e sempre podemos, fazer pelo próximo.

Como no filme Escritores da Liberdade (2007). Baseado no livro O Diário dos Escritores da Liberdade, o filme dirigido por Richard LaGravenese apresenta a história da professora Erin Grunwell (na visceral interpretação de Hilary Swank). Ela vai dar aula em uma escola marcada pela violência e discriminação racial, em uma escola que praticamente desistiu de educar, de encarar a realidade e mudar a situação. A professora Erin não se intimida. Dedica seus dias, sua vida, à causa dos jovens tidos como indomáveis, insuportáveis, irrecuperáveis. A educadora sabe que a sala de aula pode e deve fazer a diferença na vida de todos que nela entram. Ao dar a voz aos indomáveis, aos irrecuperáveis, aos insuportáveis, Erin descobre a força de sua própria voz, aquela que não cala diante do sistema opressor, do sistema corrupto, do sistema.

As vozes interiores brotam, e com elas, a descoberta do poder de lutar e de melhorar a vida no gueto, na vila, na rua, na cidade, no mundo.
Como o professor Luiz Carlos Bombassaro falou, hoje, na reunião: a necessidade de ir para além da sala de aula. Eis aqui o caminho itinerante. Para que, indo além da sala de aula, possamos entrar no âmago dela, redescobri-la como um espaço fundamental na construção de uma cultura de direitos humanos. E todos, absolutamente todos, estão convidados a fazer parte desse caminho.
Bom dia!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O homem, ordinário e extraordinário

Queridos e queridas,

Minha dica para o próximo sábado - ao contrário do que vocês estão a imaginar - não é ir no cinema ou na locadora de vídeo mais próxima de sua casa. É ir e conferir o lançamento da primeira coletânea de cartas escritas por Dostoiévski, nos anos de 1838 a 1880, que pela primeira vez são traduzidas para a língua portuguesa. O lançamento de "Dostoiévski - Correspondências" acontecerá no dia 15 de agosto, no Auditório da Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country, a partir das sete da noite.

E aí sim, com o livro na mão, e um dvd na outra, a dica seguinte é ir para casa e assistir filmes como Match Point (2005) ou O Sonho de Cassandra (2007). Ambos de Woody Allen, e ambos com referências explícitas à obra do célebre autor russo, que entrou para a história da literatura com obras como O Idiota, Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov. Seu primeiro romance, Gente Pobre, já anunciava que estava nascendo um escritor profundo, cujas obras seguintes foram todas escritas a partir de questionamentos existenciais, diálogos de grande eloquência e encenação de profundos dramas psicológicos.

As cartas de Dostoiévski revelam a sua exímia arte de escrever, mostram as dificuldades por ele muitas vezes enfrentadas no desenvolvimento de seu processo criativo, os seus pensamentos sobre o fazer literário, seus medos, suas angústias. Os livros de Dostoiévski revelaram um dos maiores escritores da literatura mundial, e um dos mais profundos pensadores de temas que o cinema veio mostrar, com referenciais especialmente abordados na obra de Woody Allen.
Crime e Castigo é considerado por muitos como a obra maior de Dostoiévski.
Neste livro ele mostra o conflito que se estabelece entre a razão e a moral, os sentimentos como o sofrimento, a culpa, o arrependimento.
Esses elementos se transformam, no olhar cinematográfico de Allen, em filmes como Match Point e O Sonho de Cassandra. As dúvidas, as dívidas, os interesses, as escolhas racionais, as escolhas não-racionais, o preço a pagar pelas escolhas, o preço a pagar por ser honesto, ético.
Ou por não ser.

Em Match Point, o personagem aparece lendo uma obra de Dostoiévski. Mas ao fechar o livro, o que faz? Usa de sua razão para escolher conforme suas conveniências, seus interesses imediatos e materiais. Porém, sua desrazão o leva a se apaixonar por uma outra mulher, com quem estabelece uma relação de desejo, incompatível com os interesses que mantem seu casamento com uma mulher tão querida quanto rica. Dos dilemas morais permanece a razão incrivelmente fria do personagem, que esconde sua culpa em nome de algo mais altruísta, digamos assim: seu status, seus interesses materiais.
Em O Sonho de Cassandra, não somente Crime e Castigo, como as obras Os Irmãos Karamazov e O Jogador são também referenciais para Woody Allen desenvolver essa trama que igualmente envolve irmãos movidos pela culpa, pelos interesses, pelos tormentos. São irmãos, de famíila humilde, que para pretensamente se livrarem de seus problemas financeiros, cometem um crime. Seus problemas estariam então apenas começando...

A autobiografia de Dostoiévski está explícita em muitas dessas obras levadas ao cinema. Pobre, endividado, deprimido. Angustiado pela obsessão de se tornar alguém melhor, e pela obsessão de não ser o que não se é. Os personagens do grande romancista social Dostoiévski são irremediavelmente divididos, são o homem ordinário e o homem extraordinário.
Múltiplos de si mesmo.
Bom dia!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A morte não cansa

Queridos e queridas,

O professor Jorge Ribeiro coordena o Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS. Ele, o professor Johannes Doll, diretor e a professora Denise Comerlato, vice-diretora da Faculdade de Educação, reuniram-se há poucos dias para trocar idéias sobre a organização de uma homenagem ao querido professor Nilton Bueno Fischer, recentemente
e abruptamente falecido.
Como sempre a morte é, abrupta. Não importa que seja fruto de um ataque cardíaco fulminante, de um acidente inesperado, ou de uma longa doença. Nunca se aceita o fim. É o corte entre dois pontos. É não cruzar mais a ponte para o outro lado. É não ser mais visto, ouvido e tocado por aqueles a quem cativou.

