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escrevo a dor e o prazer de viver vivo para escapar da morte morro e acordo cada vez mais forte

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

CineDHebatendo direitos humanos

Queridos e queridas,

Cinema e direitos humanos é um dos temas que mais trato neste blog. Porque são estes os ponteiros de meu relógio biológico, cinema e direitos humanos. Por esta razão, desde a criação da Liga dos Direitos Humanos, que eu fundei e coordeno desde 2007, existe uma ação denominada CineDHebate, um ciclo de exibição de filmes com debates sobre o tema abordado em cada sessão. Apesar de eu ter tentáculos para dar conta de uma vida atribulada, eles não são mais suficientes. A Liga cresceu - e que ótimo que cresceu! Eu vejo a Liga como uma criança que está adolescendo, um projeto que começa a espraiar seus horizontes interdisciplinares e transdisciplinares.

Regionais e transnacionais. É o programa de rádio, a produção de documentários, a divulgação de notícias e eventos, a organização de aulas abertas, fórum anual, e de um novo projeto sobre o qual falarei em breve. E o cinema, desde o começo, sempre cumprindo uma função que também é muito importante e digna na educação em direitos humanos: a exibição de curtas, documentários e longas de ficção que despertam nos espectadores uma visão própria, uma consciência crítica e reflexiva. É um grande momento de debate, de trocas, de compartilhar pensamentos, opiniões, posições. De questionar, de discutir pontos e contrapontos. Aprende-se muito em uma sala de cinema.
Daí a origem e a existência do CineDHebate da Liga dos Direitos Humanos.

No ano passado, a Gárdia, querida amiga e colega da Liga, coordenou a seleção dos fimes e a organização dos debates. Lembro que a seleção priorizou curtas-metragens e documentários nacionais, muitos com temas bem regionais e todos sempre muito polêmicos. Temas como aborto, sistema prisional, prostituição, foram alguns dos pontos de debate nos filmes escolhidos. Neste ano, a querida amiga Dagmar Camargo, companheira da Liga, além de ter uma intensa e extensa militância em direitos humanos (como coordenadora da CONRAD, coordenadora de projetos da DIST e da área de Comunicação no Comitê de Educação em Direitos Humanos do Rio Grande do Sul), assumiu a coordenação do CineDHebate, em uma parceria da Liga com a DIST - Democracia, Inclusão Social e Trabalho.

Eu admiro demais a Dagmar. Desde os tempos em que nos conhecemos, como colegas na Primeira Turma do Curso de Especialização em Direitos Humanos da UFRGS e Escola Superior do Ministério Público da União. A Dagmar sempre sentou na frente, primeira fila, e uma das que mais participava nas aulas, com perguntas, com sugestões, com críticas, com contribuições. E sempre agitando bandeiras, viajando por este e por outros Pampas, socializando notícias, ações, campanhas, manifestações. O tempo para a Dagmar certamente não tem apenas24 horas.
E nem ela tem tentáculos.
Ela os produz e reproduz, com uma vitalidade e um espírito de luta admiráveis.

O CineDHebate 2009 tem a cara da Dagmar. São filmes impecáveis, escolhidos pelos temas efervescentes, em questões globais como o meio ambiente, a crise financeira, os poderes das grandes corporações, a privatização do Rio São Francisco, os desafios na educação em um ambiente de violência e exclusão social, and so on.

Na próxima semana, o CineDHebate, que sempre acontece às sete da noite na Sala Redenção da UFRGS, com entrada franca, exibirá o filme Escritores da Liberdade. e na sequência, debate com a participação de Mariliane Ferreira dos Santos, diretora do CPERS/RS, e Ana Maria Bueno Accorsi, professora da UERGS, e que desenvolveu trabalho sobre o livro Escritores da Liberdade ainda não traduzido para o português. Escritores da Liberdade é uma co-produção alemã e norte-americana de 2007. Com direção de Richard LaGravanese, a obra é uma adaptação da história real da professora Erin Grunwell, uma professora novata que tenta inspirar seus alunos problemáticos a aprender algo sobre tolerância, autoestima, e valorização dos sonhos.
O filme aborda de uma forma comovente o desafio da educação
em um contexto social problemático e violento.

E no dia 25 de novembro, é a vez do filme A Questão Humana. Após a exibição, debate com o psicólogo Fernando Lunkes, diretor de comunicação do Sindicato dos Psicólogos do Rio Grande do Sul. O filme é uma produção francesa de 2007 baseada no romance homônimo de François Emmanuel. A obra dirigida por Nicolas Klotz, completa a trilogia sobre a crise econômica francesa, composta também pelos filmes A Pátria, e A Ferida.

Em A Questão Humana, o psicólogo da filial francesa de uma petroquímica alemã investiga, a pedido do vice-presidente da corporação, a vida do presidente, que é suspeito de insanidade mental. Este é um filme de investigação, no qual o próprio investigador - o psicólogo - passa a sofrer uma profunda transformação. Há no filme uma linha que aproxima o modelo empresarial contemporâneo ao Holocausto.
Reestruturação, reengenharia, realinhamento, eis alguns termos cuja linguagem asséptica e tecnocrática designa uma manipulação de pessoas em
um sistema no qual o que menos importa são as pessoas.

O filme acende uma polêmica ao fazer essa comparação. Ela é possível e plausível? O protagonista-psicólogo-narrador é um homem que ao investigar, sofre com o que descobre. Sua integridade é testada o tempo todo, bem como a sua própria sanidade mental.
Talvez sua insanidade seja a prova de que finalmente ele descobriu o que buscava.
Boa noite!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Lava-pés, os poetas e os idiotas


Queridos e queridas,

Até o post de hoje, eu não havia lhes falado sobre quando comecei a realizar vídeos: roteiro, produção, direção... O interesse pelo cinema existe, por certo, desde quando eu era um fetinho. Meu nascimento foi algo cinematográfico. Com direito a tudo o que eu não tinha direito: muitas dores em minha mãe, muita correria entre os médicos, por conta de problemas detectados imediatamente após o meu primeiro suspiro. Eu fui a filha que mais demorou para nascer e que menos demorou para começar a incomodar... Tudo me incomodava: a poluição que me provocou a bronquite; a curiosidade, que me levava a cometer atos insanos, como abrir um sofá para ver o que tinha por dentro, ou beber um copo com gema de ovo achando que era bebida de adulto... A falta de confiança em mim mesma, que me levou a escrever uma "cola" de Geografia no estojo de madeira; tirei nota máxima, pois ao preparar a tal "cola", memorizei a matéria. Só que isso não "colou" quando a professora viu meu estojo aberto... Meus pais foram chamados à escola. E eu aprendi a lição: se eu gosto tanto de drama e de ação, eu deveria escrever mais sobre isso.
Seria menos perigoso para mim e para os outros.

Nas redações da escola era só nota dez e dez e dez. Nas redações da vida, como poemas de amor, diário com anotações de uma adolescente existencialista, era só zero e zero e zero. Eu lia muito, de histórias em quadrinhos a clássicos de filosofia que eu pegava na estante de livros de meu pai. De fotonovelas italianas de minha mãe a obras de Machado de Assis. Escrever era já uma necessidade, uma extensão de meu braço, de minha mão canhota e de meu cérebro. Mas não era suficiente. Minha imaginação precisava das imagens que o texto sugeria, mas não mostrava.

Somente quando já adulta, e tendo escrito um livro de poemas, além de vários contos engavetados, e alguns roteiros bem guardados, resolvi cometer mais um ato insano. Desta vez, não abri outro sofá, nem bebi água da privada... Fui fazer um vídeo. Queria fazer um documentário em um minuto, um minuto e meio no máximo. Queria fazer algo útil, algo com sentido, algo que expressasse muito mais pelo visto, pelas imagens, que eu não precisasse escrever uma tese. Que todos vissem e entendessem. Eu perdi um sobrinho lindo e querido, com apenas 15 anos, assassinado por engano. Minha melhor amigairmã Valéria havia perdido seu filho Rodrigo em um assassinato igualmente brutal - como de fato são sempre todos os crimes.
Eu escrevi o roteiro de Lava-pés, reuni amigos para produzir esse vídeo, feito de forma totalmente independente e alternativa. Uma câmera na mão, figurantes voluntários, alguns objetos de cena emprestados, e depois um baita profissional para fazer a montagem. A música, Amigo Punk, a preferida de Rodrigo, com a autorização de uso no vídeo gentilmente cedida pelos seus autores, Marcelo Birck e Frank Jorge. O vídeo foi feito, e já foi visto por várias pessoas. Em todos os locais onde foi exibido, suscitou debate, reflexão, e principalmente, o choque que todos tem ao perceber que a juventude é vítima da violência, quando a comete e quando dela é presa. Jovens matam, se matam e são mortos. Corriqueiramente. Suicídios. Execuções. Latrocínios. Muitas mães choram a perda de seus filhos.
Quando eles morrem. E quando, diante da Justiça, de um tribunal, com juiz, promotor e defensor, o réu é absolvido. Provas insuficientes? Discurso da defensoria falacioso? Júri preconceituoso? (afinal, jovens com piercings e tatuados não podem ser "boa coisa"...)
O assassino de Rodrigo foi absolvido. Dentro dos trâmites da lei, não da Justiça. Valéria sentiu a perda de seu filho mais uma vez. Enquanto alguns lavam as mãos, ela usou as suas para enxugar sua dor. Entrar com recurso? Deixar para a chamada Justiça Divina?
Conformar-se ou indignar-se? O que dizer para as mães que perdem seus filhos?

Eu apenas abraço. E através desse vídeo, o mais curto, o mais impactante, o mais importante que já fiz, procurei mostrar que podemos escrever e produzir vídeos que de alguma forma ajudem as pessoas a olhar um palmo diante do nariz, a ver o óbvio. Como aquele provérbio chinês, segundo o qual o poeta aponta a lua enquanto o idiota olha para o dedo.