No entanto, pessoas morrem todos os dias. Em todos os cantos do planeta. De todas as formas. Em todos os tempos. E nem assim, nos acostumamos. Não nos acostumamos com a saudade, com a ausência. Não nos acostumamos em nos defrontar com a nossa própria mortalidade, nossa impotência, nossa finitude.

Se existe alguma finalidade nesta passagem, imagino que seja criarmos laços de amor. Amor que se expressa nas formas de carinho, amizade, afeto, solidariedade. De sermos prestativos, generosos, de ajudarmos quem precisa, de fazermos algo de bom.

Mas a morte não cansa. Abrupto. Um mal estar. Há algumas horas, ela estava viva, há poucos dias a vi no elevador, há menos de um ano, gravei uma entrevista com ela, por ser uma das mais antigas e dedicadas e queridas funcionárias da Faced, secretária do Programa de Pós-graduação em Educação. Mary Ignez Pires, todos a conhecem como Mary. Mary foi hoje, abruptamente, porque seu coração parou de bater. E os corações de seus amigos, colegas passaram a bater mais rápido, com emoção, com comoção, com incredulidade.

A incredulidade que o cineasta Fritz Lang retratou em sua primeira obra-prima, A morte cansada (1921). A morte chega num vilarejo perdido no tempo e compra um terreno ao lado do cemitério local, onde constrói um gigantesco muro ao redor dele. A morte segue um jovem casal em lua-de-mel, e resolve levar o rapaz para um passeio. A garota vai à sua procura, até chegar ao cemitério, onde vê uma manada de almas adentrando o muro, sendo ele um dos mortos. Desesperada, ela vai buscar conforto na casa de um velho alquimista que lhe oferece ajuda. Lá, ela lê uma passagem na Bíblia que dizia que "o amor é mais forte que a morte", e resolve se suicidar para se encontrar com a morte e pedir a vida do marido de volta. No escritório da Morte tem uma sala cheia de velas, onde cada vela é uma vida. Nesta obra expressionista, a questão é saber se nesse duelo entre a morte e a vida há como se mudar o destino.

O amor é mais forte que a morte. E mesmo se a morte não cansa, o amor, sendo mais incansável ainda, por mais triste, por mais doloroso e abalado que esteja, resiste, posto que é sincero, e sendo eterno, é forte.
Saudades de ti, Mary.

domingo, 9 de agosto de 2009

Banho de chuva

Queridos e queridas,

A chuva torrencial neste inverno torrencial em Porto Alegre me inquieta. Olho pela janela, e não me atrevo a sair de casa. Escuto música, Radiohead e Lenine. Um café e depois um chá. Outro café e outro chá. Continua chovendo. Thom Yorke e Lenine estão quase afônicos. Então eu ameaço sair, encarar a chuva, fazer alguma coisa que não seja trabalhar.
Mas fazer o que?

Tomar um banho de chuva.

Já fiz isso quando criança, e é algo lúdico, inesquecível. Já sonhei em fazer isso quando jovem, estupidamente romântica, em um encontro amoroso tendo os corpos ardentes molhados pela chuva...

E agora, faria isso para desafiar São Pedro. Insanidade ou ousadia? Talvez as duas coisas. Uns dançam para pedir chuva. Eu pensei em dançar para celebrar a chuva, para transformar um dia de tédio em um dia de graça. Mas daí fiquei sem graça. Lembrei que minha idéia fenomenal já tinha sido usada - e como! - no longínquo ano de 1952. Em uma das cenas mais lindas do cinema, de um dos filmes mais famosos do cinema, um dos grandes clássicos entre os musicais já produzidos em Hollywood. Cantando na chuva.

O filme, indicado ao Oscar, é protagonizado por Gene Kelly, Donald O'Connor e Debbie Reynolds, sob a direção do próprio Gene Kelly e Stanley Donen. Na história, o cinema falado passa a substituir o cinema mudo, e os artistas precisam se adaptar a essas transformações. Algumas curiosidades desta produção referem-se ao roteiro, feito após as canções que compõem o filme terem sido definidas, e à sequência de gravação da épica cena de Gene Kelly cantando e dançando na chuva, chuva esta composta por água e leite, e totalmente gravada em estúdio.

Uns adoram musicais, outros detestam. Há ainda os indiferentes. Mas Cantando na Chuva agrada a gregos e troianos. Quem ousa desdenhar da eternidade do momento desta dança? Gene Kelly estava em transe. Alegre, ele canta, e dança, e canta, e dança. E seu canto e sua dança formam um grande sorriso, um sorriso que brota de todo o seu rosto, de todo o seu corpo.

Olho pela janela para a chuva torrencial, e fico a imaginar que na casa vizinha Gene Kelly acaba de se despedir de sua amada, com um beeeeeiiiiijjjoooo. A porta se fecha, e ele parte, cantando, dançando, agradecendo aos deuses pela eternidade do momento ao qual só se atribui um único nome, o mesmo em todas as línguas, religiões e culturas: felicidade.

As gotas de felicidade caem, torrencialmente. Ele as recebe com os pés nas poças d'água, ele as sente no rosto, ele as sente sob suas roupas. Gotas, torrenciais, de felicidade.
Adivinhem o que Thom Yorke, Lenine e eu queremos fazer agora?
Boa semana!

Singing in the rain (Gene Kelly)

I'm singing in the rainJust singin' in the rainWhat a glorious feelingI'm happy againI'm laughing at cloudsSo dark up aboveThe sun's in my heartAnd I'm ready for loveLet the stormy clouds chaseEveryone from the placeCome on with the rainI have a smile on my faceI walk down the laneWith a happy refrainJust Singin', singin' in the rainDancing in the rainI'm happy againI'm singin' and dancin' in the rainI'm dancin' and singin' in the rain