Valéria. Eu fui acusada pela professora de Geografia de ter colado, e eu não tinha. Meus pais foram à escola. Depois que eu falei para eles o que aconteceu, eles me abraçaram. E acreditaram em mim. Sinta-se abraçada por todos os que te amam e compartilham de tua luta e de tua dor. E que acreditam que a Justiça existe, apesar dos idiotas que continuam a olhar para o dedo...
Beijo no coração.

video

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O sol no quadro

Queridos e queridas,

O diretor franco-polonês Roman Polanski está vendo o sol nascer quadrado. Ele foi preso na Suíça, logo ao desembarcar naquele país onde iria receber uma homenagem pelo conjunto de sua obra, no Festival de Cinema de Zurique. O motivo da detenção, é a acusação que o diretor sofre por parte dos Estados Unidos, de ter tido relações sexuais com uma menina que em 1977 tinha 13 anos. Os EUA querem a extradição de Polanski. E Polanski, hoje com 76 anos, está determinado a se defender. Apesar de ser um mandado de prisão internacional, fica evidente a armadilha feita ao veterano e controverso cineasta, que inclusive não foi receber seu Oscar de Melhor Diretor em 2002, pelo filme O Pianista, por não poder pisar em solo americano. A Promotoria de Los Angeles vai enviar o pedido de extradição às autoridades diplomáticas, do governo e da Justiça para reaver o passe de Polanski. Coisa de cinema?

Para muitos amigos de Polanski, essa atitude soa como uma armadilha policial, ou ainda, nas palavras de Andrzej Wajda, uma ameaça de linchamento judicial. Uma petição foi assinada por vários artistas e cineastas, como Costa-Gavras, Wong Kar-Wai, Walter Salles, Ettore Scola, Giuseppe Tornatore, Monica Bellucci, Fanny Ardant, Pierre Jolivet, Bertrand Tavernier, entre outros. Para a Associação de Roteiristas e Diretores de Cinema da Suiça, esse país pode sofrer um grande abalo, se for conivente com essa armação, por eles chamada de escândalo jurídico.

Embora a Justiça Americana alegue agir dentro da legalidade do que prevê um tratado internacional, o que mais causa estranheza é que o motivo - a adolescente de 13 anos com quem o cineasta teve uma relação há mais de trinta anos - pediu o fim do caso.
Cinema e direitos humanos, direitos humanos no cinema. Enquanto os próximos dias revelarão uma quebra de braço entre os operadores da Justiça americana e os defensores de Polanski, uma coisa fica certa, clara e transparente: uma história mal resolvida é como um filme que parou de ser rodado, ficou incompleto, para decepção daquele que o criou. O filme pode ficar lá em um canto, uma fita, um HD. Pode ficar ignorado, mas não esquecido. O que foi feito, foi feito.

Uma história mal resolvida é algo que pode até dar um certo ar de complexidade, de dramaticidade a quem a vive, como é o caso de Polanski. Mas é algo que lhe tira a paz de espírito, que transforma sua vida em algo controverso. O genial diretor de filmes como Armadilha do Destino (1966), Dança com Vampiros (1967), O bebê de Rosemary (1968), Chinatown (1974), O Inquilino (1976), e o oscarizado O Pianista (2002) é autor de mais de 40 longa-metragens. Ator, produtor e diretor, imprimiu sua marca autoral que o transformou em um dos mais respeitáveis nomes do cinema, e igualmente uma história de vida das mais atribuladas. Eu particulamente acho genial o filme Repulsa ao Sexo (1965), no qual Catherine Deneuve, a maravilhosa atriz de A Bela da Tarde, já realizava nesse filme a interpretação magistral de uma louca assassina, em um filme de terror com uma profundidade psicológica que nos remete aos maravilhosos filmes de Alfred Hitchcock.
Roman Polanski, como seus filmes, e esse em particular, é um homem que pode causar repulsa, por ele ser quem é e como é. Perturbador, como seus filmes.
Boa noite!

domingo, 27 de setembro de 2009

Quem faz os filmes?

Queridos e queridas,

Eu falei ontem em chuva torrencial. Quem não é daqui de Porto Alegre, não faz idéia do quanto aqui choveu neste fim de semana. Há poucos instantes, a chuva parou. E não voltou. Deve ter algo errado. Porque este domingo foi avassaladoramente molhado, úmido, chuvoso. Fiquei ilhada dentro de casa, imaginando como seria esta situação durante uma semana, um mês, o ano inteiro assim. Chovendo sem parar. Pensei em começar a escrever uma história assim. Uma mulher que não sabe nadar fica presa em sua própria casa, devido a uma inundação.

Vislumbro essa história em um livro. Um conto, por exemplo. Vislumbro também esse argumento como origem de um filme. Um curta-metragem. Consigo visualizar todos os elementos. A protagonista - mulher que não sabe nadar, as locações, os objetos de cena, as sequências com a chuva reinante na história inteira. A questão que aqui se impõe é uma frase do célebre Stanley Kubrick: "Livro é livro, filme é filme". Afinal, a chuva no livro pode ser uma metáfora. Não é uma chuva real. É uma chuva de problemas, de dúvidas, de interrogações, de dilemas, que geram uma inundação interior na personagem, que não sabe nadar, ou seja, que não sabe como resolver essa situação. No livro, o escritor pode usar de todos os artifícios literários para explorar essas nuances, as subjetividades e as entrelinhas. No filme, a linguagem é outra. Será possível dar o mesmo tratamento que no livro? E é necessário e desejável que seja assim?

A liberdade de criação na narrativa literária e na narrativa fílmica é um dos assuntos que mais me fascina quando falo sobre cinema e literatura. Para mim, que escrevo, são almas gêmeas, caras metades. Cada qual, porém, com sua identidade e limitações próprias. No livro, tudo é possível. No cinema, não. A imaginação, a criatividade que o escritor coloca no texto, não pode ser sempre explícita em um roteiro cinematográfico. E nem deve ser. O trabalho autoral transforma-se em um trabalho de equipe, sob as vistas de uma direção que apontará os rumos da obra. Adaptação, é verdade, mas que poderá ser mais ou menos fiel ao original. São outras cabeças pensantes sobre um pensamento original. Alguns exemplos:

Scott Fitzgerald escreveu o conto O Curioso Caso de Benjamin Button, e o romance O grande Gatsby, ambos levados às telas do cinema. Henry James, um dos maiores nomes da literatura americana, escreveu os romances A volta do parafuso, que resultou no filme Os inocentes, e As asas da pomba, que originou o filme As asas do amor. Martin Scorsese dirigiu em 1993 o filme A idade da inocência, a partir da obra de autoria de Edith Warthon. Stanley Kubrick adorava a aproximação e a cumplicidade entre a literatura e o cinema. Exemplo dessa relação: 2001 - Uma odisséia no espaço, cujo argumento criado por ele e pelo escritordArthur Clarke originaram o conto O sentinela. Já o escritor Ernest Hemingway é o maior exemplo de um autor cuja obra já nasceu para ser filmada: O sol tabém se levanta, e Por quem os sinos dobram são exemplos disso.

Como afirmou o genial escritor Gore Vidal, autor de 24 roteiros de filmes, como Ben Hur: o roteirista é o verdadeiro gênio insubstituível por trás de um filme. Para ele, os diretores de cinema tem o apuro técnico, mas quando se trata de adaptações de obras literárias, o roteirista é indispensável para transpor para a telona a essência dos caminhos que uma obra literária mostra ou sugere.
A chuva parou. O que a mulher vai fazer? Mãos à obra. Um novo texto, quiçá um novo filme.
Boa semana!

sábado, 26 de setembro de 2009

A derradeira luta do samurai

Queridos e queridas,

Choveu de repente hoje à noite, aqui em Porto Alegre. Bem, não tão de repente, se levarmos em conta o quanto este inverno primaveril, ou esta primavera invernal estão sendo temperamentais. Esquenta, esfria, esquenta, esfria. Faz sol, cai chuva. Sob inspiração desta chuva torrencial, escolhi o filme de hoje: Depois da chuva.

Já falei Cantando na Chuva, e já falei de Antes da Chuva. Cada um e cada qual, em seu estilo, são filmes fenomenais. O mesmo digo em relação a Depois da Chuva, esta multipremiada produção de 1999, que tem o roteiro do grande mestre Akira Kurosawa e direção de seu assistente e discípulo, Takashi Koizumi. A história é baseada em um conto de Shugoro Yamamoto, sobre um samurai, o Japão medieval, e o desapego. Sim, esses são os três pontos principais que fazem deste um belíssimo e comovente filme, que só foi levado às telas um ano após a morte do grande cineasta Kurosawa.

O roteiro escrito por Kurosawa, um dos últimos antes de sua morte, apresenta a história de Misawa, um samurai sem emprego que fica com sua mulher em uma hospedaria por causa de uma chuva torrencial que se transforma em uma enchente. O samurai passa a lutar, em troca de dinheiro e em busca de alimento para os que lá estão hospedados. Sua ação passa a causar desconfiança em sua mulher, com relação aos reais interesses do samurai.

Embora trate da história de um samurai, esta não é uma história de artes marciais, tão comum em filmes japoneses. É uma obra sobre a necessidade, a importância e o valor do desapego, e também sobre as mudanças que ocorrem em uma cultura, com menos valores, menos nobreza, e mais empobrecimento,tanto material como ético.

A luta do personagem samurai é a luta de uma cultura na qual outrora predominavam valores nobres de conduta, para uma outra fase, na qual a bravura, o caráter e a humildade são muitas vezes valores relegados. Em Depois da Chuva, a principal luta do samurai não é com a espada, mas com seus próprios valores. Lutar pelo que? Lutar por quê? E por quem? Uma luta somente se justifica se for por quem se ama, seja uma pessoa, uma causa, uma coletividade.

Então, enquanto continua aqui a chover todas as lágrimas do mundo, eu fico a pensar sobre a primorosa fotografia e história de um samurai que queria ser nobre, ser bom. Acho que todo o ser humano deveria ser assim. Pergunto por que isso é tão difícil de se efetivar. A nobreza de caráter, a retidão, o equilíbrio, a harmonia... mais do que treinar a mente e o corpo, é uma questão de treinar valores e posturas diante das coisas que acontecem na vida. Somos testados o tempo todo, em nossa vida pessoal, familiar, profissional. Problemas surgem o tempo todo. Como uma chuva que surge de repente, e que de repente inunda a casa, a estrada, a cidade, transforma-se em uma enchente, que carrega tudo o que vê pela frente. Quantas vezes nossa vida se transforma e transborda como uma enchente? Como uma chuva de lágrimas?

Mas...
Depois da chuva. Vem o sol. Dias melhores. Arco-íris. O desapego é um exercício contínuo. É uma luta que temos com o nosso eu. Um desafio ao autoconhecimento. Com sua extrema sensibilidade, Akira Kurosawa, o grande mestre, sabia, e seu grande discípulo, Takashi Koizumi, também soube conduzir essa obra com uma delicadeza ímpar. Todos podemos ser samurais, lutadores, guerreiros. Mais do que escolher a espada, é fundamental saber escolher o motivo. Desapegar-se para viver. Essa é a grande e derradeira luta, o grande embate, em busca da descoberta do nosso verdadeiro "eu".
Bom domingo!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Perambulando em Dourados




Queridos e queridas,

Saudade de escrever aqui! Mas nesses dias em que estive em Dourados, no Mato Grosso do Sul, vivi momentos muito bonitos e energizantes. Fui trabalhar, participar de um evento na área de direitos humanos, o Congresso Transdisciplinar de Direito e Cidadania. Lá, palestrei e participei de outras palestras. Conheci professores e pesquisadores envolvidos e entusiasmados com a causa dos direitos humanos. Pessoas de vários estados e países, cada um falando um pouco sobre o que está acontecendo em sua região, e sobre o que estão pesquisando. Conversei com moradores da região, que embora cravada no centro-oeste brasileiro, é constituída por um número enorme de gaúchos e de outros sulistas, como catarinenses e curitibanos. Descobri pouquíssimos douradenses de nascimento, mas fui muito bem recebida por todos, todos mesmo, desde à chegada até o retorno ao aeroporto.

Fiquei com bolhas nos pés e sorriso escancarado no rosto ao caminhar pelas ruas retas e planas da cidade, povoada por muito comércio, ruas arborizadas, calçadas com rampas de acessibilidade para cadeirantes, e muito fluxo de motos e bicicletas. Descobri um café simplesmente formidável, no qual eu gostaria de pernoitar ou morar, se pudesse, até terminar de tomar todo o estoque de cafés, especialmente o cappuccino preparado naquele lugar. Fiz novos contatos, e melhor ainda, novas amizades. Em um congresso transnacional, relacionamentos transnacionais. Pessoas muito queridas, mesmo. Eu estava com muita saudade daqui, dos que me são caros, e voltei com muita saudade dos que me receberam tão fraternalmente, e os quais espero rever sempre que possível.

Cinema. Um dos motivos que lá me levaram. Apesar de não ser um pólo cultural, não ter múltiplas salas de cinema, na Universidade Federal da Grande de Dourados há o cineclubismo, e um projeto do curso de Direito denominado Cinema e Direito, com a exibição de filmes e debates focados em temas de direitos humanos. E eu tive a oportunidade e o privilégio de lá exibir o documentário que pesquisei, roteirizei e co-dirigi, Perambulantes.

Foi um momento único em minha vida. Especial mesmo. E por múltiplas razões. Não vou aqui falar sobre elas. Apenas sobre uma. A principal. Estava eu naquela cidade, naquele Estado, naquela região, onde há reservas indígenas, onde há milhares de indígenas de várias etnias que vivem ali, colados na cidade, no meio urbano. Vivem em condições precárias. Sem sustentabilidade, com crianças morrendo, com jovens se suicidando, com assassinatos de indígenas, com exploração da mão-de-obra na terra do agronegócio, nas lutas pelas terras produtivas, na demarcação de terras, na falta de uma assistência efetiva da Funai, nos preconceitos que essas comunidades enfrentam, nos seus pedidos de ajuda, de pão velho, de qualquer coisa que os ajudem a sobreviver. Continuam tutelados, 509 anos depois.

A luta pela visibilidade dos problemas que afligem as comunidades indígenas está ali, pulsante, sangrando, e aparentemente está tudo normal. É o que vemos quando caminhamos pelas ruas centrais e arborizadas e tranquilas da cidade. É o que vemos ao lermos os jornas locais. Felizmente, os professores universitários desenvolvem ações como este congresso, para abrir um debate sobre a sangria que escorre, para não mais tapar o sol com a peneira. E lá estive eu, vendo mais uma vez o filme, e desta vez juntamente com uma atenta platéia formada especialmente por alunos e professores dos cursos de direito do Mato Grosso. E por indígenas. Conversei com índios Terena que lá estudam. Um deles me disse que os índios de lá não tem perspectivas. Há motivações para morrer, e não para viver.

Talvez por ter tido essa conversa, minha fala para esta platéia foi um desabafo. Um testemunho de alguém que quando começou a fazer este filme, tinha o ideal de fazer algo que mudasse, que transformasse uma realidade tão dura como a dos indígenas. Depois me dei conta das limitações que um filme envolve. Mesmo se tratando de um documentário, um filme é e sempre será um filme. Uma história contada por alguém. Construída em imagens e sons por uma equipe, mediante uma direção que aponta caminhos, técnicas e um fim em um determinado tempo.

Após o filme ficar pronto, ser lançado, ser distribuído, caiu a ficha. Das limitações que temos enquanto realizadores para efetivamente mudar uma situação real, concreta, que exige mudanças urgentes. O filme é um poema, o filme é uma denúncia, o filme é uma história que abre várias portas: a porta da história, da educação, do direito, da antropologia. O filme é a busca de um diálogo entre etnias e culturas distintas. É a estréia no roteiro e na direção de uma aspirante a transformar problemas em soluções, e que terminou encontrando mais problemas do que soluções.

Compartilhei essas experiências e aprendizados com uma platéia especial, que participou do debate com perguntas enriquecedoras, com opiniões baseadas em visões críticas. Foi, para mim, uma aula sobre cinema e direitos humanos. E, depois de três anos trabalhando nesse tema, da pesquisa à exibição, senti um sentimento lindo e puro, como há muito não sentia: a alma leve, flutuando, por estar ali, ao lado de jovens que anseiam por mudanças. E ao injetar ânimo e coragem neles, renovei a mim mesma. Tenho certeza de que todos saíram de lá com uma visão diferente sobre a realidade indígena. Com respeito, e com a necessidade de fazer algo por eles. Como eu disse na palestra: fazer por eles é fazer por nós mesmos. Porque em tudo há uma ligação. Até onde vale a pena fazer tudo o que se faz pelo mundo do capital? Onde esse mundo está nos levando?

O que eu sei, é que enquanto houver a resistência, não haverá a extinção. Precisamos, às vezes, quebrar as regras para transformar o direito em justiça. Resumo o valor desses dias em uma palavra: gratidão.
Bom fim de semana!

sábado, 19 de setembro de 2009

Voar, viver e arriscar

Queridos e queridas,

Serei breve hoje. Estou prestes a viajar, e com um frio no estômago. Porque adoro viajar de avião, especialmente decolar e aterrissar. Aquela adrenalina da velocidade, subindo, descendo, acho muito bom. Gostaria de poder fazer isso muitas vezes. O problema em um vôo, como na vida, não está necessariamente no começo ou no fim ,mas no durante. Explico: depois que estamos no ar, tudo está bom se funciona bem, sem panes. But, se houver panes, as nossas chances são infames. Comparei o vôo à vida porque voar é uma libertação. Nos dá as asas que não temos nem teremos. Não somos pássaros nem anjos. Mas voar é também arriscar. Cruzar nuvens, desafiar os deuses. E as panes acontecem, às vezes.

Como no filme Náufrago (2000). Dirigido por Robert Zemeckis, com Tom Hanks interpretando Chuck Noland, um inspetor da multinacional FedEx. Durante uma viagem entre as várias que ele costumeiramente fazia a trabalho, ocorre um desastre, uma pane aérea filmada à perfeição. Eu diria que é a melhor cena de desastre aéreo no cinema, na minha modesta opinião. É uma agonia só. Ele acorda em uma ilha na qual vai praticamente voltar à Idade da Pedra na luta pela sobrevivência. Sozinho,por quatro anos.

O filme rendeu duas indicações ao Oscar. Tom Hanks é sabidamente um grande ator, um dos melhores, e deu tudo de si nesse papel. É emocionante testemunharmos a luta de um homem para entender por que isso aconteceu, e apesar disso, não desistir, não enlouquecer. Nem que para isso pareça um louco que conversa com uma bola chamada Wilson. Nos momentos mais dramáticos de nossas vidas, nos vemos de repente segurando objetos que nos lembram momentos, emoções, pessoas que nos são caras. Uma foto, um bicho de pelúcia, um bilhete, até mesmo um lenço de papel que lembre a rinite alérgica de alguém que amamos...

Náufrago é um filme extremamente humano. Na solidão um homem encontra a si mesmo. Às vezes é preciso naufragar, ir no fundo do poço, na tota escuridão, para nadar até à superfície, voltar para o topo, retornar a ver a luz. Voar e viver. É arriscar. Movimentos, subidas, descidas, panes. Mas muita adrenalina, também.

Então, fica aqui a sugestão para ver ou rever um filme que emociona pelo começo, pelo durante e pelo fim. E eu, agora, vou arrumar minha pequena bagagem. Com a lembrança de um almoço-surpresa especial feito pela minha filha Chef Rafaela. Com o compromisso de ver Transformers com meu filho Thomas, SEM FALTA!!!!, quando eu retornar. E pelas saudades que já tenho dos que amo e que me querem bem.
Saudades!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O happy end

Queridos e queridas,

Retomo o tema da postagem anterior, sobre a crítica às comédias românticas feitas atualmente. Mas agora para falar sobre a importância de um roteiro bem feito, e a diferença que se percebe no resultado, no filme. O exemplo que eu trago é com uma atriz que já fez das piores às melhores comédias românticas norte-americanas recentes: Jennifer Aniston.

Não vou aqui mostrar a cinebiografia da atriz, mas uma rápida passagem em alguns dos filmes nos quais ela atuou desde que deixou de ser apenas a Rachel do seriado Friends. Filmes como Paixão de Ocasião (1997), Quero ficar com Polly (2004) e Separados pelo Casamento (2006) são alguns exemplos de como rasa e superficial pode ser uma história. E Jennifer estava lá, como protagonista, em todas elas. Talvez por isso tenha ficado muito mais conhecida pelo seu casamento, e mais ainda com a separação de Brad Pitt, do que pela sua filmografia. Ou ainda, por ser multi-premiada como a personagem Rachel Green, uma menina mimada que vai morar com amigos e, entre uns cafés e outros, amadurece em seus amores e escolhas de vida.

Acontece que Jennifer Aniston também atuou em filmes como A Razão do meu afeto (1998), Por um sentido na vida (2002), e Amigas com dinheiro (2006). Nestes filmes existem histórias consistentes, e também uma atriz que não "interpreta" a mimada, a patricinha, a chorosa, a ingênua, a bonitinha, a insossa. Jennifer cresce e aparece. Uma mulher desglamourizada, que prende a atenção e convence por sua atuação, e não pelo seu físico ou fama ou qualquer outro penduricalho.

Destes filmes, gosto especialmente de A Razão do meu afeto. O filme tem direção de Nicholas Hytner, roteiro de Wendy Wasserstein, baseado em livro de Stephen McCauley. Jennifer interpreta uma assistente social que conhece um gay (Paul Rudd). Eles tornam-se amigos e vão morar juntos. Embora grávida de seu namorado, ela passa a querer cada vez mais a companhia de seu amigo gay, por quem está se apaixonando.

Aqui temos algo, conteúdo, potencial para uma boa história. Um caso de amor diferente. Uma possibilidade de um outro tipo de happy end. Ou de que não tenhamos um happy end. Ou que nem tenhamos um caso de amor. Quando o amor é possível? Quando o amor é correspondido? E quando ele é impossível? E quando ele não é correspondido?

Se fosse um filme europeu, a abordagem poderia ser mais densa, eu acho. Mas, por se tratar de um filme norte-americano, é um dos poucos, em minha modesta opinião, que trata com leveza sem ser fútil, e com densidade, sem ser profundo, o tema do amor não correspondido. Algo profundamente humano, possível de acontecer com qualquer um de nós, reles mortais. Ou ainda: quando o amor, platonicamente é correspondido, mas não como gostaríamos que fosse. E o filme deixa possibilidades, portas e janelas abertas, sem fechar a questão. O que é muito bom, por se tratar de um filme. Já na vida real tudo o que se quer são respostas, definições, soluções. Correspondências.

Talvez por isso, voltando um pouco ao post de ontem, as pessoas de um modo geral gostam de -boas - comédias românticas, dramáticas, e mesmo dramas e romances (estes, sempre mais densos). É um momento de dar vazão às fantasias, à imaginação, ao sonho. Com ou sem happy end, mas com histórias que cativem, que emocionem, que sejam verossímeis. Jennifer foi indicada por sua atuação em Um sentido na vida. Mas neste filme, A Razão do meu afeto, ela já demonstrava que pode ser uma ótima atriz. Precisa saber escolher melhor os roteiros. Ou escrever, ela mesma, a sua própria história. Por que uma mulher bonita, bem sucedida, não consegue ser feliz? Por que parece que, para ser feliz, é preciso ser um par? Qual é a história que pode, realmente, chegar a um happy end?
Bom fim de semana!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Tragicomédia...

Queridos e queridas,


Eu estava lendo o guia com as sinopses de filmes em exibição nas salas de cinema aqui em Porto Alegre. Quando chegar a sexta-feira, haverá novidades, estréias. Mas nesse fim de semana viajarei para Mato Grosso do Sul, e talvez por uns quatro dias eu não escreva aqui. E também não irei assistir a estréias ou a algum dos filmes que vi no roteiro de hoje. Há o caso de uns filmes que eu não iria assistir nem se eu estivesse aqui no fim de semana, ou se me dessem o ingresso. Não me entendam mal. Não é preconceito. É perda de tempo, o que é bem diferente. Refiro-me ao gênero das comédias românticas.


Quem é meu leitor assíduo, sabe que é com certa frequência que eu escrevo sobre esse gênero. Então, não seria uma contradição? Não. Porque, apesar de eu ser crítica com relação à atual produção de filmes nesse gênero, ainda é uma das melhores formas de escrever roteiros e ter bom público. O que está realmente faltando é qualidade nos roteiros. Isso sim, está matando um gênero que se celebrizou com clássicos como Harry e Sally, feitos um para o outro. A comédia e o romance foram feitos um para o outro, assim como o drama e o romance e a comédia também são o triângulo amoroso perfeito. Amor é risos e lágrimas. Paixão é alegria e dor. Tragicomédia. Essa é a vida real. Daí o motivo que o público em geral, independente de faixa etária, gosta e se identifica com uma boa comédia romântica, ou uma boa comédia dramática. O que ninguém aguenta mais são as histórias previsíveis. Primeiro, porque a vida não é previsível. Segundo, porque ninguém quer ver novela das oito no cinema.


Apesar disso, o estilo hollywoodiano de des-fazer cinema continua a apostar em novos rostos, no melhor estilo "namoradinha do Brasil". Atrizes como Jennifer Aniston, Sandra Bullock, Jennifer Lopez, e mais recentemente, Katherine Heigl, são fortes candidatas ao título de "nova Meg Ryan da hora das comédias românticas". Só que de histórias medianas a medíocres. A Verdade Nua e Crua, por exemplo, filme dirigido por Robert Luketic, é o mais novo fenômeno dessa leva, que inclui outros filmes recentes como A Proposta, ou Vestida para Casar. Puro clichê. Mocinho e mocinha que se odeiam porque se amam e porque vão ficar juntos no happy end. Essa é a sinopse. Em uma linha já se percebe que é óbvio ululante que não justifica fazer um filme como esse, investir uma fortuna nesse tipo de filme que, antes que acabe, já não faz falta. Hollywood tem dinheiro mesmo, porque pode se dar ao luxo de investir em lixo.


Desculpem se fui rude. Não costumo criticar radicalmente, a não ser que seja necessário. E eu não aguento mais ler guias de filmes nas páginas de jornais, e nos sites de imprensa, no qual há produtos de consumo absolutamente descartáveis, e que custam uma fortuna para serem produzidos, distribuidos e comercializados. E tem apoio!!


Enquanto isso, os denominados filmes de autor, filmes de arte, ficam na grande maioria das vezes nas tocas, nos circuitos alternativos, na ação-entre-amigos, sem espaços de divulgação, sem incentivos para produção, tanto por parte do governo como por parte do meio empresarial. Este, só investe se tiver abatimento no Rei Leão, e não por investir em cultura. Quanto ao governo, cada vez há menos editais, com verbas curtas e uma demanda enorme. Os produtores independentes estão se tornando cada vez mais dependentes por falta desse olhar, dessa sensibilidade para um apoio de verdade. Esse apoio só vem quando o anônimo artista se torna uma celebridade. Que ludibriador esse mundinho capitalista pré-apocalíptico que também mostra seus tentáculos no mundo do cinema. Isso sim, é uma tragicomédia...
Boa noite!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

As rosas vermelhas e a rosa púrpura

Queridos e queridas,

Pela primeira vez desde que comecei a escrever aqui, pensei em tirar o dia de folga. Meu aniversário. Mais um (ainda bem!). Quanto mais o tempo passa, melhor eu me sinto, em todos os sentidos. Não sinto saudade dos meus vinte anos, porque era muito mais rebelde, mas muito mais ansiosa, e em função disso atropelei muitas situações. Inexperiência? Aprendizagem? Ou imaturidade? Acho, hoje, que foi um pouco de tudo isso. Houve muitas coisas boas, e outras que prefiro nem lembrar mais.

Os 30 vieram para acalentar sonhos, projetos, centrar mais na vida, família, trabalho... Ou não? Sei lá, passaram tão rápido... Mas a magia dos 30 era imaginar que poderia ficar sempre por aí e não ir adiante. Uma espécie de auge, de apogeu feminino. Corpo, sexualidade, mente. Uma engenhosidade da natureza que aparentemente está em seu melhor momento. Aparentemente, porque na verdade os 30 estão apenas preparando terreno para a temida e destemida idade dos 40. Quando a mulher torna-se mulher. Muitas são mães, como eu. Muitas estão separadas, como eu. Muitas estão na luta pela afirmação de seus sonhos, não tão delirantes como os dos 20, mas muito mais ardentes, mais sedentos e mais serenos. A vida respira ofegante, pede passagem. Vigor, vitalidade, energia. É tempo de rever o que se plantou, fazer as podas necessárias, semear na mudança de estação. Porque os 40, ao contrário do que se imaginava um tempo atrás, não são o começo do fim, são apenas o começo. Ou o recomeço.

Eu tive um dia lindo, especial, com meus filhos que amo mais do que tudo nesta vida, Bruninho, Rafaela e Thomas. Com o apoio do meu ex-marido. Com a lembrança dos parentes e dos amigos, por telefonemas, emails, mensagens no celular, postadas no Facebook, no Orkut e assim por diante.

Com meu Olhos Verdes. Com rosas vermelhas. Sinto-me uma mulher amada e que ama muito. Olho para essas rosas, relembro do filme A Rosa Púrpura do Cairo, o preferido de Woody Allen, que o roteirizou e dirigiu em 1985. A louca história de Cecilia, a desempregada garçonete que foge de sua vida problemática na sala de cinema, até que o ator sai da tela para o coração de Cecilia. Este filme recebeu vários prêmios:Globo de Ouro, Bafta, César, Fipresci no Festival de Cannes, Saturno, Bodil e uma indicação ao Oscar.

Cecilia sonhou. Cecilia encarnou seus sonhos. Hoje eu tive um dia de Cecilia, com um ator, o Poderoso Chefão Marlon Brando, que não me trouxe uma, mas uma dúzia de rosas vermelhas.
E esse roteiro original não é o preferido do Woody, é o meu!!!!
Baci!!
Mensagem de minha amigairmã Valéria:
A Flor rara
Enquanto vamos rumando para a primavera, prá lá do meio de setembro, é o aniversário daquela que eu costumo chamar de Flor Rara. Flor rara é destas mulheres especiais que povoam a terra, com a graça de Deus. Elas estão por aí,f alando de séculos atrás ou borboleteando pelos dias de hoje.
Quando as encontramos, ficamos imóveis, meio pensativos. Sabemos estar diante de alguma coisa ou pessoa diferente.A minha amiga que faz aniversário hoje, dia 16.09.2009, é uma destas pessoas.Primeiro eu soube que ela adora o Pearl Jam, que é maluca pelo House, que cursou filosofia, faz filmes, tem um blog fantástico (acordanoabismo) onde pode mostrar sua maestria em escrever. Minha amiga é múltipla, diferente, corajosa a não mais poder, decidida, pragmática.
Minha amiga é romântica e já publicou um livro de poesias. Ela é mãe de três lindos rebentos, é dona de casa, faz jardinagem, está a frente da Liga dos Direitos Humanos. Voando sempre, voando muito! Imagino a Giancarla, minha amiga-irmã, como uma flor que nasce belíssima na parede íngreme de uma montanha, no alto de uma cascata, só do outro lado do rio. Não precisa de estufa, não se incomoda com o vento, nem com a umidade, nem com a lonjura.
Às vezes vejo nela a sombra de uma índia, os traços de uma dama antiga, o sorriso de menina. Hoje é o dia do aniversário da Gian e eu nem sei o que desejar a ela. Talvez devesse dizer seja sempre assim, meio flor, meio índia, meio menina mas eu sei da sua incansável transformação,da sua busca; por isso só posso agradecer por sua amizade-irmandade, por tê-la encontrado assim, no meio do caminho, me permitindo com seu entusiasmo abraçar uma causa apaixonante que começa a me fazer feliz. Gian-seja muito, muito, muito FELIZ. Beijos!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Heróis, anti-heróis e losers

Queridos e queridas,

Estava eu a pensar sobre o tema do post de hoje. Fiquei sabendo que novos heróis saídos das histórias em quadrinhos irão em 2010 para as telas do cinema: The Losers. A direção é de Sylvain White, com produção de Joel Silver, que também produziu Matrix. O roteiro, de Peter Berg e Janes Vanderbilt, foi baseado nos quadrinhos de Andy Diggle (argumentos) e Jock (ilustrações). O filme vai apresentar a história de membros das Forças Especiais dos Estados Unidos que partem em uma missão na Bolívia, onde uma emboscada os aguarda. O grupo é dado como morto. Mas eles voltam, disfarçados, para impedir que o inimigo chamado Max comece uma guerra tecnológica no mundo.

Estava eu escrevendo esse texto quando o meu genrinho chega e me pergunta, à queima-roupa: Carla, tu preferes Batman ou Watchmen?, e eu, imediatamente, revido: O que??? E ele, calmamente, repete a pergunta. Mas como é que eu posso escolher entre Batman e Watchmen? Ele continua aguardando minha resposta, inabalável. Então, eu, meio gaguejante, tento responder que, se tenho realmente que escolher, será Batman. Afinal, Batman é meu alter-ego, Batman é meu ídolo de infância, das histórias em quadrinhos, e depois no seriado de televisão, e depois no cinema, e agora repetidamente no DVD.
Batman, Coringa, Darth Vader, Rorscharch... como vou escolher O herói? Meus leitores, minhas leitoras. Eu sei o que vocês estão pensando. Heróis? Darth Vader é herói? Coringa???? E Rorscharch, aquele sinistro psicótico?? E o Batman, sinistro, amargurado, o justiceiro das linhas tortas...

Meu genrinho resolve a questão. Ele não aguenta esperar a chegada da minha filha e nem a chegada da meia-noite e um segundo para dar meu presente de aniversário. Me estende dois pacotes. Daí eu entendo tudo. A resposta correta é Batman E Watchmen. Óbvio!!!! E eu, muito, muito emocionada, abro os pacotes, cuidadosamente, logo eu que quando abro um envelope rasgo a carta, invariavelmente. Todo o meu cuidado é recompensado quando abro a primeira embalagem e vejo, com as mãos e os olhos trêmulos, a edição especial dos quadrinhos Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Volume Um e Volume 2. Daí, vou abrindo a próxima embalagem enquanto vou imaginando, com meus superpoderes de olhos de raio-X, que verei... BATMAN, o meu ídolo de histórias em quadrinhos.

Acho que não caí no choro porque os tornados da vida me endureceram um pouco. Só um pouco. Cada página que comecei a folhear me conduziram imediatamente para minha infância. Minha vida entrou em um quadrinho, em balõezinhos com muito PAF! POF! BUM! e com riscos e rabiscos de desenhos com muita ação, adrenalina, aventura, emoção, e diálogos curtos e profundos. A busca da justiça, a busca pelo fim da violência, a busca da superação de traumas. Batman, o cavaleiro das trevas, edição definitiva. O Batman de Frank Miller, Klaus Janson, Lynn Varley, e letreiramento original de John Constanza e Todd Klein. O Batman criado por Bob Kane. O Batman que dá uma surra no Super-Homem, que em vez de cuidar da cidade, passa a cuidar dos interesses do governo. Esse Batman sombrio, que Frank Miller transformou, em 1987, no consagrado personagem de graphic novel, no super-herói que aos 60 anos volta com a roupa do homem-morcego para a igualmente sombria e violenta Gotham City.

O meu mais novo livro de cabeceira já começa assim: "Aquele livro horrível apelava para o medo dos pais com relação aos próprios filhos. As Histórias em Quadrinhos foram rotuladas como a principal razão da delinquência juvenil". Esta citação, de Frank Miller, prossegue assim, mais adiante: "Se a natureza humana é imutável, o espírito criativo é indomável... O Cavaleiro das Trevas é, obviamente, uma história do Batman. Em grande parte, procurei usar a escalada da criminalidade no mundo ao meu redor para retratar um mundo que precisava de um gênio obsessivo, hercúleo, e razoavelmente maníaco para pôr as coisas em ordem."

Então, meu aniversário começou muito, mas muito bem mesmo. Acredito na importância de cultivarmos a imaginação, e por que não, a idolatria pelos super-heróis, ou anti-heróis, ou losers. Como muito bem disse Frank Miller, ao concluir a introdução: Os heróis fazem o que eles sempre precisam fazer: perseverar, ou morrer tentando. Esse é o meu lema.
Beijos!!!
Dedico esse post ao genrinho Umberto, pelo tesouro que me deu neste aniversário.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Suavemente, até o fim

Queridos e queridas,

Patrick Swayze morreu nesta segunda-feira, não sem lutar há quase dois anos contra o câncer de pâncreas. Lutou fazendo o tratamento, e lutou fazendo o que gostava de fazer: filmes. As fotos recentes do ator em nada lembravam o corpo do bailarino que se tornou famoso no filme Dirty Dancing (1987), uma história romântica na qual ele era um instrutor de dança que se envolvia com uma jovem (Jennifer Gray). Cenas memoráveis de danças ao ritmo de músicas que formam uma trilha maravilhosa, como a oscarizada música I've had the time of my life. O ator se consagraria no ano de 1990, como protagonista do filme Ghost- Do outro lado da vida, ao lado de Demi Moore. Uma nova história romântica, desta vez dramática, ao tratar de temas como a morte e a vida após a morte. Swayze foi indicado ao Globo de Ouro como melhor ator por seu trabalho nesses filmes.

Assisti esses dois filmes várias vezes, em momentos diferentes de minha vida. Sempre gostei de ve-los. Dirty Dancing é um daqueles filmes que podem ser vistos na Sessão da Tarde. Amenidades. Assisti-lo hoje poderia parecer ver um filme antigo, datado, levando em conta o figurino, a fotografia, por exemplo. Mas a dança é o que envolve o espectador. O tempo todo. Todas as vezes em que o filme é visto. A dança é mágica, Patrick Swayze é um grande bailarino. Então, Dirty Dancing entra para a lista dos melhores filmes de dança, como Footlose.

Já Ghost me comove, e acredito que a quase todos os que viram esse filme, pela suavidade do envolvimento amoroso. Swayze está lá, não como um galã, mas como um homem, corpo, espírito, que ama uma mulher. A suavidade dos passos de dança de Swayze estão presentes na suavidade de sua interpretação.

Seu primeiro papel de destaque foi em Vidas Sem Rumo (1983), dirigido por Francis Ford Coppola, ao lado de atores como Tom Cruise, Matt Dillon e Rob Lowe. Este filme, cujo título original - belíssimo - é Outsiders, trata da juventude. Os dilemas pelos quais passam os jovens, que tem nessa fase a mais alta potência da vida, mas não tem a mínima noção do que fazer com isso. E acabam se envolvendo em encrencas e situações de risco,
como "ratos de rua", nas palavras de Coppola.

Filho de uma coreógrafa, estudou balé clássico e teatro. Um dos galãs de Hollywood nos anos 80 e 90, que atuou em vários filmes, apesar de ter ficado meio escanteado nos anos 2000, e que ficou vivendo nos últimos dois anos em um inferno, como ele mesmo declarou na primeira entrevista que deu quando soube que estava com câncer.
Ele disse: Estou assustado, estou zangado. Por que eu?

Essa pergunta a gente se faz quando se olha no espelho, diante de alguma situação ruim que nos acontece. Problemas múltiplos: perdas, dores, traumas. Doenças, dívidas, mentiras, traições, sentimentos negativos, proximidade da morte. Ou a sua quase sentença, como no caso dele, que sabia ser o câncer de pâncreas um dos tipos de mais remota recuperação.

Pois Swayze, esquálido, ossudo, desfigurado, cabelos ralos, sem nenhum vestígio de juventude, e de galã com corpo de bailarino, demonstrou mais uma vez a sua suavidade, na forma como viveu o tempo que tinha. Não se escondeu. Não desistiu. Eu imagino Swayze tirando a morte para dançar. Durante quase dois anos, ele a conduziu, levantou-a, deitou-a, rodopiou e puxou-a para bem perto de si. A morte, ofegante, estupefata, lisonjeada e ligeiramente ruborizada com tanta suavidade, dançou, dançou e dançou. Os dois sabiam qual seria o final da dança. E ele, como um dos maiores nomes na arte da dança no cinema, a conduziu, suavemente, até o fim.
Boa noite.

domingo, 13 de setembro de 2009

A difícil arte de ser simples

Queridos e queridas,

Ontem escrevi sobre um filme no qual atua Edward Burns. E fiquei com vontade de escrever mais sobre ele. No filme 15 minutos, por exemplo, Burns atua ao lado do grande Robert de Niro, que nem fica o tempo todo no filme, ele é assassinado acho que lá pela metade da história. Então, o jovem, charmoso e tímido bombeiro (Burns) tem a (difícil) missão de segurar a história até o fim, investigar quem são os assassinos, e fazer justiça em um sistema de corrupção que envolve a polícia e a imprensa. E ele está muito bem no papel. Assim como no Resgate do Soldado Ryan, e em vários outros. Mas o que muitos ainda não dão o devido valor é ao excelente trabalho que Edward Burns faz atrás das câmeras, como roteirista, produtor e diretor.

Começando pelo seu filme de estréia, em 1995, Os Irmãos McMullen. Burns apresenta a história de um família de irlandeses católicos, são três irmãos que vivem crises distintas, e que os aproxima. Temas como amor, religião, valores, são cruzados nestas histórias paralelas: um está vivendo um casamento falido, o outro tem aversão a relacionamentos sérios, e o terceiro está dividido entre o amor por uma mulher de uma etnia e religião diferente da sua. Como roteirista, Burns escreveu uma história comovente, com diálogos nos quais sua vocação para um humor fino, no melhor estilo woodyalleano, está presente. Mas sua direção lhe dá uma identidade própria, bem como ele é: simples e profundo nesta simplicidade. Há uma, eu diria, uma elegância na forma de conduzir as cenas, das mais engraçadas às mais dramáticas. A gente se sente na história. Simples assim. O que não é nada fácil de fazer.
E Burns faz.

Como no outro filme que ele dirigiu, produziu e roteirizou, além de atuar, Nosso tipo de mulher. Além de conseguir no elenco nomes já famosos, como de Cameron Diaz e Jennifer Aniston, este filme consegue o que propõe: uma história bonita sobre o amor. Um homem com uma sensibilidade e sarcasmo para os pontos de vista masculino e feminino. Várias versões do mesmo fato. Várias perguntas em busca de uma mesma resposta: amar e ser feliz.
E Burns consegue, de novo.

No ano de 1998, Edward Burns escreveu seu primeiro drama, o qual dirigiu e foi um dos protagonistas, juntamente com Jon Bon Jovi e Lauren Holly: Uma Chance para Ser Feliz. Prefiro o título no original, No Looking Back. Essa é a essência do filme, mais centrado ainda sob o ponto de vista feminino em busca de ser feliz. Nesta história, que em princípio não tem nada demais, uma mulher mora em uma pequena cidade, vive com um rapaz de quem gosta, mas não o suficiente para casar. Falta algo mais, que ela não sabe bem o que é. Talvez seja a ausência do homem que a amou, e a abandonou há muito tempo. Quando ele reaparece, ela percebe que o passado ainda não passou, o presente é uma dúvida e o futuro é a obrigação de fazer uma escolha definitiva. Ficar com alguém que a ama, ficar com alguém que agora retorna e por quem ainda sente algo? Ficar só? Ou ...?

O que Burns mostra nesse filme é que, mais importante do que escolher com qual deles ficar, é ela saber que precisa ficar bem consigo mesma. Para ser feliz, tem que estar de bem consigo. Lembram da paz interior a qual me referi no post anterior? Pois é isso. Errando e acertando, escolhendo caminhos, pensando e agindo. Vamos fazendo nossa vida, traçando nosso futuro. Por isso, No Looking Back é um nome lindo, para um filme em que Burns está mais uma vez conduzindo e atuando com um talento que lhe é peculiar: ele é simples, original, e fala de coisas que dizem respeito a todos. (Não vou me referir aqui também ao olhar, à voz dele, é puro charme, mas daí já é tietagem...)

Burns recebeu críticas após fazer esse filme porque todos esperam dele algo que supere seu filme de estréia. Mas percebam a ironia da crítica: Os Irmãos McMullen foi filmado com um elenco de pessoas amigas de Burns, com um orçamento baixo, teve como principal locação a casa de seus pais, e o apoio técnico veio de colegas seus da produção do programa Entertainment Tonight, onde Burns trabalhava. Vários distribuidores torceram o nariz para o filme. E aí, no Sundance Film Festival, o maior festival de cinema independente norte-americano, o flme recebeu o Prêmio do Grande Júri. Estourou. Na verdade, o que o festival fez foi justiça a um grande e jovem cineasta que prima por boas histórias, em vez de megaproduções com olhos nos cifrões. Grande cara, esse Edward Burns.
Boa semana!

sábado, 12 de setembro de 2009

Contagem regressiva

Queridos e queridas,

A proximidade de mais um aniversário evoca em mim a necessidade de repensar atitudes e pensamentos na vida. Aniversário é para mim como Natal e Ano Novo; momentos únicos e especiais, não necessariamente bons ou ruins. Não me entendam mal. Em tese - eu repito, em tese - são momentos bons, muito bons. Família reunida, mesa farta, bons presságios, presentes, e coisas que tais. Mas nem todos tem a família reunida, a mesa nem sempre é farta, os presságios podem ser maus também, e os presentes podem ser ausentes.

Aniversário é celebrar a vida, o nascimento, mais um ano de um ciclo de vida. Motivos mais do que suficientes para comemorar. Sozinho, com a família, com os amigos, e até mesmo com os desconhecidos. Olhar para alguém na rua e dizer, Hoje é meu dia, há tantos anos nasci, estou vivo!!!, não é o máximo? Não. Não basta estar vivo, com o coração batendo. Tem que fazer esse ciclo valer a pena, tem que estar de corpo e alma, fazer e acontecer, somar mais do que subtrair, mutiplicar em vez de dividir. Não é tão simples, mas não é impossível.

O presente que eu quero me dar neste aniversário é alcançar a paz interior.

Foram anos, tempos e ciclos de tornados. A calmaria na vida da gente funciona como as marés, o ciclo da lua, os movimentos de rotação e de translação...

O dia do aniversário evoca a alegria de estar vivo, e a interrogação sobre Até quando?, e Como? Essa questão me leva ao filme Uma vida em sete dias (200). Dirigido por Stephen Herek, essa comédia romântica tem como protagonistas Angelina Jolie e Edward Burns, além da participação de Tony Shalhoub. Lanie Kerrigan é uma repórter em Seattle, e leva uma vida perfeita: seu emprego, seu namorado, seu apartamento, suas roupas. Até que um mendigo vidente lhe avisa que sua vida é sem sentido e durará por sete dias. Ela passa a acreditar depois de ver que outras previsões do vidente se confirmaram. Daí em diante, a repórter passa a questionar o sentido de tudo o que tem feito, sobre as pessoas com quem tem se relacionado, e sobre a forma como tem vivido.

Por que às vezes somente na iminência de uma tragédia, ou em sua consumação, as pessoas parecem refletir um palmo adiante do seu nariz? Segundo o diretor Stephen Herek, a história deste filme trata de redenção, de uma alma em busca de uma descoberta, que é encontrar a paz interior, no lugar de uma vida superficial, demais.

Vale lembrar que após fazer esse filme, Angelina Jolie recebeu o título de embaixadora da boa-vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. Angelina conheceu ex-refugiados na Camboja, e depois viajou até a África e ao Paquistão, onde se encontrou com refugiados e voluntários.

O importante é dar valor, ser grato, e buscar ir além da superfície. E quem não conseguir ou não quiser acompanhar nesta jornada de busca de autoconhecimento, que fique, ou que vá para outro caminho. Eu não tenho mais tempo nem paciência para ir em busca do tempo perdido. Agora, é olhar para a frente, como se a vida tivesse sete dias. Afinal, nunca se sabe. E nesses sete dias, e nesses dias, viver em paz consigo mesmo.
Bom domingo!
"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe."
Oscar Wilde

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Oito anos depois

Queridos e queridas,

Oito anos depois, mais um onze de setembro, uma data que marca um dos maiores atentados da história, contra as Torres Gêmeas do World Trade Center. Morreram 19 sequestradores e 2974 pessoas de várias nacionalidades, a maioria norte-americanos. Entre os mortos, 343 bombeiros e paramédicos e 60 policiais, além de 24 desaparecidos e mais de seis mil feridos.
O onze de setembro é um dia de luto e de reflexão sobre o que o ser humano é capaz de fazer. É estranho, mas quando pensei nisso me veio na memória cenas do filme Inferno na Torre (1974) com Paul Newmann, Steve Mcqueen e grande elenco. A grande torre foi projetada para ter 138 andares, e no dia de sua inauguração, acontece o incêndio. Eu era criança quando vi esse filme, e me impressionei muito com duas coisas: as atuações de Newmann e Mcqueen (era o cinema na veia!), e as cenas de fogo, que me pareciam muito reais, causando um grande desconforto.

De 1974 para 2001 muita coisa mudou, na vida real e no cinema. Os filmes de suspense e ação se tornaram muito mais sofisticados, nem por isso mais convincentes. E eu, na manhã de onze de setembro de 2001 estava em casa, quando meu amigo Ilgo me telefona e pergunta se eu estava vendo na tv o que estava acontecendo. Eu, espantada, pergunto o que estava acontecendo, porque estava com o rádio e a tv desligados. E ele, mais espantado ainda, me disse: O mundo está acabando e tu não sabe!!

Nem sei se ele lembra desse telefonema e dessa rápida conversa. Eu nunca vou esquecer, por dois motivos: que fala para um roteiro!, e que bonito saber que em um momento terrível como aquele ele lembrou de ligar para mim. As cenas, repetidas à exaustão, mostravam as tragédias todas: das colisões dos aviões, do resgate das vítimas, dos destroços, do day after, do trauma dos que ficaram, e dos incontáveis comentaristas que falavam sobre as razões que levam terroristas a cometerem atentados como esse. Osama Bin Laden , até então um nome que passava batido na imprensa, transformou-se no maior arrasa-quarteirão para venda de jornais, matérias de tv, e, é claro, cartaz de WANTED, procura-se vivo ou morto. Um western pós-moderno onde não há mocinhos e bandidos, mas interesses políticos e econômicos conflitantes, que resultam em tentativas de manipulação da opinião pública, que resultam em invasões bélicas, que resultam em novos ataques terroristas.
Quedam os maiores símbolos do império do capital, mas não queda o capital.

Interessante lembrar que apenas dois anos antes deste atentado, o diretor Mark Pellington realizou um ótimo filme de suspense que trata da ação terrorista, O Suspeito da Rua Arlington. Com Tim Robbins e Jeff Bridges como protagonistas, o filme mostra a relação de dois vizinhos, um professor de história (Bridges) com os recém chegados Oliver (Tim) e sua esposa Cheryl (Joan Cusack). O professor suspeita das atitudes ambíguas e estranhas dos vizinhos, e passa a achar que são terroristas. Nós, espectadores, passamos também a achar suspeitas as atitudes do professor, que pode ser um maluco, ou não. Um terrorista não escreve na testa o que ele é. Mas nem todo estranho é terrorista, e nem todo terrorista é estranho. O filme nos brinda com um grande ponto de virada que torna seu final um dos melhores de filmes de suspense que eu já vi.
E para os que criticam Jeff Bridges, achando-o um ator mediano, eu volto a afirmar que é um grande ator que foi muito desperdiçado no movie world.

Num dia 24 horas chuvoso aqui em Porto Alegre, no onze de setembro que marca a terrível lembrança de mortes de inocentes, eu fico a refletir sobre o que leva um ser humano a fazer coisas como essas. Vão erguer novos arranha-céus, novas torres, novos símbolos fálicos do poder, arrogância e ganância. E mais gente inocente voltará a morrer.
Boa noite.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Encontro

Queridos e queridas,

Hoje eu vou fazer um comentário diferente dos que costumo fazer, quase sempre relacionando algum fato do cotidiano com um filme, um cineasta ou um artista. Hoje eu quero pedir o seu voto... Nunca pensei que eu ia dizer isso! Não, não sou candidata a vereadora, deputada, senadora. Nem a presidente da República ou síndica do condomínio. Peço que votem no roteiro que inscrevi no Concurso Filma Brasil, destinado a revelar talentos em curta e média-metragem. Haverá votação popular e também pelo júri especializado.

É uma agulha no palheiro. Mas eu adorei esta iniciativa. Um grupo de realizadores em cinema e apoiadores criaram esse concurso com o objetivo de divulgar vídeos de filmes nacionais, e no site estão exibidos, além dos roteiros, os previews de até um minuto e meio de cada filme inscrito. Os selecionados receberão premiação em dinheiro para realizar o filme, que será posteriormente exibido no Canal Futura. Eu dou apoio a todas as iniciativas que visem ao incentivo da produção cinematográfica nacional. Concursos, prêmios, festivais, encontros, debates, cafezinhos e rodas de amigos. Essas iniciativas são a prova viva de que há cabeças pensando, sonhando, delirando, às vezes, mas com a persistência de roteirizar filmes, produzir e dirigir filmes.

Por isso, eu peço o seu voto. Claro, desde que leiam o roteiro, olhem o preview - realizado graças ao espírito de solidariedade que reina no meu grupo, e graças a falta de recursos e patrocínio, o que - óbvio - justifica a necessidade de inscrevermos o roteiro para tentarmos o apoio que viabilize a produção deste filme. Espero, sinceramente, que gostem do que vão ler e do que vão ver. Um texto escrito com o coração, como eu costumo ser e agir na vida.

O curta-metragem se chama "O Encontro", e apresenta uma história em um mundo futurista, no qual as pessoas estarão praticamente resolvendo tudo em suas vidas através do mundo virtual. Entretenimento, negócios, decisões, e relacionamentos. Não que isso não aconteça atualmente. Mas do jeito que vai o nosso mundo capitalista pré-apocalíptico, movido a sistemas - não mais o solar, mas o bancário, financeiro, especulativo, gps, grande irmão, google earth - a tendência é de que as máquinas e a automação tomem conta de nossos espaços de convivência. Poderemos fazer quase tudo pela mediação do computador. Será??? É isso o que o filme questiona.
Uma mulher, Apple, começa a se relacionar com um homem que ela só conhece pela voz que ecoa do computador. A voz, sexy e sedutora, fala-lhe coisas belas, torna sua vida bela. Eles se encontram várias vezes, pelo computador, mas eles não se encontram de verdade. O que quer dizer se encontrar de verdade? A verdade não existe no mundo virtual? Se a mentira existe no mundo real, ela também existe no mundo virtual, e vice-versa. Mas Apple, apesar de ser uma mulher moderna, em um mundo futurista, é uma mulher que se apaixona por um homem que ela acha que conhece, que ela quer conhecer. E ele, o que ele quer? Somente o encontro entre ambos, olho no olho, frente a frente, poderá revelar? E depois do encontro, o que vem depois?

Então, divulgada a minha "plataforma eleitoral", fica aqui o convite para que acessem o site http://www.filmabrasil.com.br/ e se cadastrem, para votar no roteiro do curta-metragem O Encontro. Eu agradeço aos que me apoiarem. E aos que não apoiarem também.
Ah, e o slogan da campanha? Deixa ver... Que tal:
O encontro. Só quem ama de verdade encontra a felicidade.
Desculpem se soa piegas. Mas não é isso o que todo mundo procura encontrar?
Eu poderia dizer assim: O encontro. Só quem ama de verdade encontra a infelicidade.
Mas será que falar a verdade dá voto?
Baci!!!

video

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Um satélite orbitando no tutano da vida

Queridos e queridas,

Quando estive no Planetário da UFRGS, em maio deste ano, fiquei simplesmente encantada ao ver a beleza e a imensidão do Universo que nos abraça. Estrelas, planetas, o sol, a lua, e a Terra, ah, a Terra. A única certeza que temos de vida humana. É engraçado que volta e meia vem a dúvida de saber se existem outras formas de vida que não as humanas. Fala-se em extraterrestres, seres bizarros, monstros. Tantos filmes de ficção científica se esmeram, uns mais, uns menos, em usar da imaginação e de efeitos para mostrar como seriam esses não terráqueos.

Mas o que realmente me preocupa não é o Apocalipse, mas o Apocalipse now, para me apropriar do nome dado ao brilhante filme de Francis Ford Coppola, de 1979. Os terráqueos humanos estão se desumanizando. Imagino um filme no século 21 assim, com a desintegração do planeta Terra, como um balão estourando no ar, pela pressão que os des-umanos exercem sobre o planeta. Não cuidam da natureza, não são solidários, poluem, consomem muitas futilidades, não reciclam, não cuidam de si e do próximo.

Um filósofo, poeta e ensaísta "muito louco", Henry David Thoreau, foi assim considerado por alguns porque ele era a favor da desobediência civil. Ferrenho crítico do capitalismo e da sociedade de consumo, Thoreau chegou a deixar de pagar impostos em sua terra natal, nos Estados Unidos (!!!) e por esse motivo foi preso. E nessa noite na prisão escreveu sobre a Desobediência Civil, eu diria que um livro de cabeceira para cabeças como Gandhi e Martin Luther King. Thoreau, para ser coerente com seus pensamentos, foi dar aulas junto à natureza, foi morar na floresta, foi desvestir-se de tudo o que representasse uma vida consumista, materialista, fútil e inútil. Plantou suas batatas e cozinhou o seu pão. Durante os dois anos em que assim viveu, escreveu o livro "Walden, ou a vida nos bosques". Walden era o nome do lago que ficava no bosque onde Thoreau morava. Nas palavras dele: “Fui para os bosques viver de livre vontade, Para sugar todo o tutano da vida…Para aniquilar tudo o que não era vida, E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!”

Da vida real para o cinema, o ator e diretor Sean Penn inspirou-se para realizar uma pequena obra-prima, "Into the wild" (2007), ou Na natureza selvagem. Emile Hirsch interpreta Christopher McCandless, um jovem que deixou para trás sua vida burguesa, que literalmente queimou dinheiro em busca de uma vida livre. Ele era um homem que queria ficar longe do homem para humanizar-se. Foi buscar na natureza selvagem, foi em direção ao Alasca, para afastar-se dos símbolos do materialismo e buscar uma aventura, uma resistência, uma purificação.
Esta história, baseada no livro de Jon Krakauer, recebeu vários prêmios, como o Gotham Awards de melhor filme, e prêmio do público como melhor longa estrangeiro de ficção na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Sean Penn foi premiado como melhor diretor no Palm Springs International Festival e no Rome International Film Festival. Emile Hirsch recebeu prêmios de melhor ator no Mill Valley Festival, National Board Review, e no Rising Star Award Actor. E a música Guaranteed, da minha alma gêmea, Eddie Vedder, foi escolhida a melhor canção no 65º Globo de Ouro.

A notoriedade desta pequena obra-prima acontece pela tentativa de alguém em ousar ser diferente. Acreditar que as coisas podem ser diferentes, e melhores. Agir de forma diferente, sem se preocupar com o que os outros pensam. Queimar dinheiro é loucura? E é menos insano viver apenas por causa dele? Viver no bosque ou ir para o Alasca é coisa de louco? E é menos louco viver asfixiado na poluição e na violência das grandes metrópoles que a cada dia se engolem mais um pouco? Viver de verdade é como diz o poeta Eddie Vedder: "Considere-me um satélite, sempre orbitando... eu conheço todas as regras, mas elas não me conhecem."
Baci!!
Guaranteed
Eddie Vedder

On bended knee is no way to be free Lifting up an empty cup, I ask silently All my destinations will accept the one that's me So I can breathe... Circles they grow and they swallow people whole Half their lives they say goodnight to wives they'll never know A mind full of questions, and a teacher in my soul And so it goes... Don't come closer or I'll have to go Holding me like gravity are places that pull If ever there was someone to keep me at home It would be you... Everyone I come across, in cages they bought They think of me and my wandering, but I'm never what they thought I've got my indignation, but I'm pure in all my thoughts I'm alive... Wind in my hair, I feel part of everywhere Underneath my being is a road that disappeared Late at night I hear the trees, they're singing with the dead Overhead... Leave it to me as I find a way to be Consider me a satellite, forever orbiting I knew all the rules, but the rules did not know me Guaranteed.

Com certeza
De joelhos não é maneira de ser livre Levantando um copo vazio, pergunto silenciosamente Todos meus destinos aceitarão aquele que sou eu Para que eu possa respirar...
Círculos que crescem e engolem pressoas inteiras Metade de suas vidas dizem boa noite para esposas que nunca irão conhecer
Uma mente cheia de perguntas, e um professor em minha alma.
E assim vai...Não se aproxime ou terei que ir Segurando-me como a gravidade são lugares que puxam Se alguma vez houve alguém que me manteve em casa Seria você...
Todos que encontro, em gaiolas que compraram. Eles pensam de mim e meus vacilos, mas nunca sou quem eles pensaram Eu tenho a minhas indignações, mas sou puro em todos os meus pensamentos. Eu estou vivo...Vento em meus cabelos, me sinto parte de todos os lugares.
Sob meu ser está um caminho que desapareceu. Tarde da noite eu ouço as árvores, elas estão cantando com os mortos Sobrecarga...Deixe comigo enquanto encontro uma maneira de ser. Considere-me um satélite, sempre orbitando. Eu conheço todas as regras, mas as regras não me conhecem.
Com certeza...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Hypatia, uma mulher de verdade

Queridos e queridas,


O diretor chileno Alejandro Amenabar realizou filmes marcantes, como Mar Adentro e Os Outros. Ele deixa novamente a sua marca, desta vez em um filme exibido com excelente repercussão no Festival de Cannes: Ágora.
No Egito Antigo, o filme apresenta a história da filósofa e astróloga Hypatia, interpretada com o talento de Rachel Weisz. Hypatia se destaca no mundo das ciências, pelos seus conhecimentos em astronomia, matemática e filosofia. Trabalhou na biblioteca de Alexandria, escreveu vários tratados, e, com apenas 30 anos, ocupou a cadeira do filósofo Plotino na Academia de Atenas.
Mas Hypatia, além de ser mulher, tinha idéias próprias, as quais argumentava e defendia com veemência: a liberdade de religião e de pensamento. Dizia, por exemplo, que o universo era regido por leis matemáticas.

Hypatia, mulher, herege, foi esfolada pelos fundamentalistas cristãos, sob a influência do bispo Cirilo de Alexandria. Hypatia foi assassinada e queimada. Cirilo, foi canonizado.

Ágora trata de dois temas igualmente importantes e atuais: o fanatismo religioso e a violência contra a mulher. Vários outros filmes, sejam documentários ou de ficção, abordam essas questões. O que Ágora tem de diferente? Reconstitui uma personagem até então à margem na própria história da filosofia e da ciência. A verdade é que há historicamente um machismo cordial, assim como há um racismo cordial, em que mulheres não são quase vistas, citadas, conhecidas e muito menos reconhecidas.
Qual é o lugar da mulher?
Na filosofia, na astronomia, na matemática? Na vida?

E quando uma mulher, além de aparecer, "ousar" pensar, argumentar, como as idéias de vanguarda de Hypatia, há um preço a pagar por essa ousadia. No caso dela, custou a própria vida e a desonra da difamação, como se fosse uma herege. Pelo fato de ter nascido mulher.
Será que evoluímos muito de lá para cá?

A aprovação da Lei Maria da Penha mostra que há avanços na legislação e na criação de algumas redes de proteção, como respostas aos crimes hediondos cometidos historicamente contra as mulheres. As mulheres eram e são violentadas, sofreram e sofrem maus tratos, foram e são usadas como "laranjas" em tráfico de drogas, e várias outras situações de humilhações. Por outro lado, as mulheres passaram a ser cultuadas pelo seu corpo, pela jovialidade da pele e da idade. A chamada mulher-objeto passou a ser tratada como "mulher" no sentido de continuar sendo uma coisa, só que agora como um objeto de consumo e de desejo, como uma propriedade masculina, a quem se delega certos direitos, a quem se atribui certas capacidades. Uma tutela que se esconde sob uma pretensa emancipação. Que de fato ainda está a ocorrer, cada vez que uma mulher se liberta dessa coisificação estética, mercadológica, social.

Os ventos da modernidade e as revoluções comportamentais, nas quais Maio de 68 é uma referência fundamental, trouxeram mudanças com uma maior liberdade de expressão, e liberdade sexual. Mas no mundo capitalista pré-apocalíptico, até a liberdade e o sexo podem ser cooptados como formas de consumo. Infelizmente, para gol do capital, muitas mulheres se submetem a esses novos padrões do ser belo, do esteticamente correto, seja pela bulimia, seja pela anorexia. Ser mulher é ser top model, é ser jovem, é ser plasticamente bela. Não ser uma mulher de verdade para ser uma mulher desejada. Triste circo, esse.

O que é ser mulher de verdade? Ora, ser mulher de verdade é ser como é, é ser o que é. O problema é que há toda uma carga de preconceitos muito arraigados no imaginário popular: mulher não sabe dirigir direito, mulher é sensível demais e por isso não pode assumir certas funções, mulher engravida e por isso deve ser preterida em uma seleção para emprego... e atriz que está passada vai para a Casa dos Artistas... e coisas que tais. Mulher que entende de filosofia, astronomia e astrologia, então... e com o nome de Hypatia...
Fiquem bem!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Anti-heróis




Queridos e queridas,

Já escrevi aqui sobre vários roteiros de filmes que foram adaptados a partir de livros. Hoje eu quero me referir a um filme que eu gostei muito, e que surgiu a partir de uma série de histórias em quadrinhos escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons: Watchmen. A DC Comics publicou doze edições entre 1986 e 1987, e a grande repercussão que teve junto à crítica e ao público levou essa graphic novel a ser a única história em quadrinhos em destaque na lista dos cem melhores romances eleitos pela Revista Time.

Watchmen - o filme, dirigido por Zach Snyder, foi lançado neste ano de 2009, e retrata com fidelidade a trama original, ambientada durante a Guerra Fria. Um grupo de combatentes do crime - os Watchmen voltam a se encontrar a partir da investigação feita por um deles, Rorschach, do assassinato de um dos vigilantes - o Comediante, que estava aposentado, após atuar como agente do governo. Várias descobertas começam a ser feitas, em um clima de suspense que envolve a participação de todos os vigilantes. Cada um mostra sua história, seus conflitos, e sua visão sobre a natureza humana. Aí é que o filme começa a ficar mais do que interessante.

O diretor que já mostrou em 300 o seu talento para os efeitos especiais, mostra aqui uma sensibilidade para aliar esses impecáveis efeitos com uma história que envolve o espectador nos dilemas vividos por cada um dos vigilantes: o truculento e irônico Comediante, o semi-deus Dr. Manhatan, o ético Coruja, o justiceiro Rorschach, a destemida Espectral e o inteligente e estrategista Ozymandias.

É muito interessante observar tanto na história em quadrinhos como no filme, que esses personagens ou protagonistas não são, na verdade, heróis ou super-heróis. Eles tem poderes, mas tem também emoções e limitações. Apesar de uma missão em comum, que é proteger a humanidade, na prática cada um o faz à sua maneira, o que pode significar, por exemplo, tomar partido a favor do governo Nixon, ou agir de uma forma anti-ética, ou agir usando de golpes baixos, ou uma diplomacia na qual os fins justificam os meios. Na verdade, eles são anti-heróis. Na cena, por exemplo, em que o Comediante dá fim a uma manifestação hippie por não violência, usando de violência, ele grita, em alto e bom som, isso é o que fizeram com o sonho americano, esse é o sonho americano!

Fala-se em paz, em ser contra a guerra, e mostra os políticos tramando complôs contra seus inimigos políticos, e utilizando-se de um discurso em nome do que é o melhor para a população; mostra o lado da mídia que só se interessa em publicar manchetes que revelem novas catástrofes, novas tragédias, porque boas notícias não vendem jornais; mostra que a justiça é um conceito relativo, a partir do que cada um considera ser a natureza humana. Se agimos por instintos de preservação e de defesa, ou se realmente somos capazes de desejar o bem e de evitar o mal. Tanto o Comediante como Rorschach tem uma visão pessimista sobre essa possibilidade. Um é assassinado, e o outro, renegado, luta consigo mesmo para descobrir a verdade. A questão central do filme é: e quando descobrimos a verdade, o que fazemos com ela? "Quem vigia os vigilantes?"

Por isso, Watchmen é um grande filme. Eu, que sou fã de carteirinha de Darth Vader e de Batman, sou doravante fã também de Rorschach. Vi um pouco de mim nesse psicopata justiceiro. Acho a máscara dele muito fashion!
Boa noite!

domingo, 6 de setembro de 2009

Fica, Guion

Queridos e queridas,

O cineasta italiano Giuseppe Tornatore nos presenteou com um dos melhores filmes de todos os tempos: Cinema Paradiso (1988). Este filme é uma homenagem aos que fazem cinema, aos que gostam de cinema. Lembro dessa história porque li hoje uma matéria sobre o fechamento do Cine Guion Sol, aqui na zona sul de Porto Alegre. Na verdade, o Cine Guion exibiu sua última sessão em julho, e saiu uma pequena nota no jornal, sem maiores repercussões. Duplamente lamentável: fechar uma sala de cinema, e aparentemente, não fazer falta. Digo "aparentemente" porque faz e fará muita falta. Especialmente na zona sul, onde cada vez mais constróem-se casas, prédios, lojas, e aumenta o tráfego de veículos. O que leva um cinema a fechar as suas portas?

No filme Cinema Paradiso, na pequena cidade de Giancaldo, na Sicília, o garoto Totó torna-se amigo de Alfredo, projecionista do cinema local. Com Alfredo, ele descobre o mundo mágico e fascinante do cinema. A mãe de Totó achava uma perda de tempo seu filho querer ir ao cinema. Nesse mundo, Totó descobriu o amor, a amizade e a paixão. Tornou-se um cineasta de sucesso em Roma, e retornou à cidade-natal quando soube da morte de Alfredo. Alfredo morreu, e o Cinema Paradiso, ao se transformar em um estacionamento, morreu também.

Cinema Paradiso ganhou Oscar e Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Recebeu o Grande Prêmio de Júri, no Festival de Cannes, o Prêmio César, o Prêmio David di Donatello (a maravilhosa trilha sonora de Ennio Morricone),
o Bafta em várias categorias, além de várias indicações.

O nome Alfredo evoca em Totó, ou no adulto Salvatore di Vitto, lembranças do maravilhoso mundo da sétima arte. De um tempo em que as pessoas se reuniam para verem um filme, para se divertir, para passar um tempo junto, para sonhar, para fugir, para amar.

Com o tempo, o cinema deixou de ser a maior atração. Veio a televisão, a internet, os shopping centers, a globalização, a pressa, ah, a pressa, todo mundo tem pressa. O ritual de ir no escurinho do cinema, a presença do projecionista, a figura do lanterninha, o matinê, o beijinho no escuro, pegar na mão da moça, tudo passou a ter menor importância diante dos altos impostos, dos custos de distribuição, das taxas do Ecad, dos aluguéis exorbitantes das salas de cinema, da falta de apoio para investimentos nessa área.
Um estacionamento rende mais... no filme, e na realidade.

Eu tenho um amigo, seu nome é Alfredo. Ele não é projecionista, é montador. Eu tenho a alegria de dizer que com ele aprendi muito, pelo seu exemplo, pelo seu trabalho, pela sua paixão pelo cinema. Sinto-me como o personagem Totó, que de criança aprendiz foi crescendo interiormente em busca de si mesmo, e do que fazer com a paixão que descobriu pela arte do cinema. Essa busca inquietante é o que aproxima e acalenta os cinéfilos, os cineastas, os realizadores em cinema. Saber que não é perda de tempo, como achava a mãe de Totó,
e que tem um valor muito, muito, muito maior que um estacionamento.

Por isso, o Guion deve ficar. Não somente pelo trabalho e pela dedicação de seus administradores, como também pelo que simboliza: Totó e Alfredo em Giancaldo, em Porto Alegre, em qualquer lugar. A sala de cinema não pode fechar suas portas. É como um filme cortado antes de seu final. Essa história não pode terminar assim.
Abraço!